A Tanca


Resumidamente, a tanca, o tanca ou a(o) tanka é uma das formas clássicas da poética japonesa. A outra é o haicai. Formalmente, o tanca se caracteriza pela estrutura 5-7-5-7-7 sílabas (31 sílabas ao total), contra as 5-7-5 sílabas do haicai.

Mas há outra diferença, muito mais importante. A tanca é subjetiva. O haicai é objetivo. O mundo da tanca é o mundo dos sentimentos humanos, das paixões e do amor. O mundo do haicai é a natureza e o homem, enquanto parte dela.

Blyth diz: "O waka [outro nome para tanca] visa a beleza, uma beleza por vezes superficial, que exclui todas as coisas feias. A meta do haicai nao é a beleza. É algo muito mais profundo e extenso. É significado, significado poético, 'um choque de surpresa suave', que o poeta recebe quando o haicai nasce, e o leitor quando aquele renasce em sua mente".

Consoante a isso, alguém fez a seguinte observação: a tanca fala de coisas bonitas. Uma cena excessivamente bela, um pôr-do-sol que nos tire o fôlego, por exemplo, não é muito apropriado para o haicai, mas pertence ao mundo da tanca.

Decorre daí outro aspecto da tanca: o poeta de tanca escreve sobre sua subjetividade, e as emoções que sente na própria pele. Quando ele envelhece e passa a escrever apenas sobre as lembranças das emoções da juventude, ele chegou ao seu fim de carreira. Por outro lado, o poeta de haicai descreve o transitório e objetivo da natureza, e passa a escrever cada vez melhor à medida que envelhece e sente no corpo a experiência da transitoriedade vivenciada na própria decadência física.

As tancas abaixo são de Takuboku ("Pica-pau", 1885-1912), um dos poetas mais queridos do Japão. Takuboku morreu de tuberculose aos 27 anos. Foi perseguido pela pobreza. Perdeu filhos por doença. Sua mulher também era tuberculosa. Foi socialista. Seus poemas podem não falar de beleza, mas transbordam emotividade e "pathos". Quanta diferença da linguagem austera do haicai.

Takuboku escrevia seus poemas em tres linhas, mantendo a métrica 5-7-5-7-7 através de cesuras nos versos maiores. Essa disposição foi mantida pela tradução de Masuo Yamaki e Paulo Colina e serve também como provocação. Quantos haicais que temos visto publicados por aí não se enquadram melhor no modelo da tanca, por sua construção? A tanca nao é "um haicai espichado", como vimos.

Ei-los, com o japonês original:

ho ni tsutau
namida nogowazu
icchaku no suna o shimeshishi hito o wasurezu

Nas mãos, um punhado de areia.
Lágrimas a escorrer pelas faces.
Como te esquecer?

aozora ni kie yuku kemuri
sabishiku mo kie yuku kemuri
warenishi niruka

Fumaça que se desfaz no céu azul
Fumaça que se desfaz melancolicamente --
Meu espelho

tomo ga mina ware yori eraku miyuru hi yo
hana o kai kite
tsuma to shitashimu

Quando todos os amigos
Parecem me superar, compro flores
E o íntimo reparto com minha mulher.

furusato no namari natsukashi
teishaba no hitogomi no naka ni
so o kiki ni yuku

Sotaque da minha terra
Vou à estação ouvi-lo
em meio ao povo

tôkai no kojima no iso no shirasuna ni
ware nakinurete
kani to tawamuru

Pequena ilha ao leste do mar
Brinco à luz da areia com um caranguejo
A face molhada de lágrimas.

ono ga na o honoka ni yobite
namida seshi
jûshi no haru ni kaeru subenashi

Não há retorno à primavera
Dos 14 anos que me chama
Com lágrimas nos olhos

kanashiki wa,
(ware mo shikariki)
shikaredomo, utedomo nakanu ko no
kokoro naru.

Triste o coração infantil que não chora:
Nem repreendendo, nem batendo
(também fui assim).

asobi ni dete kodomo kaerazu,
toridashite
hashirasete miru omocha no kikansha

Meu filho foi brincar
e ainda nao voltou
Me divirto com o trenzinho!

yoru osoku
tsutome saki yori kaeri kite
ima shinishi chou ko o kaki idaku

Retornando noite alta do trabalho
Agasalho forte ao peito o filho
Que há pouco esfriou para a vida

inochi naki suna no kanashisa yo
sara sara to
nigireba yubi no aida yori otsu

A areia fugindo vazia
Entre o vão dos dedos:
Inanimada tristeza!


Tancas extraídas de Takuboku Ishikawa, "Tankas"
Tradução: Masuo Yamaki e Paulo Colina. Edição original de Roswitha Kempf Editores
4a edição, 1991, por Massao Ohno Editor e Aliança Cultural Brasil-Japão


17 de novembro de 2002