Não tenho a intenção de ensinar os novatos a escreverem
haicais. Mas, aproveitando esta mensagem, gostaria de
oferecer alguma orientação àqueles que vêm constantemente
pedir auxílio à lista mas são normalmente ignorados.
Por que ignorados? Acredito que não seja por pouco caso. É que,
por estarem seus trabalhos muito distantes do padrão praticado
pelos veteranos, estes últimos simplesmente não tem muito o
que falar, ou acham muito complicado encontrar um ponto de
partida para dar uma orientação.
Bem, que tipo de conselhos se pode dar a quem está começando?
Se conselhos fossem bons, seriam vendidos.
Mas na suposição de que valham alguma coisa, vamos a eles.
NB1: Estes conselhos valem para principiantes e para veteranos.
Mas é claro que, à medida que se ganha experiência, pode-se
e deve-se desafiar as regras. E o principiante, tambem não pode
dar sua escapadinha? Pode, mas a chance de errar é muito grande.
Por isso, por enquanto, limite-se a seguir os conselhos abaixo.
NB2: Não é necessario dizer que se trata de uma visão pessoal.
Ninguem é obrigado a aceitar.
1- Descrever, apenas
Acusa-se o haicai de ser insosso e sem graça, e isso seria
causado por tal tipo de poesia se limitar a descrever coisas,
sem levar em conta a expressão do autor. Isso não é verdade e
tem sido bem discutido na lista.
Apesar dos melhores haicais partirem realmente de descrições
de cenas e sensações, tambem é certo que, nos melhores
haicais, a marca do autor está sutil e indelevelmente
impressa por esses misterios que só a poesia explica.
O aprendiz das antigas corporações de artesãos iniciava sua
carreira pelas tarefas mais simples e gradualmente passava a
executar trabalhos de maior responsabilidade, até que um dia
se tornasse um artista.
Da mesma forma, estou convencido de que um principiante do
haicai deve começar se limitando a descrever impessoalmente as
coisas que o interessam, sem tentar colocar os seus próprios
pensamentos. O exercício de apenas descrever é necessario
para distanciar o principiante do mundo da poesia normal e
atrair sua atenção para o que o haicai tem de diferente.
Mais cedo ou mais tarde, após uma prática constante, uma vez
que tenha se esmerado em descrever, o novato estará pronto
para liberar, em conta-gotas, aquilo que se constitui em sua
marca pessoal. Mas então, o poeta que assim escreve já não
será mais o mesmo poeta do inicio do aprendizado. Uma
profunda transformação (assim espero) terá se operado.
2- Apenas coisas objetvas, materiais e concretas
O principiante deve ser objetivo e descrever coisas concretas
e materiais. É proibido descrever pensamentos, emoções e
sentimentos ou falar de coisas passadas ou futuras. O haicai é
apenas o aqui e agora, fotografico. Não valem coisas imaginadas;
apenas vistas e sentidas.
O rio é um rio de agua, que pode ter peixes ou ser poluído.
Nunca um rio de tristeza ou de alegria.
As estações do ano são reais. Não são "estações do coração".
Provocam sensações de frio ou calor, chuva ou seca e nunca vem
ao mesmo tempo, mas sempre uma após a outra (pelo menos, no
instante em que se escreve o haicai).
Os bichos e plantas sempre têm nome, mordem ou são comidos,
têm perfume, cor ou fedor e têm endereço: na toca, no céu, no
jardim, na plantação, na gaiola, etc.
Os bichos e coisas não sentem, apenas são. Não faça como o
antigo ministro que disse "Cachorro tambem é um ser humano".
"Mas Bashô outro dia escreveu coisa e tal e tudo bem!" --
Bashô é Bashô e você é um principiante. Acha que as coisas
são assim fáceis?
3- Economizar linguagem
O haicai não é um resumo de coisas vistas. Não é espremer um
monte de impressões em 3 linhas. É apenas dizer o suficiente.
Só por que você ficou estupefato por causa de uma paisagem
belíssima, não tente sintetizar suas emoções do momento em
poucas palavras. Em vez disso, procure um pequeno detalhe da
paisagem para descrever. Ou passe adiante.
Não escreva coisas óbvias. O sol sempre nasce um dia depois do outro.
As águas do rio sempre fluem incessantes. A chuva sempre molha.
Escreva pouco. 17 silabas já é muito. Cuidado com os adjetivos.
Se não conseguir deter a verborragia, escreva um conto que passa.
Em resumo
Descrição - Objetividade - Economia
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