Haicais em dicionário guarani-português

por José Marins

A escritora Cecy Fernandes de Assis, acaba de lançar a 2ª. edição do seu Dicionário Guarani-Português/Português-Guarani. Com 954 páginas e pesando 1300 gramas, o dicionário traz 18 mil verbetes. Além disso, cerca de 30 haicais comparecem nas exemplificações, traduzindo o gosto da autora por essa forma poética. A obra é fruto de longos anos de estudo e pesquisa, iniciados com o Projeto Karumbe (produção de material didático em português/guarani para aldeias do Mato Grosso do Sul, entre 1988 e 2003). Cecy, escritora profícua, não só investe em pesquisa como estudou as línguas inglesa e japonesa e nos surpreende com a seguinte afirmação: “a estrutura do guarani tem semelhança com o japonês. Facilita o entendimento desta última”. Isto pode ser um bom motivo para o interesse de estudos haicaístas da língua guarani.

Ao buscarmos detalhes sobre como isto seria, a professora nos esclarece:

“Exatamente a mesma não é. Como todas as línguas há semelhanças e diferenças. O fato que mais chama a atenção é que japoneses, coreanos e chineses aprendem o guarani rapidamente e com apenas dois meses de contato já o falam com fluência”.

Segue-se uma exemplificação esquemática dos paralelismos, fornecida pela autora, especificamente para os casos dos guaranis Ñandeva, Paraguaio, Caiuá e Mbya (este dois com algumas diferenças). Japonês e Guarani são línguas aglutinantes que combinam vários elementos de significado distintivo em uma só palavra.

Exemplo de aglutinação em guarani: ipojojáva / justo.

i = partícula da terceira pessoa que supre o verbo ter.

po = mão.

joja = igual.

va = que.

Ipojojáva = que tem a mão igual/justo.

Exemplo de aglutinação em japonês: 三味線: shamisen ou sangen / três cordas de sabor ou três cordas (instrumento musical).

= 3

= sabor

= cordas.

Além disso, há léxicos particulares que variam de acordo com o status relativo entre interlocutores, no caso do guarani, vocabulário (parentesco) diferenciando para homens e mulheres.

Outra semelhança é o uso de partículas para fazer a interrogação: Guarani: pa e japonês: ka.

Mba’éicha pa (Como está?)

あなたはブラジル人ですか。

Anata wa burajirujin desu ka (Você é brasileiro?)

Nota-se também a “ausência” do verbo ser.

Che brasilgua (Eu sou brasileiro)

はい、ブラジル人です(Hai, burajirujin desu. Sim, eu sou brasileiro)

Mais semelhanças:

Consoantes sempre intercaladas com vogais. No guarani exceção apenas nos dígrafos r, nd, ng, r que são considerados letras.

Ausência do artigo.

Ausência de plural ou construção apenas com o vocábulo kuéra/tatchi, se necessário

Não flexão das pessoas verbais.

No guarani antepõe-se a parte regida à regente: pó/pe, mão/com: com a mão; o específico ao genérico: yvyra/rapo, árvore raiz: raiz da árvore; determinado ao determinante: hi/ri, ele/em cima: em cima dele.

Uso de onomatopéias.

Chama a atenção um fato inusitado, em se tratando de uma obra de referência, incluir haicais para exemplificação de muitos verbetes. Cecy, que também é poeta, utilizou em torno de 30 haicais de 18 autores. A autora explica o porquê dos haicais:

“Não sou haicaísta, mas louca de marré pelo haicai, olhos e ouvidos, por excelência de iluminuras. Sendo poeta estou sempre espiando dentro da calcinha da palavra usando os olhos de ver poesia, e as idéias são como milho pipoca… Puff, explodem e me deixam mais alegre que minha alegria. – Haicai no dicionário, com orgulho e sem pudor, foi uma feliz colagem das mimby (flauta) com o shamisen. Um belo arranjo para flauta, desvarios e assobios”.

Segue abaixo, um haicai de cada autor vertido ao guarani:

– Afrânio Peixoto, p. 78:

Observei um lírio./ De fato, nem Salomão,/ é tão bem vestido.

Ohecha peteĩ lírio./ Añetegua, Salomõ jepe,/ namondepyre porãive.

– Alice Ruiz, p. 97:

entre uma estrela/ e um vagalume/ o sol se põe

mbyja petei mbyte/ há ysondy/ kuarahy oike

– Anibal Beça, p. 157:

Sol no girassol./ Sombra desenha outra flor/ no corpo dourado.

Kuarahyjerehápe./ Kuarahy´ã ohai yvoty ambue/ hete ajúpe.

– A. A. de Assis, p. 513, 703:

Os passantes param./ Carregadinhos de flores/ os jacarandás.

Guataha opyta hikuái./ Yvoty myenyhëmi/ jakarandakuéra.

– Basho, p. 246, 654, 804:

Primeira chuva de inverno/ O macaco talvez queira/ uma capa de palha.

Araro´y peteĩha, / ka´i oipota peteĩ/ kapi´ipõcho michĩ.

– Buson, p. 801, 801b:

O rio de verão/ que alegria atravessá-lo/ de sandálias na mão.

Aráhaku ysyry/ tahory ohasa ichupe/ ipópe aope.

– Érico Veríssimo, p. 749

Gota de orvalho/ na corola de um lírio./ Jóia do tempo.

Ysapy hyky/ lírio akãmbytépe./ Hi´ára jeguaka.

– Helena Kolody, p. 73, 92:

Arco-íris no céu./ Está sorrindo o menino/ que há pouco chorou.

Jýi yvágape./ Ipukavy mitã´imi/ hasẽ naymái.

– Issa, p. 245, 729, 735, 806:

Chuva de primavera./ Uma criança/ ensina o gato a dançar.

Arayvoty ama./ Peteĩ mitã´i ombo’e/ mbarakaja ojeroky.

– Jacques Levin, p. 769:

Aragem que passa./ As maritacas quietas/ esperam o sol.

Yvytu vevúi ohasáva./ gua´a´ikirirĩva/ oha´arõ kuarahýpe.

– Jane Reichhold, p. 51:

no espelho/ suas rugas não mudam/ a superfície lisa.

itangechápe/ icha´ĩ nomoambuéi/ ape sỹi

– José Marins, p. 352, 482, 635, 643:

vê-se cor-de-rosa/ sobre o preto do asfalto/ flores de paineira

ohecha pytãngy/ hũ itahũ Ari/ samuhũ poty

– Masuda Goga, p. 245:

Libélula voando/ para um instante e lança/ sua sombra no chão.

Ñahatĩ ovevévo/ opyta sapy´a há oity/ ha´anga yvýpe.

– Millor Fernandes, p. 27:

Olha/ entre um pingo e outro/ a chuva não molha.

Ema´ẽ/ peteĩ rykyryky mbytére/ ama ndakýi

– Paulo Franchetti, p. 246:

Ao sol da manhã,/ imóvel como se dormisse,/ a coruja no fio.

Ko´ẽ kuarahýpe,/ omyi´ỹva koicha okerõ,/ ñakurutu inimbópe.

– Paulo Leminski, p. 586, 667:

acabou a farra/ formigas mascam/ restos da cigarra

opáma vy´a guasu/ tahýi oisu’u/ hembyre ñakyrã

– Rogério Viana, p. 191:

Noite escura/ vagalumes no caminho/ da menina.

Pyhare hũ/ ysoyndy hapépe/ kuñataĩme.

– Rosa Clement, p. 245:

sobre a relva,/ asas de libélulas/ molhadas de orvalho

nũre,/ pepo ñahatĩ/ hayvy aky

A autora

Cecy Fernandes de Assis, é poeta, escritora, pesquisadora e professora. A.A. de Assis, o grande poeta-trovador, a chama de “minha sobrinha”. Ela, por sua vez, diz “… Assis é meu tio emprestado. Ele é tio de meu marido. Quando casei, as mulheres trocavam os sobrenomes”. Autora de várias obras literárias e didáticas nas áreas de poesia, conto, crônica e infantil. Recebeu inúmeros prêmios, entre eles o internacional Casa de Las Américas, em Cuba, 1999, ao lado de nomes como Vargas Llosa, Lezama Lima, García Marquez, Chico Buarque e Ana Maria Machado. Sobre este prêmio, ela diz: “durante 14 anos, todos os anos, eu concorri ao Prêmio da Casa, porque para dedicação à literatura há mais tempo”.

Serviço:

Título: Dicionário Guarani-Português, 2ª edição
Autora: Cecy Fernandes de Assis
Editora Luiz Assis
ISBN 9788590863106
Tamanho: 16,5 x 23,5 x 4,5 cm, 954 páginas
Capa dura; miolo em papel Pólen.
À venda com a autora, ou nas livrarias Cultura, Saraiva e Loyola
Contato:
cecyfernandes@yahoo.com

Autoriza-se a reprodução do todo ou partes desta matéria, desde que feita a referência. Como citar este texto: MARINS, José. Haicais em dicionário guarani-português. [online] Disponível na internet via WWW. URL: http://www.kakinet.com/cms/?p=285. Acesso em dia/mês/ano.