{"id":4246,"date":"2025-01-14T20:30:46","date_gmt":"2025-01-14T23:30:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/?p=4246"},"modified":"2025-01-15T12:31:58","modified_gmt":"2025-01-15T15:31:58","slug":"digressao-filologica-sobre-o-haicai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/digressao-filologica-sobre-o-haicai\/","title":{"rendered":"Digress\u00e3o Filol\u00f3gica sobre o Haicai"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align:left\"><strong>Edson Iura<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/pimentel_will_martins.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4247\" srcset=\"https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/pimentel_will_martins.jpg 1024w, https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/pimentel_will_martins-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/pimentel_will_martins-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/pimentel_will_martins-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/pimentel_will_martins-320x320.jpg 320w, https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/pimentel_will_martins-440x440.jpg 440w, https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/pimentel_will_martins-200x200.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption><br>O poeta niteroiense Luiz Ant\u00f4nio Pimentel (1912-2015), a quem se atribui a responsabilidade pela dicionariza\u00e7\u00e3o do voc\u00e1bulo <em>haicai<\/em> (Foto: Will Martins)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pesquisadores \u00e0s vezes\nse voltam para a comunidade nipo-brasileira em busca de falares arcaicos, que\nn\u00e3o acompanharam a evolu\u00e7\u00e3o do idioma no Jap\u00e3o. Por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 no seio dos <em>haijin<\/em>\nimigrantes, e sim entre poetas brasileiros falantes de portugu\u00eas, que se\nregistra o uso arraigado de haicai, um termo obsoleto h\u00e1 mais de um s\u00e9culo. <em>Haiku<\/em>\n\u00e9 o termo atualizado que designa a poesia curta inspirada pelos c\u00e2nones\ndefinidos por mestres como Bash\u00f4, Issa e Shiki, no Jap\u00e3o e em quase todo o\nmundo. Mas a regra \u00e9 quebrada justamente no Brasil, onde, paradoxalmente, tal\nforma po\u00e9tica \u00e9 muito popular. Tentarei rastrear os principais pontos do\npercurso da palavra haicai ao longo da hist\u00f3ria, procurando entender a\ntenacidade de seu uso no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meus av\u00f3s paternos eram <em>haijin<\/em>\nou haica\u00edstas, seguidores do mestre Sat\u00f4 Nempuku. O <em>haiku<\/em> nunca foi\nassunto de conversa em fam\u00edlia, a n\u00e3o ser quando, ocasionalmente, comentava-se\n\u00e0 mesa que eles compareceram a um <em>haikukai<\/em>. Foi somente ap\u00f3s conhecer a\npalavra haicai de alguma leitura que perguntei a meus pais se aquela palavra <em>haikukai<\/em>\nn\u00e3o seria na verdade haicai. Responderam que n\u00e3o sabiam o que era haicai, e que\no que meus av\u00f3s praticavam era <em>haiku<\/em>. Este era, a meu ver, um tipo de\npassatempo que envolvia reuni\u00f5es de pares e, ocasionalmente, excurs\u00f5es a locais\npitorescos em busca de inspira\u00e7\u00e3o. Resumidamente, uma atividade social. Na\nidade adulta, ao aprender um pouco de japon\u00eas, vim a compreender que <em>haikukai<\/em>\nera a fus\u00e3o das palavras <em>haiku<\/em> (o g\u00eanero po\u00e9tico) e <em>kai<\/em>\n(associa\u00e7\u00e3o), denotando uma associa\u00e7\u00e3o de praticantes para composi\u00e7\u00e3o e\naprecia\u00e7\u00e3o coletiva de <em>haiku. <\/em>Percebi tamb\u00e9m que o <em>haiku<\/em> dos meus\nav\u00f3s e o haicai escrito em l\u00edngua portuguesa eram formas po\u00e9ticas com uma\norigem comum. Assim, desde jovem, essa dualidade me intrigou.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Da China ao Jap\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Haikai<\/em> (com \u201cK\u201d, romanizada segundo o Sistema Hepburn) \u00e9 uma palavra de origem chinesa que significa c\u00f4mico. Qual seria a etimologia da palavra <em>haikai<\/em>? Posso informar por ora que a defini\u00e7\u00e3o \u201c<em>haikai<\/em> \u00e9 igual a c\u00f4mico\u201d (em japon\u00eas: <em>kokkei<\/em>) chegou aos literatos japoneses atrav\u00e9s dos cl\u00e1ssicos chineses, em especial o Livro de Han, uma hist\u00f3ria da China durante a dinastia Han.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A palavra <em>haikai<\/em> entrou na literatura japonesa a partir da antologia imperial Kokinsh\u00fb do s\u00e9culo X, composta de mais de 1100 poemas <em>waka<\/em> (poemas de 5-7-5-7-7 s\u00edlabas, totalizando 31 s\u00edlabas, modernamente conhecidos por <em>tanka<\/em>). Entre os poemas da antologia, uma se\u00e7\u00e3o de 58 deles recebeu o t\u00edtulo de <em>haikai uta<\/em>, ou seja, poemas <em>haikai<\/em>, ou poemas c\u00f4micos. Podiam ser poemas c\u00f4micos no sentido de fazerem rir, mas no geral, o que se destacava era a discord\u00e2ncia desses poemas com a dic\u00e7\u00e3o po\u00e9tica elegante, ou seja, eles eram engra\u00e7ados por causa da tem\u00e1tica extravagante, da defici\u00eancia t\u00e9cnica ou do linguajar impr\u00f3prio. Por sinal, em portugu\u00eas, \u00e9 comum exclamarmos \u201cEngra\u00e7ado!\u201d mesmo sem vontade de rir, quando encontramos algo estranho ou incoerente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao se dividirem as 31 s\u00edlabas do <em>waka<\/em> em duas partes de 5-7-5 e 7-7 s\u00edlabas, atribuindo cada parte a um autor diferente, originou-se um novo g\u00eanero po\u00e9tico, o <em>renga<\/em>, ou seja, poemas ou estrofes encadeadas. Essa modalidade de poesia colaborativa evoluiu progressivamente das duas estrofes iniciais at\u00e9 chegar a cem estrofes sequenciais, alternando-se entre os formatos de 5-7-5 s\u00edlabas e 7-7 s\u00edlabas, compostas durante um encontro de poetas. Algum tempo depois, surge o <em>haikai renga<\/em>. A palavra <em>haikai<\/em> foi usada para deixar claro que se tratava apenas de um divertimento. Mas isso foi apenas at\u00e9 que o pr\u00f3prio <em>haikai renga<\/em> evolu\u00edsse de brincadeira fr\u00edvola para se transformar em arte elevada, pelas m\u00e3os de seu maior representante, Matsuo Bash\u00f4, no s\u00e9culo XVII. Nessa altura, o <em>haikai<\/em> <em>renga<\/em> j\u00e1 era conhecido apenas por <em>haikai<\/em>, a mesma palavra que, no tempo do Kokinsh\u00fb, significava poesia c\u00f4mica. Por\u00e9m, pelas m\u00e3os de Bash\u00f4, o <em>haikai<\/em> viu seu significado evoluir para algo completamente diferente, que consistia em emprestar significado sublime \u00e0s mudan\u00e7as sutis da natureza e nobreza \u00e0 paisagem humana mais vulgar.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Um poema com tr\u00eas nomes<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Numa sequ\u00eancia de <em>haikai<\/em>,\na primeira estrofe \u00e9 a mais importante, por ditar o rumo das estrofes\nseguintes. Essa primeira estrofe \u00e9 chamada de <em>hokku<\/em>, ou seja, estrofe de\npartida ou estrofe inicial. Ela tem a medida de 5-7-5 s\u00edlabas, totalizando 17\ns\u00edlabas. A import\u00e2ncia dessa estrofe era t\u00e3o grande que os poetas come\u00e7aram a\ncomp\u00f4-la com anteced\u00eancia, antes das reuni\u00f5es de <em>haikai<\/em>, e da\u00ed, a\nqualquer momento em que surgisse a inspira\u00e7\u00e3o. Caso esses <em>hokku<\/em> avulsos\nn\u00e3o fossem aproveitados em <em>haikai<\/em>, havia a possibilidade de public\u00e1-los\nem antologias de poemas independentes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o crescimento da import\u00e2ncia do <em>hokku<\/em>, em algum ponto da hist\u00f3ria as no\u00e7\u00f5es de <em>hokku<\/em> e <em>haikai<\/em> passaram a se confundir. <em>Haikai<\/em> significava originalmente uma sequ\u00eancia de <em>haikai renga<\/em>, enquanto <em>hokku<\/em> era a sua primeira estrofe. O fato \u00e9 que \u201cfazer <em>haikai<\/em>\u201d poderia ser tomado tanto por participar de uma reuni\u00e3o de versos encadeados como por escrever um <em>hokku<\/em> independente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse momento, chegamos ao fim do s\u00e9culo XIX, quando o poeta Masaoka Shiki estava gravemente preocupado com o futuro da poesia tradicional japonesa, que via em risco de desaparecer em contato com a cultura ocidental. Usando paradigmas da pr\u00f3pria cultura ocidental, em especial o de que uma obra de arte deveria ser a cria\u00e7\u00e3o de um indiv\u00edduo, o que ele fez foi condenar o <em>haikai renga<\/em>, que n\u00e3o considerava arte verdadeira, por ser uma cria\u00e7\u00e3o coletiva, e valorizar o <em>hokku<\/em>, este sim uma cria\u00e7\u00e3o individual. E fez por bem diferenciar esse novo <em>hokku<\/em> com um nome distinto: <em>haiku<\/em>, a uni\u00e3o das palavras <em>haikai<\/em> e <em>hokku<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Do Jap\u00e3o ao Brasil<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 muito difundida no Ocidente a narrativa de que Shiki inventou a palavra <em>haiku<\/em>. Isso n\u00e3o est\u00e1 errado, pois podemos considerar que Shiki inventou o significado moderno de <em>haiku<\/em> como um novo g\u00eanero liter\u00e1rio, e n\u00e3o mais como um mero peda\u00e7o do <em>haikai renga<\/em>. Entretanto, n\u00e3o \u00e9 segredo que a palavra <em>haiku<\/em> j\u00e1 existia ao tempo de Bash\u00f4, com o sentido de <em>hokku<\/em> de um <em>haikai renga<\/em>, como registra o popular dicion\u00e1rio japon\u00eas K\u00f4jien.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Chegamos assim ao fim do s\u00e9culo XIX&nbsp;com uma forma po\u00e9tica e tr\u00eas nomes diferentes: <em>haikai<\/em>, <em>hokku<\/em> e <em>haiku<\/em>. Essa confus\u00e3o n\u00e3o passou despercebida dos primeiros japon\u00f3logos: o ingl\u00eas Basil Chamberlain afirmou que <em>hokku<\/em>, <em>haikai<\/em> e <em>haiku<\/em> podiam ser usados indiferentemente. Analogamente, o franc\u00eas Michel Revon observou que os pr\u00f3prios japoneses n\u00e3o se preocupavam em distinguir seus significados. Isso \u00e9 um ponto-chave para entender como o <em>haikai <\/em>chegou ao ocidente. No Jap\u00e3o, com o passar do tempo, foi se estabelecendo a primazia da palavra <em>haiku<\/em>, como legado da vitoriosa revolu\u00e7\u00e3o po\u00e9tica liderada por Shiki. Hoje, com esse nome, a poesia da tradi\u00e7\u00e3o de Bash\u00f4 \u00e9 imensamente popular no Jap\u00e3o. Enquanto isso, na Fran\u00e7a, a situa\u00e7\u00e3o evoluiu de maneira distinta. Como havia tr\u00eas palavras com o mesmo significado, ficava subentendido que qualquer uma era boa. O escritor Paul-Louis Couchoud foi quem primeiro manifestou a prefer\u00eancia por <em>haikai<\/em>, e n\u00e3o <em>hokku<\/em> ou <em>haiku<\/em>, provavelmente pela cacofonia da s\u00edlaba <em>ku<\/em>. Sua influ\u00eancia acabou atingindo o brasileiro Afr\u00e2nio Peixoto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vamos recapitular\nrapidamente como o <em>haikai<\/em> entrou na literatura brasileira. Em 1919,\nAfr\u00e2nio Peixoto fez men\u00e7\u00e3o ao <em>haikai<\/em>, dando exemplos japoneses e citando\no franc\u00eas Couchoud. Em 1928, fez ainda mais, dedicando um ensaio inteiro a essa\nforma po\u00e9tica e nele incluindo um ap\u00eandice de 52 <em>haikais<\/em> escritos por\nele mesmo. A essa altura o <em>haikai<\/em> j\u00e1 era bem disseminado na Fran\u00e7a e\ndeve ter inspirado muitos poetas modernistas no Brasil. Guilherme de Almeida,\npor exemplo, instruiu-se sobre o <em>haikai<\/em> durante a d\u00e9cada de 1930, lendo\ntradu\u00e7\u00f5es francesas e at\u00e9 mesmo frequentando um gr\u00eamio de <em>haiku<\/em>\nnipo-brasileiro de S\u00e3o Paulo. Atrav\u00e9s do trabalho desses e de outros pioneiros,\no interesse pelo <em>haikai<\/em> se consolidou no Brasil, atravessando,\naparentemente inc\u00f3lume, at\u00e9 mesmo a Segunda Guerra Mundial. Nessa \u00e9poca, como\nparte do clima beligerante, as reuni\u00f5es <em>haikukai<\/em> entre imigrantes\njaponeses praticantes do <em>haiku<\/em> eram rigorosamente reprimidas, bem como\nqualquer manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica em l\u00edngua nip\u00f4nica.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">&#8220;Japonicamente ortodoxo&#8221;<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra era a realidade no mundo da l\u00edngua portuguesa. Para mostrar como andava a receptividade ao <em>haikai<\/em> nessa \u00e9poca t\u00e3o cr\u00edtica, citamos uma cr\u00f4nica do jornal carioca <em>A Manh\u00e3<\/em>, de 29\/05\/1943, em pleno calor da guerra no Pac\u00edfico, escrita por ningu\u00e9m menos que Manuel Bandeira. Nessa cr\u00f4nica, o poeta comentou seu interesse pelo <em>haikai <\/em>(que chamava de <em>hai-kai<\/em>,\u00a0separando\u00a0as\u00a0s\u00edlabas\u00a0com\u00a0h\u00edfen), citou nomes de praticantes brasileiros e traduziu quatro poemas de Bash\u00f4. Assim escreveu o poeta: \u201c\u00c9 verdade que at\u00e9 hoje s\u00f3 perpetrei um <em>hai-kai<\/em>; mas hei de perpetrar outros. N\u00e3o os farei rimados, como os de Guilherme de Almeida. Quero ficar japonicamente ortodoxo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi assim, sem\nobst\u00e1culos, que o <em>haikai <\/em>abriu caminho para chegar at\u00e9 nossos dias, cada\nvez mais popular, seja como alternativa de forma po\u00e9tica fixa, seja como\nve\u00edculo para tiradas humor\u00edsticas, como fez Mill\u00f4r Fernandes, ou mesmo como\nobjeto de reflex\u00e3o sobre a pr\u00f3pria poesia, como fizeram os concretistas. Esse \u00e9\no segundo ponto-chave para se entender a perman\u00eancia da palavra <em>haikai<\/em>.\nTornou-se t\u00e3o popular que mereceu vernaculiza\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, ser oficialmente\ninclu\u00edda na l\u00edngua portuguesa. Isso ocorreu em 1952, no famoso epis\u00f3dio em que\no haica\u00edsta Luiz Ant\u00f4nio Pimentel influenciou Aur\u00e9lio Buarque de Holanda na\ndicionariza\u00e7\u00e3o da palavra haicai com \u201cC\u201d. Essa vernaculiza\u00e7\u00e3o obedeceu \u00e0s\nregras da lexicografia portuguesa, que prefere o \u201cC\u201d ao \u201cK\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fato da palavra <em>haikai<\/em> ter uma longa hist\u00f3ria de continuidade e popularidade entre n\u00f3s levou a uma consequ\u00eancia imprevista: a palavra <em>haiku<\/em> n\u00e3o vicejou no Brasil, permanecendo segregada a haica\u00edstas de l\u00edngua japonesa, como os meus av\u00f3s. Quando as palavras <em>haiku<\/em>, <em>hokku<\/em> e <em>haikai<\/em> chegaram \u00e0 Fran\u00e7a, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, foram filtradas pelo vi\u00e9s da eufonia, e por isso prevaleceu <em>haikai<\/em> como a dic\u00e7\u00e3o mais aceit\u00e1vel. Isso se transmitiu ao Brasil, que adotou <em>haikai<\/em> em detrimento de <em>haiku<\/em>. Por\u00e9m, na Fran\u00e7a, o <em>haikai<\/em> t\u00e3o popular durante as d\u00e9cadas de 1920 e 30 desapareceu durante a Guerra. Quando o interesse por essa poesia ressurgiu na d\u00e9cada de 70, a mem\u00f3ria do antigo <em>haikai<\/em> tinha se apagado e assim os poetas franceses puderam estudar o <em>haiku<\/em> japon\u00eas a partir do zero. Com seus ouvidos melhor preparados para aceitarem a palavra <em>haiku<\/em>, \u00e9 assim que se chama hoje em dia a poesia de Bash\u00f4 na Fran\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Prefer\u00eancia nacional<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto ao Brasil, o interesse pelo <em>haiku <\/em>japon\u00eas sempre se renovou atrav\u00e9s de m\u00faltiplas vias. Podemos citar o interc\u00e2mbio com a forte tradi\u00e7\u00e3o do <em>haiku <\/em>dos imigrantes, retomado ao fim da Guerra, o j\u00e1 lembrado interesse da poesia concretista, a imensa influ\u00eancia de Mill\u00f4r Fernandes e Paulo Leminski e, recentemente, o interc\u00e2mbio internacional pela internet. Mas a nomenclatura <em>haiku <\/em>sempre se chocava com o prestigiado haicai j\u00e1 conhecido e praticado de longa data. Sempre que o <em>haiku <\/em>se apresenta no Brasil, ele \u00e9 obrigado a se identificar como sin\u00f4nimo de haicai e ceder primazia \u00e0 vers\u00e3o brasileira. O pr\u00f3prio <a href=\"https:\/\/www.kakinet.com\/ipe\/\">Gr\u00eamio Haicai Ip\u00ea<\/a>, um coletivo po\u00e9tico que atua fortemente na divulga\u00e7\u00e3o do haicai dentro de c\u00e2nones pr\u00f3ximos aos japoneses, nunca adotou a palavra <em>haiku<\/em>. O Brasil \u00e9 um dos poucos pa\u00edses do mundo que n\u00e3o usa essa palavra. Sabemos que at\u00e9 mesmo os poetas de Portugal preferem usar a forma <em>haiku<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o bastasse a preval\u00eancia de <em>haikai<\/em> sobre <em>haiku<\/em> no Brasil, h\u00e1 ainda a quest\u00e3o da prefer\u00eancia, por alguns, da palavra vernaculizada haicai com \u201cC\u201d, e por outros, da palavra original <em>haikai<\/em> com \u201cK\u201d. Haicai com \u201cC\u201d tem presen\u00e7a antiga nos dicion\u00e1rios, constando h\u00e1 tempos como vern\u00e1culo no Vocabul\u00e1rio Ortogr\u00e1fico da L\u00edngua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras, o VOLP. Entretanto, verificamos que a edi\u00e7\u00e3o de 2021 do VOLP manteve haicai com \u201cC\u201d e adicionou <em>haikai<\/em> com \u201cK\u201d, essa \u00faltima devidamente assinalada como estrangeirismo, ao lado de palavras como <em>tanka<\/em>, <em>sushi<\/em>, <em>rock<\/em> e <em>smartphone<\/em>. S\u00f3 se pode concluir uma coisa: a Academia de Letras rendeu-se \u00e0 realidade de que muita gente prefere escrever <em>haikai<\/em> com \u201cK\u201d, malgrado a exist\u00eancia da vers\u00e3o vernaculizada. Estrangeirismo por estrangeirismo, note-se a ironia da aus\u00eancia, no VOLP, da palavra <em>haiku<\/em>, a que verdadeiramente representa o poema no Jap\u00e3o moderno.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, a defesa da\ngrafia <em>haikai<\/em> com \u201cK\u201d pode se tornar muito emocional, como mostra uma\nmanifesta\u00e7\u00e3o que colhi no Facebook, que afirma categoricamente que haicai com\n\u201cC\u201d \u00e9 \u201cuma viola\u00e7\u00e3o, uma falta de respeito com a origem da poesia m\u00ednima\nimortalizada por Bash\u00f4!\u201d Cada um \u00e9 livre para usar a vers\u00e3o que quiser. Mas \u00e9\nposs\u00edvel reconhecer os pontos de vista daqueles que se posicionam a favor de\numa ou outra grafia. Em resumo, o que enxergo \u00e9 que, entre aqueles que defendem\no \u201cK\u201d, existe a vontade de homenagear a poesia dos mestres do passado e de se\nreconhecerem como herdeiros de uma grande, antiga e vener\u00e1vel tradi\u00e7\u00e3o\nliter\u00e1ria origin\u00e1ria do Pa\u00eds do Sol Nascente, representada pelo exotismo da\nletra \u201cK\u201d. J\u00e1 entre os que s\u00e3o partid\u00e1rios do \u201cC\u201d, o foco \u00e9 a naturaliza\u00e7\u00e3o em\ntermos de l\u00edngua, formato e tem\u00e1tica, trabalhando pela integra\u00e7\u00e3o do haicai \u00e0\nliteratura brasileira, em analogia ao processo de integra\u00e7\u00e3o dos imigrantes\njaponeses e seus descendentes como cidad\u00e3os brasileiros. Isso inclui nomear o\nhaicai pela forma aportuguesada do dicion\u00e1rio, da mesma forma que os\nnipo-brasileiros assimilaram a l\u00edngua e os costumes brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Haicai do Brasil<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enfim, chegamos at\u00e9 aqui sabendo como a palavra <em>haikai<\/em>\/haicai, uma denomina\u00e7\u00e3o obsoleta no Jap\u00e3o, aportou no Brasil e prevaleceu at\u00e9 hoje sobre as outras, na contram\u00e3o do mundo. Isso foi poss\u00edvel, em primeiro lugar, devido \u00e0 informa\u00e7\u00e3o recebida pelo Ocidente, de que havia tr\u00eas palavras equivalentes para denominar o mesmo tipo de poesia, sucedendo-se a escolha da mais euf\u00f4nica. Em segundo lugar, constatamos a grande popularidade que essa poesia, doravante denominada de haicai, atingiu entre n\u00f3s, unindo em torno dela uma significativa comunidade de estudiosos, tradutores e criadores, cujo interesse progrediu continuamente desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, sem nunca retroceder. A consequ\u00eancia \u00e9 a impossibilidade do termo <em>haiku<\/em>, majoritariamente empregado no mundo, de vencer a barreira erguida pelo haicai, entusiasticamente acolhido pela literatura brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O professor e tradutor Andrei Cunha <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=wDuhDCOHsWg\">reconheceu recentemente<\/a> que o haicai \u00e9 uma prefer\u00eancia nacional. A presen\u00e7a do haicai \u00e9 t\u00e3o forte entre n\u00f3s que obscureceu outras formas da poesia japonesa como o <em>tanka<\/em> e os versos livres. Por isso, muitos t\u00eam a impress\u00e3o err\u00f4nea de que o haicai \u00e9 a \u00fanica forma de express\u00e3o po\u00e9tica do Jap\u00e3o. Isso \u00e9 an\u00e1logo \u00e0 cren\u00e7a de que os japoneses comem apenas <em>sushi <\/em>e <em>sashimi<\/em>, uma infer\u00eancia indesej\u00e1vel, mas que decorre unicamente da avassaladora popularidade desses alimentos no Ocidente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como uma grande e\ndiversa fam\u00edlia, a prole de Bash\u00f4 \u00e9 extensa e ultrapassa fronteiras e s\u00e9culos.\nOs haicais escritos por poetas brasileiros podem por vezes se afastar dos\nc\u00e2nones da origem, mas nunca deixar\u00e3o de reclamar para si a heran\u00e7a dessa\ntradi\u00e7\u00e3o.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este texto \u00e9 um resumo do ensaio  \u201c<em>De haikai a haicai: Uma jornada etimol\u00f3gica<\/em>\u201d, publicado no livro <em><a href=\"https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/?page_id=2900\">Cesto de caquis: Notas sobre haicai <\/a><\/em>(Jundia\u00ed: Telucazu, 2021). Foi inicialmente lido em 18\/08\/2022, durante a I Semana de Cultura Japonesa da USP. Posteriormente, foi escolhido para integrar a antologia de escritores nikkei latinoamericanos <em><a href=\"https:\/\/www.apj.org.pe\/cultural\/publicacion_detalle\/mas-alla-del-haiku-antologia-de-autores-nikkei-latinoamericanos-presenta-el-fondo-editorial-de-la-asociacion-peruano-japonesa\">M\u00e1s All\u00e1 del Haiku<\/a><\/em> (organizada por Hagimoto e L\u00f3pez-Calvo, edi\u00e7\u00e3o da Asociaci\u00f3n Peruano Japonesa, 2024). <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Edson Iura Pesquisadores \u00e0s vezes se voltam para a comunidade nipo-brasileira em busca de falares arcaicos, que n\u00e3o acompanharam a evolu\u00e7\u00e3o do idioma no Jap\u00e3o. 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