
Circula por aí um haicai muito famoso atribuído a Bashô:
Ao sol da manhã
uma gota de orvalho.
Precioso diamante.
Há muitas páginas na internet trazendo este poema, publicado no prefácio a “Haikai”, antologia de haicais traduzidos por Alberto Marsicano (Editora Oriento, 1988), e novamente publicado no prefácio a “Trilha estreita ao confim”, tradução feita também por Alberto Marsicano do famoso diário de Bashô.
Mesmo não sendo um especialista no mestre japonês, me chamou a atenção a construção deste haicai, em torno de uma metáfora comparando uma gota de orvalho a um diamante. Não é o caso de dizer que o haicai não comporta a metáfora. Sempre se escreveram versos com o intuito de saudar pessoas, como este:
Olhando de perto
Nem mesmo um grão de poeira –
Crisântemo branco.
Bashô escreveu o haicai em homenagem a sua anfitriã Sonome, aludindo à pureza de seus sentimentos. Isto é, o haicai é uma metáfora do caráter de Sonome. Entretanto, a diferença em relação a um uso mais “ocidental” da metáfora está no fato que o haicai sempre permite duas leituras, a objetiva (o crisântemo está limpinho) e a subjetiva (Sonome é pura como um crisântemo).
Modernamente (a partir do século 20), a metáfora ganhou lugar no haicai japonês, tanto entre tradicionais como entre conservadores. Mas isso é assunto para outra conversa. O que quero assinalar é que dificilmente Bashô (século 17) teria escrito o poema tal qual se apresenta.
Como sempre, a culpa inicial recai sobre o pobre tradutor, quem quer que tenha sido. Por isso fui à procura do original. Minha hipótese era de que deveriam ser mencionadas as palavras “orvalho” e “pedra”. Entretanto, depois de vasculhar uma coleção dos 1000 haicais originais de Bashô, não achei nada parecido.
Eis alguns dos haicais do mestre que citam orvalho:
Ao orvalho da manhã
fresco e enlameado
o melão.
Orvalho branco –
a flor de lespedeza ondeia
sem derramar.
Um outro, muito famoso, é este:
Não se esqueça
do gosto solitário
do orvalho branco.
Mas este, vejam só, está classificado na seção de “duvidosos”, haicais tradicionalmente atribuídos a Bashô cuja autoria é contestada.
Sem pista sobre o misterioso haicai (que agora sei que, definitivamente, não é de Bashô), apelei ao Google: uma busca pelas palavras-chave em inglês (diamond, dew, etc.) retornou com um haicai muito próximo da versão em português:
A drop of dew
sits on a rock
like a diamond.
(tradutor: Yuzuru Miura)
http://www.wonderhaikuworlds.com/posts/view/857
Não achei nada em francês, nem em espanhol. Em italiano, consegui o seguinte:
una goccia di rugiada
come un diamante
su una pietra
(tradutor desconhecido)
http://nettunodue.splinder.com/archive/2007-10
Pode-se verificar que a versão em português, “Ao sol da manhã/ Uma gota de orvalho/ precioso diamante”, ganhou alguns enchimentos. “Ao sol da manhã” contextualiza o haicai, mas explica o que não é necessário, pois o orvalho que reluz como diamante só poderia ocorrer ao sol da manhã. E diamantes são, normalmente, preciosos, o que torna o adjetivo absolutamente redundante.
Bem, o autor do haicai misterioso, conforme indicado nas páginas de onde vieram as traduções, é… Bôsha. Sim, ao invés de Bashô, Bôsha. Um equívoco feito por um leitor apressado ou simplesmente uma “correção” bem-intencionada e temos um haicai atribuído a Bashô, no melhor estilo de lenda urbana, potencializada pela internet, como é o caso dos lindos textos de auto-ajuda, atribuídos a Jorge Luis Borges ou Carlos Drummond de Andrade, que normalmente encontramos afixados nos murais das empresas e do restaurante por quilo.
Resolvido o mistério da autoria, resta o mistério da origem da lenda. Nas antologias traduzidas que tenho em mãos (Svanascini, Geir Campos, Olga Savary, Primo Vieira), não existe este haicai. Por enquanto, ele só aparece nos dois livros de Marsicano citados no início. Como nenhum deles traz bibliografia, não se pode avançar muito na investigação.
Quanto a Kawabata Bôsha, o verdadeiro nome do autor, este nasceu em 1897 e morreu em 1941, tendo sido filiado à escola de haicai Hototogisu, tradicional. O haicai de que falamos foi publicado em 1933. Mais sobre sua vida pode ser encontrado em:
http://wkdhaikutopics.blogspot.com/2007/04/kawabata-bosha.html
E o haicai em si, será um bom poema?
O original em japonês éassim: 金剛の露ひとつぶや石の上
A transliteração e a tradução palavra a palavra vêm a seguir:
kongô | no | tsuyu | hito | tsubu | ya | ishi | no | ue
“diamante” | de | orvalho | uma | gota | — | pedra | da | alto
(As aspas em torno de “diamante” não são gratuitas)
Vamos, de início, partir para uma tradução bem literal:
De “diamante”
Uma gota de orvalho –
Alto da pedra.
Esta tradução não é muito funcional em termos de poesia, mas sua vantagem, para os leitores já acostumados à linguagem do haicai, é expor a técnica da justaposição, um dos pilares do haicai tradicional, e o ponto exato de corte entre as partes, delimitado em japonês pela sílaba ya (conhecida por kireji ou palavra de corte) e em português pelo travessão (–):
1. Gota de orvalho de “diamante”
2. Alto da pedra
A segunda parte me parece ser apenas uma contextualização da primeira, situando a gota de orvalho no espaço. Portanto, pelo menos neste poema, a justaposição não tem um efeito tão dramático quanto o que vemos em outros casos, em que a junção de entidades sem nexo lógico imediato constrói um novo sentido, diferente do que representam as partes separadas. Logo, o “ponto” do poema está na primeira parte.
De imediato, percebemos que o autor não tem nenhuma dúvida sobre a natureza da gota de orvalho. Não é uma mera comparação, como na versão de Miura, que passo literalmente para o português:
A drop of dew
sits on a rock
like a diamond.
Uma gota de orvalho
Assenta-se sobre uma rocha
Como um diamante.
Além de ter morrido de tuberculose, um mal assaz freqüente entre os poetas d’antanho, Bôsha foi pintor, especializado em naturezas-mortas. Sua escola propunha olhar fixamente o objeto a retratar, até que sua verdadeira natureza se revelasse. O haicai bem pode ter sido resultado de um desses exercícios, ainda mais quando se sabe que os haicaístas são um povo estranho, acostumado a enxergar o universo dentro de coisas tão insignificantes quanto um grão de areia ou o olho de uma libélula.
Por outro lado, no âmbito da cultura clássica, o orvalho sempre foi considerado o símbolo da impermanência, um conceito budista. Ao surgir de manhã, brilhando ao sol, e desvanecer-se sem deixar vestígio ao cabo de horas, o orvalho torna-se uma metáfora da limitada vida humana e suas vicissitudes. Entretanto, nos minutos em que Bôsha encarou aquela gota sobre a pedra, estática, densa, redonda e gloriosa em sua plenitude, a visão de um paraíso eterno e inabalável se revelou.
Para Bôsha, a gota de orvalho não se parecia com um “diamante”. Ela era o “diamante”.
Foi da tensão entre a efemeridade física do orvalho e a eternidade vislumbrada que Bôsha resgatou a palavra kongô (金剛), que até agora entendêramos como “diamante”, entre aspas.
Por que as aspas em “diamante”?
A palavra japonesa kongô tem origem no chinês, que por sua vez deriva do sânscrito vajra. Denomina o cetro (pode ser um raio) indestrutível usado pelo deus Indra para combater a ignorância. Por extensão, também significa uma substância dura, tão dura que não há, no universo, o que possa destruí-la.
Enquanto isso, no ocidente, ao descobrirem que as pedras de carbono cristalizado encontradas sob a terra eram a substância mais dura conhecida, os homens passaram a chamá-las de diamantes, cuja etimologia é o grego adámas (ἀδάμας), que quer dizer indestrutível ou indomável.
Logo, por analogia, o ocidente costuma traduzir vajra/kongô por diamante. Vejam o exemplo da Sutra do Diamante, texto sagrado budista (em sânscrito: Vajracchedika Prajnaparamita Sutra; em japonês: kongô-kyô), também conhecida como o ensinamento que, por ser duro e afiado como o diamante, corta a ilusão.
http://zatma.org/Portuguese/literature/sutras/diamond.html
Porém, no japonês moderno, a pedra preciosa diamante é nomeada pela palavra inglesa diamond (ダイヤモンド), ficando a palavra kongô-seki (literalmente “pedra de vajra“) reservada para uso literário.
No ocidente, o grego adámas também derivou para “adamante”, palavra reservada para um uso mais “poético”. De adamante, chegamos a adamântio ou adamantium, a substância mitológica e indestrutível, existente apenas no mundo Marvel, de que são feitas as garras do mutante Wolverine.
http://es.wikipedia.org/wiki/Adamantio
A palavra diamante tem seu valor como símbolo de dureza, luminosidade e durabilidade (“diamantes são eternos”), mas está longe da dimensão mítica alcançada pela palavra kongô/vajra. Ao enxergar a inexpugnabilidade de vajra no efêmero orvalho, quem sabe Bôsha tenha feito uma metáfora de si mesmo, expressando a enorme força interior emanada de seu corpo doente.
É por isso que usamos aspas para o diamante da tradução, que não é uma mera pedra preciosa.
Antevendo esse problema, um tradutor mais esperto simplesmente ignorou a palavra kongô:
Just one drop of dew
Situated on a rock –
Indestructible.
(tradução: Yutaka Nakamura)
http://worldkigo2005.blogspot.com/2005/04/dew-tsuyu.html
Só uma gota de orvalho
Assentada sobre uma rocha –
Indestrutível.
Bibliografia
MATSUO, Yasuaki (editor). Haiku Jiten – Kanshô (Dicionário de apreciação de haicai). Tóquio, 1971. Ôfûsha.
NAKAMURA, Shunjô (editor). Bashô haiku-shû (Coletânea de haicais de Bashô). Tóquio, 1991. Iwanami.
YAMAMOTO, Kenkichi. Shinpan gendai haiku (Haicai moderno em nova edição). Tóquio, 1990. Kadokawa.
Wikipédia. Disponível na internet via www. URL: http://www.wikipedia.org. Acesso em 28/02/2009.

2 Comentários
Prezado editor,
Sennin é, sem dúvida, uma publicação de grande interesse para quem gosta de poesia e haikai. Há um haikai de Bashô, que fala sobre lua cheia (algo como “Lua cheia/Hoje ninguém pode dormir”, numa tradução livre e de memória), que eu gostaria imensamente de conhecer a grafia original (ideogramas em japonês). Haveria a possibilidade de enviar isso para mim ou indicar-me a quem recorrer?
Um abraço. Antecipadamente grato.
Carlos Barroso.
Prezado Carlos,
Obrigado pelo comentário. Talvez o haicai seja este:
Ah, lua de outono -
Caminhei a noite inteira
Em torno do lago.