Compartilhando experiências

O trabalho com crianças em sala de aula

Teruko Oda
São Paulo, maio de 2002

Minha primeira experiência foi em 1994 com alunos do Ensino Fundamental (na época, Curso Básico) de nove a quatorze anos, de uma escola pública de São Paulo.

O objetivo era o de prepará-los para o Children's World Haiku Contest (Concurso Mundial de Haicai Infantil), edição 93/94, organizado pela Fundação JAL (Tóquio), e co-patrocinado pela Japan Airlines.

Durante dois meses e meio, a professora de Língua Portuguesa nos cedeu cerca de uma hora (do horário semanal destinado às aulas de Redação), totalizando dez horas aproximadamente.

Dada a exigüidade do tempo, visto que o prazo para a inscrição dos trabalhos para o Concurso estava prestes a se encerrar, tive que me ater ao estritamente necessário, relevando aspectos introdutórios (origem, história, fundamentos).

Nessa ocasião, não havia a preocupação quanto à questão do kigo, pois o concurso não o exigia. Por ser um evento de alcance mundial, e os kigos variam de região para região, muitos deles desconhecidos ou inexistentes em alguns países, a exigência referia-se apenas à alusão à natureza, dentro do tema proposto pela JAL.

A sensibilização inicial ocorreu em clima de brincadeira, recitando trovinhas bem conhecidas, versinhos cômicos, cantando trechos de cantigas de roda e estimulando a participação de todos através de "perguntas-convite": quem sabe dizer uma quadrinha de amor, uma música que fala de flores, de animais? E de pássaros? Versinhos para o Dia das Mães, de Natal?

Meu objetivo era o de fazer com que as crianças percebessem a poesia que dormita e escorrega pelas entrelinhas de versos simples como a "batatinha quando nasce".

Nessa ocasião, por acreditar que a criança aprende fazendo e faz aprendendo, não me preocupei com os aspectos teóricos - conceitos, regras.

Minha preocupação imediata não era o de ensinar o que é poesia ou o que é haicai, pois tinha a convicção de que esse aprendizado se daria na prática.

Em outras palavras, por não dominar fórmulas mágicas de "ensinar poesia", eu não preparava aulas "prontas para consumo geral".

Simplesmente pedia às crianças para que escrevessem, em frases bem curtas, sobre o que haviam visto durante a semana. Tendo como ponto de partida esses textos entregues pelos alunos, eu procurava conduzir, caso a caso, o seu "pensar poético".

Através de perguntas, eu as induzia a buscar nelas mesmas, com base nas sensações ou emoções vividas (muitas vezes apenas imaginadas!), as respostas para as suas dúvidas e a melhor maneira de registrar isso no papel.

Numa dessas aulas, que eu preferia chamar de encontros, um aluno escreveu:

Quando abri a janela
Eu vi um passarinho
Cantando na chuva.

Mostrando-me o trabalho, perguntou se estava bom.

Sim, estava muito bom. Mas eu queria saber o que havia sentido quando viu a cena.

-- Fiquei alegre, foi a resposta.

Então perguntei: você gosta de chuva?

-- Não.

-- E de passarinho, você gosta?

-- Gosto. Está sempre cantando. Acho bonito.

-- Então, a sua alegria é por causa do canto do pássaro?

-- É, professora.

-- E cadê essa alegria? Não acha que ela está faltando no seu poema? Tente colocá-la nessas linhas para que os seus colegas, ao ler ou escutar, fiquem alegres, ou sintam alegria, também... Está bem?

Resmungou qualquer coisa, mas voltou para o seu lugar e se aquietou. Minutos depois, calado e "quase sumido", colocou a folha em minha mesa e foi sentar-se.

Para minha surpresa, os versos rabiscados sem nenhum capricho diziam

Mesmo com chuva
O passarinho cantava.
Que dia feliz.

Feliz, muito feliz, fiquei eu. Senti que estava no caminho certo.

A partir daí, pedi às crianças para que observassem a natureza, todos os dias, a qualquer hora, em qualquer lugar: céu, nuvens, estrelas, lua, o vento, as árvores, os pássaros, as flores, insetos, bichos, enfim, tudo o que elas achassem bonito ou interessante. Pois é aí que "mora" a poesia. E que registrassem os fatos observados, um de cada vez, em três linhas curtas, sem esquecer de colocar a emoção ou a sensação do momento, mas também sem usar "porque, por causa de, por isso, pensei que, achei que, acho que".

Surgiram trabalhos bastante interessantes, mas a métrica deixava muito a desejar, bem como a grafia, a própria caligrafia e as questões gramaticais.

A citação de vários elementos observados, no mesmo poema, foi outra questão arduamente trabalhada ao longo dos encontros.

Costumava dizer aos alunos: imagine que você tem uma miniatura de máquina fotográfica. Tente localizar alguns alvos (nuvem, flor, pássaro, montanha, mar, praia) o mais nítido que você conseguir. Escolha o que mais lhe interessar e tente fotografa-lo. Concentre-se nele, somente nele, e então escreva sobre esse alvo que está no foco de sua máquina. Depois que esse estiver pronto, escreva sobre todos os outros, mas sempre um de cada vez; e nunca, todos juntos. Se não eu fico sem saber de qual você gostou mais...

É óbvio que o rendimento seria bem outro, se pudéssemos estar observando a natureza in loco. Mas, considerando as dificuldades de escolas públicas dos grandes centros urbanos como São Paulo, não havia outro jeito...

A essa altura, havia adotado como estratégia o método de perguntas e respostas, isto é, induzir o aluno a buscar (pensar) soluções para os problemas que se apresentavam. Ao comentar os trabalhos, sempre em forma de perguntas, procurava mostrar o que estava faltando e o que estava sobrando no poema.

No momento seguinte, passei a estabelecer os temas para os próximos encontros, estimulando-os a escrever todos os dias.

Aos poucos, com a ajuda da professora de classe que corrigia os erros e selecionava os melhores trabalhos de cada aluno para a minha avaliação semanal, a poesia fluia com maior objetividade.

A cada encontro, o interesse pela poesia crescia entre os alunos.

Alguns chegavam a escrever cinco, seis poemas por dia. Percebi que eles estavam magicamente envolvidos na tarefa de pesquisar a natureza e que haviam apreendido o espírito do "fazer poético". Conclui, então, que estavam preparados para entender o que é haicai.

Li para eles alguns dos haicais premiados em concursos anteriores e pedi que dessem sua opinião: se gostou ou não, por quê, o que sentiu, imaginou, se percebeu o que o autor quis dizer (mensagem do haicai). Pudemos empreender uma maravilhosa viagem através das respostas que surgiam alegres, divertidas e descontraídas.

E através dessa experiência, tendo entendido a "postura filosófica" que deve nortear o haicaísta ou aquele que ama a natureza, as crianças não, apresentaram grandes dificuldades em apreender ou captar a mensagem contida no pequeno poema, que a essa altura, já sabiam tratar-se de haicai - poema de origem japonesa.

Passamos então para a fase de compor os haicais para o concurso. Pedi aos alunos para que participassem do evento como se fosse um jogo, de futebol, por exemplo. Eu os fiz perceber que, mesmo numa "pelada", na hora do recreio, quem quiser participar da brincadeira precisa seguir as regras estabelecidas pelo grupo; senão, fica fora do jogo.

E com esse espírito, expliquei que, se quisessem participar do concurso, teriam que aceitar as regras estabelecidas pelos organizadores. Todos de acordo, passamos a estudar as regras:

  • Subordinar o assunto do poema ao tema
  • Escrever em três linhas (que já sabiam chamar-se versos)
  • Cada verso deve conter, respectivamente, 5-7-5 sílabas métricas, ou muito próximas disso.

As duas regras iniciais foram prontamente entendidas e superadas. Quanto à terceira, embora já dominassem bem a separação gramatical de sílabas, muitos apresentaram dificuldades no aprendizado, e alguns, das séries iniciais, principalmente, apesar dos nossos esforços, não conseguiram perceber a diferença.

Nossa metodologia para explicar "elisão" e "sílabas tônicas e átonas", baseou-se na técnica de contagem "ritmica" dos sons que emitimos ao falar (linguajar comum, quando conversamos com alguém).

Vários exemplos foram escritos na lousa e os alunos se exercitavam livremente, lendo em voz alta e contando os sons emitidos nos dedos.

Exemplos:

  • Você já olhou o céu, hoje?
  • Como está o céu? O céu está escuro? E as nuvens?
  • A porta está fechada? De que cor é?
  • Está aberta e é azul.
  • Que dia é hoje. É vinte e um.
  • Minha terra tem palmeiras/ Onde canta o sabiá
  • As aves que aqui gorjeiam/ Não gorjeiam como lá...

Com um bom treino e muitas gargalhadas as dúvidas foram sendo sanadas. O tema proposto pela JAL nesse ano era CÉU ou MAR. Isto é, qualquer elemento (natural ou não) que de alguma forma mantenha uma relação/ligação de existência real e concreta com esses ambientes naturais.

Para explicar essa questão de "elemento de existência real e concreta", utilizei o seguinte exemplo: Se um poeta (ou um de vocês) quiser escrever no poema que seu barco dos sonhos flutua entre as estrelas, ele pode. Mas se o poema que quer escrever é um haicai, então não pode. Porque o haicai é o registro de um fato, ou, de alguma coisa, que está acontecendo de verdade - não serve um fato imaginado ou inventado.

Dada a amplitude do tema, as crianças conseguiram descobrir, sem demora, os assuntos para os seus poemas: arco-íris, pipa, estrela, sol, lua, praia, concha, siri, surfista, pássaros, jangada, estrela cadente, peixes, etc.

E nesse ano, nossas crianças conseguiram igualar-se às de outros países, com dez poemas selecionados na etapa mundial e publicados pela Fundação JAL em antologia trilíngüe (idioma do país de origem da criança, inglês e japonês).

Os outros quarenta haicais mereceram atenção especial dos organizadores e foram publicados em livreto à parte, apenas em português (Para a etapa mundial, são enviados a Tóquio cinqüenta haicais por país).

Acredito que o sucesso se deve à dedicação diária da professora, sem dúvida; mas, também em grande parte, ao fato de que a criança não tem receio de se expor ou de expor os seus sentimentos e se expressam com naturalidade, sinceridade e espontaneidade, o que torna o ato de compor mais fácil. Por outro lado, noto que as crianças não têm a preocupação de escrever um bom haicai, o que elimina as frases de efeito (afetação, artificialismo).

E os haicais nascem limpos, com muita leveza, refletindo a simplicidade autêntica própria das crianças.



Nota

O texto foi resgatado a partir de anotações em rascunho, casualmente encontradas, ao limpar um velho arquivo. Trata-se de resposta a um questionário solicitado por Cristiane S. Namiuti, aluna da Unicamp, que entre os anos de 97 e 98 desenvolvia um trabalho nessa área, ocasião em que freqüentou as reuniões do Grêmio Haicai Ipê.

Não sei se esta é a técnica mais adequada para levar a criança a descobrir o gosto pelo "poetar", em especial, pela poesia de haicai. Mas, devido às freqüentes solicitações de professores que me perguntam sobre a "técnica de ensinar poesia", resolvi divulgar a experiência neste espaço. Espero que o relato possa servir de estímulo para outras professoras enveredarem pelos mágicos caminhos do haicai.

24 de agosto de 2002