Os dez desmandamentos do haicai



Ricardo Silvestrin


1.

O haicai não é a revelação de algo concreto, mas abstrato. Através de elementos concretos - as palavras -, ele nos revela algo abstrato, o haimi.

2.

O haimi é o grande barato do haicai. É uma percepção ou um sentido que damos a algo e que queremos compartilhar com os outros através da linguagem, que é num primeiro momento expressão e logo a seguir comunicação.

3.

O haimi é encontrado através do estado meditativo.

4.

Estado meditativo é quando estamos receptivos. Quando a mente está serena e surge uma espécie de observador silencioso. A mente não atrapalha, não se interpõe.

5.

O estado meditativo independe do objeto de meditação. Pode ser qualquer coisa: a natureza, a natureza humana, o cotidiano, as idéias e até a linguagem. De qualquer coisa vista do ponto de vista meditativo pode se extrair haimi.

6.

Assim, o haicai nasce de algo que é objeto de um ato meditativo. Esse objeto nos é apresentado não para enxergarmos ele mesmo, mas o que o autor viu nele e quer compartilhar com o leitor.

7.

Os recursos formais próprios da poesia são válidos na medida em que estão em função de nos revelar o haimi. Assim, não há elementos a priori válidos ou inválidos. Em cada haicai, acharemos o meio formal. Imagens, recursos sonoros, jogo de palavras, enfim.

8.

Os recursos formais do gênero, como o terceto, a métrica, a relação entre os versos, permanecem, mas são objeto, ao longo do tempo e da cultura em que o haicai se dá, de crítica e até de transformação. Desse ponto de vista, a métrica em nossa produção de haicai contemporâneo passsou a ser questionada, uma vez que nada soma para se obter o haimi. Por outro lado, um haicai com métrica ou rima, pode ser apenas uma opção de estilo, que nada compromete o barato do haimi. Se tem haimi, os aspectos formais externos (métrica, rima) passam despercebidos e tê-los ou não é uma questão de gosto. Não está aí o haimi. Quando o haimi é maior, não há o perigo deles chamarem a atenção para si e desviar do haimi. Pelo contrário, podem, pela sonoridade, reforçar a percepção do haimi, criando um ambiente estético mais agradável, não tão árido (penso mais na rima do que na métrica).

9.

Não há haicai sem recurso formal. O haicai não é a coisa em si do mundo. A coisa em si não tem sentido nenhum. É impossível falar das coisas como elas mesmas falariam se pudessem. Elas não podem. É o nosso olhar sobre elas que produz o haicai. O que a estética do haicai nos ensina é a falar sem complicar. É achar algo sutil a partir das coisas. Assim, haverá sempre um recurso formal: descrever uma situação específica e não outra é um deles, selecionar algo que tem um paradoxo é outro e assim por diante.

10.

A transitoriedade de tudo é uma das coisas que se percebe em estado meditativo. O kigô, portanto, só é válido se revelador de haimi.



Alguns haicais:


Alto da serra --
Passa sobre a terra arada
A sombra das nuvens.

Paulo Franchetti

Aqui, basta a nós vermos uma imagem. O recurso formal é a descrição para percebermos o belo movimento das nuvens passando pelo chão, através da sombra, "arando" a terra. Existe em função do haimi, que é visualizarmos, através das palavras, o movimento. Assim, ficaremos no mesmo estado meditativo que permitiu ao autor enxergar um grande barato nisso tudo.


apaixonada
apaixotudo
apaixoquase

Alice Ruiz

Aqui, o estado meditativo permitiu ao autor ser um observador descolado da linguagem. A linguagem foi o objeto de sua meditação. Deste modo, percebeu que dentro da palavra apaixonada havia o nada e criou três outros finais/sentidos que juntos com o original mostram os três estágios da paixão. O recurso formal é o do neologismo, que existe em função de percebermos o haimi, o grande barato de ver a palavra paixão, que passa a ser objeto meditativo tanto quanto as nuvens do haicai acima.


cerveja na beira da praia
mesmo inclinado o copo
espuma

Ricardo Silvestrin

Aqui, a espuma que aparece é a do mar. O haimi é a percepção de que é impossível tomar cerveja na beira da praia sem espuma, pois se não houver a espuma do copo, haverá sempre a do mar. O estado meditativo percebeu na relação entre a linguagem e o mundo uma palavra que serve para duas coisas numa situação concreta. O barato é ver que elas se encontraram numa situação de verão e os seus significados no poema se conflituam pois há apenas um significante.


admirável
aquele que diante do relâmpago
não diz: a vida foge

Bashô

Aqui, o objeto de meditação é a linguagem. Uma comparação banal é alvo de crítica do mestre. O haimi é "não seja o bobo da linguagem". Ela pode levar você a dizer muita besteira. A linguagem em estado não-meditativo, é claro.


sinos do centro
o som não vem da igreja
vem de dentro

João Ângelo Salvadori

Aqui, o haimi é partir de um som dos sinos que se misturam entre o presente e o passado. O som do presente evoca o passado. Ou o som emerge mesmo do passado para o presente. Ou os sinos estão silenciosos e o som vem de dentro do autor. Bota estado meditativo nisso. O recurso formal é oposição entre o dentro e o fora através das palavras dentro e centro, mas elas se aproximam tanto que centro pode estar siginificando desde o início dentro (sinos de dentro). A rima iguala os dois. Há sons por todo o poema, s, c, vem/vem, dentro/centro. O haimi é o som.


tarde de vento
até as árvores
querem vir pra dentro

Paulo Leminski

Aqui, o haimi é a imagem de desepero das árvores agitadas ao vento, que está apenas sugerida no poema. Pode haver também folhas e galhos de árvores voando para dentro de casa, acompanhando o movimento das pessoas. O recurso formal é o comentário que revela uma imagem. A rima não perfeita vento/dentro só deixa o poema mais sonoro, aproxima pelo som o sentido de fora (vento) e dentro e não compete com o haimi. Ao contrário, o reforça.



Muitas das afirmações partiram de reflexões de Paulo Franchetti, a quem agradeço por me fazer pensar essas meio-respostas, meio-perguntas.




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30 de janeiro de 2002