{"id":4263,"date":"2025-02-12T17:20:30","date_gmt":"2025-02-12T20:20:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/?p=4263"},"modified":"2026-06-07T18:48:36","modified_gmt":"2026-06-07T21:48:36","slug":"notas-do-campo-seco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/notas-do-campo-seco\/","title":{"rendered":"Notas do Campo Seco"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\"><strong>Um conto de Akutagawa Ry\u016bnosuke<br>Tradu\u00e7\u00e3o, posf\u00e1cio e notas de Edson Iura<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"853\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/basho_sepia-853x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4300\" srcset=\"https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/basho_sepia-853x1024.jpg 853w, https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/basho_sepia-250x300.jpg 250w, https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/basho_sepia-768x922.jpg 768w, https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/basho_sepia.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 853px) 100vw, 853px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Matsuo Bash\u00f4 (1644-1694)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p style=\"text-align:left\" class=\"has-small-font-size\"><em>Chamou a J\u014ds\u014d e Kyorai, e lhes disse que, insone, fora tomado de s\u00fabita inquieta\u00e7\u00e3o, da\u00ed resultando o poema que ditou a Donsh\u016b, e pedindo que o lessem:<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Doente da viagem<br>os meus sonhos perambulam<br>pelo campo seco.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:right\" class=\"has-small-font-size\"><em>Di\u00e1rio da Loja de Flores<a id=\"_fr1\" href=\"#_fn1\"><\/em>[1]<\/a><br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap wp-block-paragraph\">Era a tarde do dia 12 do d\u00e9cimo m\u00eas do s\u00e9timo ano da era Genroku<a id=\"_fr2\" href=\"#_fn2\">[2]<\/a>. Pela manh\u00e3, o c\u00e9u do alvorecer, que por momentos tingiu-se de tons de vermelho, convidava os olhos sonolentos dos comerciantes de Osaka a mirar os telhados ao longe, em busca de chuva como a do dia anterior. Felizmente, essa n\u00e3o veio enevoar as copas dos salgueiros e seus ramos oscilantes, e, por fim, o dia, apesar de nublado, firmou-se claro e tranquilo. At\u00e9 a \u00e1gua do c\u00f3rrego, correndo como que sem rumo entre as filas de casas, estava opaca e indistinta, sem o seu brilho habitual, e, talvez por conta da imagina\u00e7\u00e3o, o verde das aparas de cebolinha que ali flutuavam parecia morno. Quanto ao vai e vem de pessoas ao longo de suas margens, de capuz na cabe\u00e7a e cal\u00e7ados fechados, essas andavam distraidamente, como se esquecidas do mundo em que soprava o inclemente vento de inverno. A cor das cortinas, o tr\u00e1fego das carro\u00e7as, o som distante do <em>shamisen<\/em><a id=\"_fr3\" href=\"#_fn3\">[3]<\/a> em um espet\u00e1culo de marionetes \u2014 tudo era levemente luminoso, e at\u00e9 a poeira da cidade, acumulada sobre os pilares decorativos da ponte, guardava em sua imobilidade a calma de um tranquilo dia de inverno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa altura, no sal\u00e3o ao fundo da loja de flores de Nizaemon, situada em Mid\u014d-mae, no bairro de Minami Ky\u016btar\u014d, o grande mestre de <em>haikai<\/em> da \u00e9poca, Matsuo T\u014dsei da Cabana da Bananeira<a id=\"_fr4\" href=\"#_fn4\">[4]<\/a>, permanecia sob os cuidados de in\u00fameros disc\u00edpulos, vindos de todas as dire\u00e7\u00f5es, e, ao cabo de 50 anos de idade, estava prestes a dar seu \u00faltimo suspiro em paz, \u201ccomo o calor de brasas enterradas que lentamente se extingue\u201d. Eram cerca de quatro horas da tarde. Junto \u00e0 cabeceira, a fuma\u00e7a do incenso subia em um \u00fanico fio no meio do espa\u00e7oso sal\u00e3o, formado ao remover as divis\u00f3rias internas.  A porta corredi\u00e7a, com suas cores novas, represava o inverno no jardim, mas, mesmo assim, o interior permanecia sombrio e gelado de arrepiar.  Bash\u014d se encontrava silenciosamente deitado com o travesseiro voltado para o lado da porta, e, \u00e0 sua volta, em primeiro lugar, estava seu m\u00e9dico Mokusetsu<a id=\"_fr5\" href=\"#_fn5\">[5]<\/a>, que, colocando a m\u00e3o debaixo das cobertas, verificava o pulso fraco do paciente, com o cenho franzido em sinal de preocupa\u00e7\u00e3o. O homem sentado logo atr\u00e1s, desde algum tempo entoando sem parar uma ladainha budista, era sem d\u00favida o velho criado Jirobei, que acompanhou o mestre desde Iga. Enquanto isso, todos reconheciam ao lado de Mokusetsu o grande e corpulento Shinshi Kikaku<a id=\"_fr6\" href=\"#_fn6\">[6]<\/a>, com o peitoral de seu casaco imponentemente estufado, junto a Kyorai. Este vestia um quimono de fina estampa, com os ombros eretos e uma postura solene, observando atentamente a condi\u00e7\u00e3o do mestre. Atr\u00e1s de Kikaku, com a apar\u00eancia de um monge calmo e reservado, ficava J\u014ds\u014d, que tinha um ros\u00e1rio de madeira sagrada<a id=\"_fr7\" href=\"#_fn7\">[7]<\/a> no pulso, e Ossh\u016b<a id=\"_fr8\" href=\"#_fn8\">[8]<\/a>, sentado ao seu lado, fungava sem parar o nariz, provavelmente porque j\u00e1 n\u00e3o conseguia suportar a tristeza que lhe invadia o cora\u00e7\u00e3o. Esquadrinhando o cen\u00e1rio, enquanto co\u00e7ava a manga de seu h\u00e1bito antigo e entortava o queixo de maneira antip\u00e1tica, estava a figura de um monge de porte atarracado, Inenb\u014d<a id=\"_fr9\" href=\"#_fn9\">[9]<\/a>, ombro a ombro com Shik\u014d, de pele morena e apar\u00eancia de g\u00eanio forte, ambos sentados no lado oposto ao de Mokusetsu. No mais, um certo n\u00famero de disc\u00edpulos estava disposto ao redor do leito do mestre, t\u00e3o quietos que n\u00e3o se percebia sua respira\u00e7\u00e3o, alguns \u00e0 direita, outros \u00e0 esquerda, todos lamentando um luto sem fim. Entretanto, apenas um dentre eles, talvez Seish\u016b<a id=\"_fr010\" href=\"#_fn010\">[10]<\/a>, recolhido a um canto do sal\u00e3o e prostrado dentro dos limites de um tatame<a id=\"_fr10\" href=\"#_fn10\">[11]<\/a>, deixava escapar um gemido de lamenta\u00e7\u00e3o. At\u00e9 mesmo esse som, contudo, era abafado pelo sil\u00eancio gelado que dominava o ambiente, e nenhuma voz se erguia para perturbar o sutil aroma do incenso que subia da cabeceira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bash\u014d, depois de ter feito seu vago testamento, com a voz enevoada pelo chiado do muco, parecia ter entrado em coma, com os olhos entreabertos. Sua face, ligeiramente marcada por antigas p\u00fastulas de var\u00edola, estava t\u00e3o emaciada que lhe saltavam as ma\u00e7\u00e3s do rosto, e os seus l\u00e1bios enrugados tinham finalmente perdido qualquer vest\u00edgio de sangue. Particularmente dolorosa de ver era a cor de seus olhos, cujo brilho estava praticamente apagado, voltados para cima, como se mirassem em v\u00e3o para al\u00e9m do teto, na dire\u00e7\u00e3o do c\u00e9u infinito, frio e distante:  <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><em>Doente de viagem<br>os meus sonhos perambulam<br>pelo campo seco.<\/em> <a id=\"_fr11\" href=\"#_fn11\">[12]<\/a><br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi dessa maneira, com esse mesmo olhar desconexo que ele, tr\u00eas ou quatro dias atr\u00e1s, parecia estar, tal como descreveu em seu poema final, perambulando, como em um sonho, pelas cores sombrias de um vasto campo seco, sem sequer um tra\u00e7o de luar. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 A \u00e1gua.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim falou Mokusetsu, voltando-se calmamente para Jirobei, que estava em sua retaguarda. O velho criado j\u00e1 tinha preparado uma tigela de \u00e1gua e um pincel com ponta de plumas brancas. Timidamente, arranjou os dois objetos \u00e0 cabeceira do seu amo, e, como se recobrasse a lembran\u00e7a, voltou a recitar a sua ladainha, em ritmo veloz e com grande devo\u00e7\u00e3o. Para o cora\u00e7\u00e3o simples e campon\u00eas de Jirobei, fosse Bash\u014d ou qualquer outra pessoa, o caminho para alcan\u00e7ar a outra margem exigia igualmente a submiss\u00e3o \u00e0 miseric\u00f3rdia do Buda Amida, uma cren\u00e7a s\u00f3lida e profundamente enraizada em sua f\u00e9.<br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/zashiki2-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4309\" srcset=\"https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/zashiki2.jpg 1024w, https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/zashiki2-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/zashiki2-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"> &#8220;A fuma\u00e7a do incenso subia em um \u00fanico fio no meio do espa\u00e7oso sal\u00e3o&#8221;<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, Mokusetsu, enquanto pronunciava a palavra \u201c\u00e1gua\u201d, ainda se questionava, como m\u00e9dico, se havia de fato esgotado todos os meios ao seu alcance, uma d\u00favida que frequentemente o assombrava. Contudo, logo recuperou a confian\u00e7a, e, voltando-se para seu vizinho Kikaku, fez apenas um sinal discreto, sem dizer uma palavra. Foi nessa altura que um sentimento crescente de tens\u00e3o irrompeu nas mentes das pessoas em volta do leito de Bash\u014d. N\u00e3o havia como negar que, ao lado desse sentimento de tens\u00e3o, havia tamb\u00e9m um sentimento de al\u00edvio, por finalmente ter chegado o momento esperado. Por\u00e9m, esse sentimento de al\u00edvio era t\u00e3o sutil que ningu\u00e9m se dispunha a confirmar sua exist\u00eancia. Mesmo Kikaku, o mais pr\u00e1tico entre os presentes, n\u00e3o p\u00f4de evitar surpresa, ao embara\u00e7osamente cruzar os olhos com Mokusetsu, que acabara de conhecer, e perceber o mesmo sentimento refletido no olhar do outro. Desviando apressadamente a vista para o lado, tomou ent\u00e3o o pincel com calma e prestou satisfa\u00e7\u00f5es a seu vizinho Kyorai:<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Com licen\u00e7a, vou come\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na sequ\u00eancia, molhou o pincel na tigela de \u00e1gua, enquanto sustentava o peso de seu corpo sobre os grossos joelhos, e olhou gentilmente para o rosto do mestre. Na verdade, at\u00e9 esse ponto, ele tinha uma ideia vaga de que a despedida do mestre seria muito triste. Contudo, ao ter em m\u00e3os a \u00e1gua do momento final, ele percebeu que seus sentimentos reais contrariavam completamente as manifesta\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas que previa, e seu esp\u00edrito se mantinha sereno. N\u00e3o s\u00f3 isso, mas ainda mais surpreendentemente, a vis\u00e3o sinistra do mestre moribundo, emaciado literalmente at\u00e9 o ponto de pele e ossos, despertou nele um sentimento de repugn\u00e2ncia, t\u00e3o intenso que quase teve de virar o rosto. N\u00e3o, intenso ainda n\u00e3o era uma descri\u00e7\u00e3o adequada. Era o tipo de repugn\u00e2ncia mais insuport\u00e1vel, como um veneno invis\u00edvel que provocava at\u00e9 efeitos fisiol\u00f3gicos. Nesse momento, teria ele, por acaso, transferido a sua antipatia por tudo o que \u00e9 feio ao corpo doente do mestre? Ou talvez, para ele, um hedonista amante da \u201cvida\u201d, quem sabe a realidade da \u201cmorte\u201d, ali simbolizada, fosse a mais terr\u00edvel das amea\u00e7as de uma natureza amaldi\u00e7oada? \u2014 De qualquer forma, Kikaku sentiu um desconforto inexplic\u00e1vel ante a vis\u00e3o do rosto do moribundo Bash\u014d e, t\u00e3o logo aplicou uma pincelada de \u00e1gua em seus l\u00e1bios finos e arroxeados, afastou-se com uma carranca. Enquanto se recolhia, um tipo de remorso passou brevemente por sua cabe\u00e7a, mas a repugn\u00e2ncia que sentira antes era t\u00e3o intensa que sobrepujava qualquer senso de moralidade. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois de Kikaku, o pr\u00f3ximo a erguer o pincel foi Kyorai, que aparentava estar intranquilo desde o sinal de Mokusetsu. Conhecido por sua mod\u00e9stia, curvou-se levemente ante os presentes, e aproximou-se da cabeceira de Bash\u014d. Em frente ao velho mestre de <em>haikai<\/em>, enquanto contemplava seu semblante consumido pela enfermidade, era obrigado a provar, a contragosto, uma estranha mistura de satisfa\u00e7\u00e3o e remorso. Carregadas de um v\u00ednculo inextric\u00e1vel, satisfa\u00e7\u00e3o e remorso, como sombra e luz, vinham perturbando sem descanso a sua natureza t\u00edmida nos \u00faltimos quatro ou cinco dias. Assim que soube da gravidade da doen\u00e7a, embarcou em Fushimi e bateu \u00e0 porta da loja de flores no meio da noite. Desde ent\u00e3o, n\u00e3o falhou um dia sequer nos cuidados ao mestre. Chamou Shid\u014d e pediu-lhe que o ajudasse nas tarefas di\u00e1rias, enviou uma pessoa ao santu\u00e1rio de Sumiyoshi para rezar por uma pronta recupera\u00e7\u00e3o, e acorreu ao aux\u00edlio do florista Nizaemon para comprar utens\u00edlios e materiais. Era praticamente o \u00fanico respons\u00e1vel por todas as provid\u00eancias. \u00c9 claro que Kyorai fazia tudo isso de espont\u00e2nea vontade, e era fato que n\u00e3o tinha o menor desejo de cobrar gratid\u00e3o de ningu\u00e9m, mas a consci\u00eancia de que se dedicava de corpo e alma aos cuidados do mestre tinha lan\u00e7ado as sementes de uma grande satisfa\u00e7\u00e3o no fundo de seu ser. Contudo, era uma satisfa\u00e7\u00e3o inconsciente, que atuava como um pano de fundo para suas atividades, na forma de um sentimento confortador, e n\u00e3o lhe trazia qualquer tipo de questionamento em sua vida di\u00e1ria. Caso contr\u00e1rio, enquanto estava sob a luz da lanterna de vig\u00edlia, entregue a conversas banais com Shik\u014d, n\u00e3o teria deliberadamente trazido \u00e0 tona o princ\u00edpio do dever filial, nem feito uma longa prele\u00e7\u00e3o incluindo uma frase como \u201cservir ao mestre \u00e9, para mim, servir aos meus pr\u00f3prios pais\u201d. Por\u00e9m, naquele instante, ao notar o breve sorriso no rosto malicioso de Shik\u014d, ele subitamente se deu conta de que sua at\u00e9 ent\u00e3o tranquila harmonia interior havia sido perturbada. Ele descobriu que a causa dessa perturba\u00e7\u00e3o estava tanto na satisfa\u00e7\u00e3o que acabara de perceber em si quanto na autocr\u00edtica a essa satisfa\u00e7\u00e3o. Enquanto cuidava do mestre gravemente doente, estaria se preocupando genuinamente com o seu destino incerto, ou, ao inv\u00e9s disso, degustava futilmente seu pr\u00f3prio esfor\u00e7o com satisfa\u00e7\u00e3o? \u2014 Sem d\u00favida, essa descoberta gerou um sentimento de culpa em uma pessoa t\u00e3o honesta quanto ele. Desde ent\u00e3o, Kyorai come\u00e7ou a sentir um certo desconforto em suas a\u00e7\u00f5es, devido ao conflito entre satisfa\u00e7\u00e3o e remorso. Precisamente quando um sorriso, mesmo que fortuito, apareceu no semblante de Shik\u014d, o sentimento de sua pr\u00f3pria satisfa\u00e7\u00e3o aflorou, e, como resultado, cada vez mais frequentemente, uma consci\u00eancia envergonhada de indignidade vinha invadir seus pensamentos. Os dias se sucederam, e eis que ele se encontrava ao lado do mestre, oferecendo-lhe a \u00e1gua do momento final. \u00c9 lament\u00e1vel, mas n\u00e3o surpreendente, que uma pessoa moralmente impec\u00e1vel, mas com nervos inesperadamente fr\u00e1geis, tenha perdido completamente sua compostura perante uma contradi\u00e7\u00e3o interior. Por isso, quando Kyorai empunhou o pincel, seu corpo se tensionou de maneira estranha, e at\u00e9 mesmo a ponta branca e aguada do pincel tremia intensamente, enquanto tocava os l\u00e1bios de Bash\u014d, como se tomada por uma agita\u00e7\u00e3o anormal. Mas, felizmente, junto com as l\u00e1grimas prestes a transbordar de seus olhos, os disc\u00edpulos que o observavam, incluindo o sarc\u00e1stico Shik\u014d, interpretaram essa agita\u00e7\u00e3o como resultado da sua tristeza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Feito isso, Kyorai recomp\u00f4s-se, endireitando os ombros do quimono de fina estampa, e retornou lentamente ao seu lugar, passando o pincel para as m\u00e3os de J\u014ds\u014d, que estava atr\u00e1s dele. Habitualmente discreto e respeit\u00e1vel, J\u014ds\u014d abaixou seus olhos com humildade, murmurando uma ora\u00e7\u00e3o indistinta, enquanto umedecia suavemente os l\u00e1bios do mestre, desenhando uma cena solene aos olhos dos presentes. Eis que, repentinamente, naquele instante t\u00e3o grave, ouviu-se uma risada sinistra, vinda de um canto do sal\u00e3o. Ou, pelo menos, assim pareceu. O som era como uma gargalhada emergindo do fundo do peito, mas represada pela garganta e pelos l\u00e1bios, e que, ainda assim, imposs\u00edvel de ser contida, explodia em fragmentos pelas narinas. N\u00e3o \u00e9 preciso dizer que ningu\u00e9m, naquela situa\u00e7\u00e3o, havia perdido o decoro e realmente rido. O que se ouviu era, de fato, o lamento sentido de Seish\u016b, h\u00e1 algum tempo tentando reprimir o choro, que, em um certo momento, irrompeu com viol\u00eancia e transbordou de seu peito, como a express\u00e3o de uma tristeza profunda. Talvez, entre os disc\u00edpulos presentes, n\u00e3o fossem poucos os que se lembraram da famosa estrofe do mestre: <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><em>Move-te, oh sepultura!<br>A minha voz lacrimosa<br>\u00e9 o vento de outono. <\/em><a id=\"_fr12\" href=\"#_fn12\">[13]<\/a>  <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante de um lamento t\u00e3o intenso, Ossh\u016b, que tamb\u00e9m estava prestes a se afogar em l\u00e1grimas, n\u00e3o p\u00f4de deixar de sentir um certo mal-estar por conta do exagero daquele pranto. \u2014 Ou, para usar de mais franqueza, diante do que via como falta de compostura. S\u00f3 que, provavelmente, a natureza desse desconforto era puramente intelectual. Apesar de sua cabe\u00e7a dizer n\u00e3o, seu cora\u00e7\u00e3o foi imediatamente abalado pelo lamento de Seish\u016b, e, em algum momento, seus olhos tamb\u00e9m estavam cheios de l\u00e1grimas. N\u00e3o mudou nem um pouco, em rela\u00e7\u00e3o ao que foi dito antes, o fato dele se sentir desconfort\u00e1vel com o comportamento de Seish\u016b, al\u00e9m de considerar que seria inaceit\u00e1vel se ele mesmo chorasse. N\u00e3o obstante, suas l\u00e1grimas come\u00e7aram a transbordar incontrolavelmente dos olhos. \u2014 Ossh\u016b, finalmente, colocou as m\u00e3os nos joelhos e, sem querer, deixou escapar um solu\u00e7o. Aparentemente, n\u00e3o foi o \u00fanico a solu\u00e7ar nessa altura. Entre os disc\u00edpulos que estavam reunidos ao p\u00e9 do leito de Bash\u014d, come\u00e7ou a se ouvir, quase ao mesmo tempo, o som suave de pessoas fungando o nariz, ecoando de maneira intermitente, o que fez vibrar o ar frio e tranquilo.<br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"614\" src=\"https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/kareno-1024x614.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4305\" srcset=\"https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/kareno.jpg 1024w, https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/kareno-300x180.jpg 300w, https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/kareno-768x461.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">&#8220;Os meus sonhos perambulam pelo campo seco&#8221;<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em meio a essas vozes t\u00e3o tristes, J\u014ds\u014d, com seu ros\u00e1rio de madeira sagrada enla\u00e7ado ao pulso, voltou a sentar-se t\u00e3o tranquilamente quanto antes. Depois dele, era a vez de Shik\u014d, que estava no lado oposto ao de Kikaku e Kyorai, se aproximar da cabeceira. Famoso por seu cinismo, parece que T\u014dkab\u014d, como tamb\u00e9m era conhecido, n\u00e3o era sens\u00edvel o suficiente para ser influenciado pelas emo\u00e7\u00f5es de seus vizinhos, abstendo-se de derramar l\u00e1grimas desnecess\u00e1rias. Com seu rosto moreno, como de costume, exibindo um ar zombeteiro, como de costume, e com aquela mesma postura peculiar de arrog\u00e2ncia, como de costume, pincelou negligentemente a \u00e1gua nos l\u00e1bios do mestre. Entretanto, mesmo ele n\u00e3o podia negar a forte emo\u00e7\u00e3o do momento: <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><em>Em meu cora\u00e7\u00e3o <br>um esqueleto abandonado. <br>Arrepio ao vento.<\/em><a id=\"_fr13\" href=\"#_fn13\">[14]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 quatro ou cinco dias, o mestre, lhe dizia repetidas vezes, expressando gratid\u00e3o: \u201cEu pensava que morreria sobre a relva, tendo a terra por travesseiro, mas \u00e9 uma felicidade poder deixar este mundo sobre uma cama t\u00e3o bonita\u201d. Contudo, n\u00e3o h\u00e1 grande diferen\u00e7a entre a imensid\u00e3o de um campo seco e o sal\u00e3o nos fundos de uma loja de flores. Agora molhando a sua boca, a verdade \u00e9 que ele, at\u00e9 tr\u00eas ou quatro dias, se preocupava com o fato de o mestre ainda n\u00e3o ter escrito um poema de despedida. Ontem, ele j\u00e1 fazia planos para reunir os poemas do mestre em uma cole\u00e7\u00e3o p\u00f3stuma. Finalmente, hoje, at\u00e9 h\u00e1 pouco, observava o mestre, que, a cada momento, se aproximava mais de sua morte, com um olhar quase curioso, como se o estivesse estudando. Indo al\u00e9m, e pensando de maneira c\u00ednica, \u00e9 poss\u00edvel que, por tr\u00e1s daquele olhar, ele j\u00e1 estivesse fazendo anota\u00e7\u00f5es para um futuro di\u00e1rio sobre os seus \u00faltimos momentos. Assim, mesmo assistindo ao mestre em seus momentos finais, o que dominava a sua mente eram coisas como a reputa\u00e7\u00e3o que ganharia frente a outras escolas, os resultados para os seus alunos ou at\u00e9 mesmo os seus pr\u00f3prios interesses e c\u00e1lculos pessoais \u2014 todos assuntos que nada tinham a ver com o mestre \u00e0 beira da morte. Portanto, no final das contas, podia-se dizer sem receios que o mestre, como frequentemente imaginava, de forma v\u00edvida, em seus poemas, tornou-se um esqueleto abandonado no vasto campo seco da vida. Os disc\u00edpulos, na verdade, n\u00e3o lamentavam o l\u00edder que morreu de forma desamparada no campo seco, mas lamentavam a si mesmos, por perderem o l\u00edder ao entardecer. Mesmo que se tentasse uma cr\u00edtica moral, n\u00e3o havia o que fazer, pois a falta de compaix\u00e3o \u00e9 pr\u00f3pria da natureza humana. \u2014 Enquanto se aprofundava nessas reflex\u00f5es pessim\u00edsticas, habilidade da qual se orgulhava, Shik\u014d terminou de molhar os l\u00e1bios do mestre, devolveu o pincel \u00e0 tigela original, e, com um olhar zombeteiro, observou os disc\u00edpulos que estavam solu\u00e7ando em l\u00e1grimas. Ent\u00e3o, lentamente, voltou ao seu lugar. Algu\u00e9m bondoso como Kyorai foi, desde o come\u00e7o, afetado pela atitude fria de Shik\u014d, o que refor\u00e7ou a inseguran\u00e7a que sentira antes. No entanto, apenas Kikaku, com uma express\u00e3o estranha e um tanto desconfort\u00e1vel, parecia se irritar com essa insist\u00eancia de T\u014dkab\u014d em ser desdenhoso e c\u00ednico at\u00e9 o fim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo ap\u00f3s Shik\u014d, no breve intervalo em que Inenb\u014d suavemente arrastava a barra de seu h\u00e1bito negro pelo piso de tatame, parece que o momento do \u00faltimo suspiro de Bash\u014d se acercou mais, como num estalo de dedos. A cor do rosto havia se tornado ainda mais l\u00edvida do que antes, e, por entre os l\u00e1bios \u00famidos, a respira\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes, parecia cessar, como se por esquecimento. Ent\u00e3o, de repente, num sobressalto, como se recordasse o seu papel, a garganta se contra\u00eda de forma percept\u00edvel, reiniciando a fr\u00e1gil passagem de ar. E, do fundo da garganta, por duas ou tr\u00eas vezes, ouvia-se um suave gorgolejo de muco. A respira\u00e7\u00e3o parecia estar gradualmente se extinguindo. No instante em que estava prestes a tocar esses l\u00e1bios com a ponta branca do pincel, Inenb\u014d foi subitamente tomado por um certo temor, que nada tinha a ver com a tristeza do luto. Era um temor quase irracional, de pensar que o pr\u00f3ximo a morrer, depois do mestre, seria ele mesmo. Ele sempre foi o tipo de pessoa com um medo patol\u00f3gico da morte, e, desde muito tempo, sempre que pensava em sua pr\u00f3pria, at\u00e9 mesmo em meio a passeios agrad\u00e1veis, experimentava um temor incomum, que fazia seu corpo suar em abund\u00e2ncia. Portanto, quando ouvia falar da morte de outras pessoas, ele se sentia aliviado, como se pensasse consigo mesmo: \u201cAinda n\u00e3o foi desta vez\u201d. Ao mesmo tempo, havia momentos em que ele tamb\u00e9m sentia uma inquieta\u00e7\u00e3o oposta, perguntando-se como seria quando chegasse a sua hora. Como era de se esperar, n\u00e3o houve exce\u00e7\u00e3o no caso de Bash\u014d. \u2014 Enquanto sua morte ainda n\u00e3o era t\u00e3o iminente, a luz dos dias ensolarados de inverno se infiltrava pela porta de papel e os narcisos enviados por Sonojo exalavam seu perfume suave, todos se reuniam \u00e0 cabeceira do mestre, criando poemas para consolar sua doen\u00e7a. Nesse per\u00edodo, ele oscilava entre dois estados de esp\u00edrito, luz e escurid\u00e3o, de acordo com o momento. Mas, \u00e0 medida que a morte se aproximava, \u2014 ele jamais esqueceria o dia da primeira chuva de inverno, quando o mestre n\u00e3o conseguiu comer a pera de que tanto gostava e a preocupa\u00e7\u00e3o surgiu no semblante de Mokusetsu inclinando a cabe\u00e7a, \u2014 a confian\u00e7a foi gradualmente substitu\u00edda por uma crescente inquieta\u00e7\u00e3o. Por fim, at\u00e9 mesmo essa inquieta\u00e7\u00e3o se transformou em um amargo temor, como se a pr\u00f3xima morte pudesse ser a de Inenb\u014d, encobrindo seus sentimentos com um manto frio e opressivo. Talvez tenha sido no instante em que ele o mirava,  justamente nesse instante, que, ao ouvir um leve som de catarro congestionado, ressoando na garganta de Bash\u014d, a coragem reunida para aquele momento se esvaiu no meio do caminho. \u201cQuem sabe seja eu o pr\u00f3ximo a morrer depois do mestre.\u201d \u2014 Inenb\u014d, que constantemente ouvia do fundo de sua mente essa esp\u00e9cie de voz premonit\u00f3ria, encolheu seu pequeno corpo e, ap\u00f3s retornar ao seu lugar, assumiu uma express\u00e3o ainda mais carrancuda do que de costume, mantendo os olhos erguidos de forma a n\u00e3o precisar olhar para mais ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um a um, os disc\u00edpulos Ossh\u016b, Seish\u016b, Shid\u014d e Mokusetsu sucederam-se para molhar os l\u00e1bios do mestre. Ao longo desse tempo, a respira\u00e7\u00e3o de Bash\u014d se enfraquecia a cada f\u00f4lego, e seu ritmo se tornava mais espa\u00e7ado. Tamb\u00e9m n\u00e3o se percebia mais movimento na garganta. Um rosto pequeno, com apar\u00eancia de cera e discretas marcas de p\u00fastulas emergindo sobre a pele, os olhos desbotados, fixos em um ponto distante, e uma barba branca como prata, estendendo-se do queixo \u2014 tudo isso congelado pela fria natureza humana, como que em torpor profundo, talvez sonhando com o para\u00edso ao qual est\u00e1 destinado. Ent\u00e3o, neste momento, o silencioso J\u014ds\u014d, fiel e experiente praticante de zen, que estava com a cabe\u00e7a baixa, atr\u00e1s de Kyorai, come\u00e7ou a sentir, lentamente, \u00e0 medida que a respira\u00e7\u00e3o de Bash\u014d se enfraquecia, uma tristeza sem fim, e, ao mesmo tempo, uma sensa\u00e7\u00e3o de paz sem fim, fluindo para dentro de si. A tristeza, por si s\u00f3, n\u00e3o precisa ser explicada. Mas a sensa\u00e7\u00e3o de paz era como se a fria luz do amanhecer se espalhasse gradualmente pela escurid\u00e3o, uma sensa\u00e7\u00e3o de misteriosa serenidade. E essa sensa\u00e7\u00e3o, momento a momento, afogava e eliminava todos os pensamentos diversos e, por fim, at\u00e9 mesmo as l\u00e1grimas em si n\u00e3o continham qualquer dor que ferisse o cora\u00e7\u00e3o, transformando-se em tristeza pura. Estaria ele celebrando o fato de que a alma do mestre transcendeu a ilus\u00e3o da vida e da morte e retornou \u00e0 terra pura do eterno nirvana? N\u00e3o, nem ele mesmo conseguia encontrar uma raz\u00e3o para afirmar isso. Nesse caso, \u2014 ah, quem ousaria, em v\u00e3o, ser tolo assim para enganar a si mesmo? Essa sensa\u00e7\u00e3o de paz de J\u014ds\u014d era, na verdade, a alegria da liberta\u00e7\u00e3o, como se seu esp\u00edrito, agora independente, que por tanto tempo se submetera, sem resist\u00eancia, \u00e0 sombra da personalidade de Bash\u014d, finalmente come\u00e7asse a esticar m\u00e3os e p\u00e9s com a sua pr\u00f3pria for\u00e7a. Imerso nesse \u00eaxtase de triste alegria, enquanto deslizava os dedos pelas contas do ros\u00e1rio de madeira sagrada, n\u00e3o percebia mais os demais disc\u00edpulos ao redor, que pareciam ter sumido, perdidos em suas l\u00e1grimas. Ele ent\u00e3o esbo\u00e7ou um leve sorriso nos cantos da boca e fez uma profunda rever\u00eancia na dire\u00e7\u00e3o de Bash\u014d, em seu \u00faltimo momento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi assim que Matsuo T\u014dsei da Cabana da Bananeira, o maior mestre de <em>haikai<\/em> de todos os tempos, cercado por disc\u00edpulos mergulhados em uma \u201ctristeza sem fim\u201d, partiu definitivamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Setembro de 1918<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Posf\u00e1cio<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\"><strong>Edson Iura<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"631\" src=\"https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/akutagawa_desk-1024x631.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4302\" srcset=\"https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/akutagawa_desk.jpg 1024w, https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/akutagawa_desk-300x185.jpg 300w, https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/akutagawa_desk-768x473.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Akutagawa Ry\u016bnosuke em seu escrit\u00f3rio<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ry%C5%ABnosuke_Akutagawa\">Akutagawa Ry\u016bnosuke<\/a> (1892-1927) \u00e9 considerado o pai do conto japon\u00eas. O maior pr\u00eamio liter\u00e1rio do Jap\u00e3o recebe o nome de Pr\u00eamio Akutagawa em sua homenagem. Escreveu cerca de 150 contos. Um dos mais famosos \u00e9 Rash\u014dmon, adaptado ao cinema por Kurosawa. Chegou a compor haicais, sob a alcunha haica\u00edsta de Gaki. Escreveu \u201cNotas do Campo Seco\u201d (Kareno Sh\u014d) em 1918, como uma ficcionaliza\u00e7\u00e3o da morte de Bash\u014d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para escrever este conto, Akutagawa baseou-se na leitura do \u201cDi\u00e1rio da Mochila\u201d (<em>Oi Nikki<\/em>), de Kagami Shik\u014d, e do \u201cDi\u00e1rio da Loja de Flores\u201d (<em>Hanaya Nikki<\/em>). Este \u00faltimo \u00e9 uma obra ap\u00f3crifa, originalmente publicada em 1811, que supostamente re\u00fane depoimentos e cartas de Bash\u014d e disc\u00edpulos. N\u00e3o obstante, suas qualidades liter\u00e1rias foram elogiadas, por exemplo, por Shiki, que teria sido levado \u00e0s l\u00e1grimas por sua leitura. Um trecho desse di\u00e1rio comp\u00f5e a ep\u00edgrafe do conto de Akutagawa, descrevendo as condi\u00e7\u00f5es em que um Bash\u014d desenganado comp\u00f4s seu \u00faltimo haicai, ponto inicial da narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em &#8220;Notas do Campo Seco&#8221;, s\u00e3o descritos os \u00faltimos momentos de vida de Bash\u014d, ao fim de uma viagem que fez de Edo (T\u00f3quio) \u00e0 sua terra natal Iga, Quioto e Osaka. Nesta cidade, adoeceu, talvez devido a uma intoxica\u00e7\u00e3o alimentar, e viu seu estado piorar dia a dia, for\u00e7ando seus disc\u00edpulos a alugarem o sal\u00e3o do florista Nizaemon, onde o instalaram no dia 5 do d\u00e9cimo m\u00eas lunar de 1694. No dia 8, cada vez pior, escreveu seu poema de morte. Faleceu no dia 12, ou seja, 28 de novembro de 1694. Seu corpo foi sepultado no templo Gich\u016b-ji, em \u014ctsu, atual prov\u00edncia de Shiga, a leste de Quioto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conto de Akutagawa trata dos momentos finais de Bash\u014d, cercado por seus disc\u00edpulos, que procedem ao ritual budista de pincelar seus l\u00e1bios com \u00e1gua, um tipo de extrema-un\u00e7\u00e3o. Bash\u014d permanece est\u00e1tico e silencioso durante toda a narrativa, como uma entidade quase divina. Encarna um ideal espiritual e art\u00edstico ansiosamente buscado, merecendo a rever\u00eancia de todos os presentes. Mas em vez de glorificar essa figura, Akutagawa enfatiza o contraste entre o mestre em vias de alcan\u00e7ar o para\u00edso e os disc\u00edpulos, imperfeitos em sua humanidade. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A narrativa descreve o perfil psicol\u00f3gico de sete dos disc\u00edpulos presentes: o hedonista Takarai Kikaku, o altru\u00edsta Mukai Kyorai, o devoto Nait\u014d J\u014ds\u014d, o inconsol\u00e1vel Kawai Otokuni ou Ossh\u016b, o aparentemente severo Mizuta Masahide ou Seish\u016b, o c\u00ednico Kagami Shik\u014d e, por fim, Hirose Izen, aqui chamado de Inenb\u014d, um monge que teme a morte. Tais personagens s\u00e3o pintados com tintas pessimistas e nada elogiosas por um narrador ir\u00f4nico. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 quem diga que, na verdade, Akutagawa, ao escrever sobre Bash\u014d, estava com o pensamento voltado para a morte recente de seu mentor, Natsume S\u014dseki (1867-1916), por quem tinha grande admira\u00e7\u00e3o. Os personagens seriam ent\u00e3o os diversos aspectos de uma dor complexa e multifacetada. Esse conjunto de rea\u00e7\u00f5es se torna uma explora\u00e7\u00e3o da ambiguidade moral e dos conflitos do ser humano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Podemos pensar nas diversas formas de express\u00e3o da individualidade que surgem da narrativa. Os disc\u00edpulos lamentam a morte do mestre, \u00e9 claro, mas tamb\u00e9m se preocupam com as consequ\u00eancias pessoais da perda. Eles s\u00e3o afetados por seus medos, seus interesses e pelos efeitos esperados com a partida de Bash\u014d de suas vidas. Esse quase ego\u00edsmo n\u00e3o \u00e9 condenado pelo narrador, que prefere atribu\u00ed-lo \u00e0 pr\u00f3pria natureza humana. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A morte t\u00e3o pr\u00f3xima, literalmente ao alcance da m\u00e3o, amplifica as contradi\u00e7\u00f5es dos indiv\u00edduos, obrigando-os a confrontarem suas falhas e suas motiva\u00e7\u00f5es reprimidas. A morte de Bash\u014d, na verdade, lan\u00e7a luz sobre a vida e suas complexidades. <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Notas<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a id=\"_fn1\" href=\"#_fr1\">[1]<\/a> Di\u00e1rio da Loja de Flores (<em>Hanaya Nikki<\/em>). Obra ap\u00f3crifa do s\u00e9culo XIX que pretendia ser uma cole\u00e7\u00e3o de notas e cartas dos disc\u00edpulos de Bash\u014d. Apesar de ser uma recria\u00e7\u00e3o ficcional, a obra foi amplamente apreciada pelo seu tom po\u00e9tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a id=\"_fn2\" href=\"#_fr2\">[2]<\/a> Pelo calend\u00e1rio gregoriano, 28 de novembro de 1694.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a id=\"_fn3\" href=\"#_fr3\">[3]<\/a> <em>Shamisen<\/em>: Banjo japon\u00eas de tr\u00eas cordas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a id=\"_fn4\" href=\"#_fr4\">[4]<\/a> Bash\u014d-an Matsuo T\u014dsei, no original. Bash\u014d-an quer dizer Cabana da Bananeira. T\u014dsei era o nome usado anteriormente por Bash\u014d (1644-1694) antes de ganhar a famosa bananeira que plantou em frente \u00e0 sua cabana. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a id=\"_fn5\" href=\"#_fr5\">[5]<\/a> Mochizuki Mokusetsu ou Bokusetsu. Datas de nascimento e morte desconhecidas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a id=\"_fn6\" href=\"#_fr6\">[6]<\/a> Takarai Kikaku (1661-1707) tamb\u00e9m chegou a usar o nome Shinshi.  <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a id=\"_fn7\" href=\"#_fr7\">[7]<\/a> A madeira sagrada refere-se \u00e0 figueira sob a qual Sidarta Gautama alcan\u00e7ou a ilumina\u00e7\u00e3o. No Jap\u00e3o, a figueira n\u00e3o se desenvolve devido ao clima temperado e, por isso, usa-se madeira de t\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a id=\"_fn8\" href=\"#_fr8\">[8]<\/a> Kawai Otokuni. Ossh\u016b \u00e9 uma outra leitura de seu nome. Datas de nascimento e morte desconhecidas.  <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a id=\"_fn9\" href=\"#_fr9\">[9]<\/a> Hirose Izen ou Inen (1648-1711). O sufixo b\u014d em Inenb\u014d quer dizer monge. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a id=\"_fn010\" href=\"#_fr010\">[10]<\/a> Mizuta Masahide (1657-1723). Seish\u016b \u00e9 outra leitura de seu nome. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a id=\"_fn10\" href=\"#_fr10\">[11]<\/a> Uma placa de tatame tem as medidas aproximadas de 2m x 1m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a id=\"_fn11\" href=\"#_fr11\">[12]<\/a> O \u00faltimo poema de Bash\u014d: <em>tabi ni yande yume wa kareno o kakemeguru<\/em>, escrito quatro dias antes de sua morte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a id=\"_fn12\" href=\"#_fr12\">[13]<\/a> Parte do di\u00e1rio &#8220;Trilhas Long\u00ednquas de Oku&#8221; (<em>Oku no Hosomichi<\/em>). Quando Bash\u014d chegou a Kanazawa, tencionava encontrar-se com o poeta Issh\u014d, que conhecia apenas por carta, mas soube que morrera um ano antes. Restou-lhe visitar sua sepultura. Original: <em>tsuka mo ugoke waga naku koe wa aki no kaze.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a id=\"_fn13\" href=\"#_fr13\">[14]<\/a> Parte do di\u00e1rio &#8220;Notas de um Esqueleto Abandonado&#8221; (<em>Nozarashi Kik\u014d<\/em>). Em sua primeira viagem po\u00e9tica, Bash\u014d temia sucumbir aos perigos de estradas prec\u00e1rias e infestadas de bandidos, vendo seu corpo esquecido se transformar em um esqueleto lavado pelo tempo. Mas a viagem foi coroada de sucesso e seguida por outras. Original: <em>nozarashi o kokoro ni kaze no shimu mi kana<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Bibliografia<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AKUTAGAWA, Ry\u00fbnosuke. <strong>Kareno sh\u014d<\/strong>. Aozora Bunko, 26 fev. 2004. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.aozora.gr.jp\/cards\/000879\/files\/72_14932.html\">https:\/\/www.aozora.gr.jp\/cards\/000879\/files\/72_14932.html<\/a>&gt;. Acesso em: 11 jan. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">______. O\u2019er a withered moor. In: ___.<strong><em> <\/em>Mandarins.&nbsp;<\/strong>Tradu\u00e7\u00e3o de Charles De Wolf. Brooklyn: Archipelago, 2007. ISBN 978-0-9778576-0-9 (edi\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica). <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">______. Terra morta. In: ___. <strong>Rash\u014dmon e outros contos<\/strong>. Organiza\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o de Madalena Hashimoto Cordaro; Junko Ota. S\u00e3o Paulo: Lunna, 2021. p. 69-82. ISBN 978-65-86238-33-4.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um conto de Akutagawa Ry\u016bnosukeTradu\u00e7\u00e3o, posf\u00e1cio e notas de Edson Iura<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[27,13],"tags":[180,4,94],"class_list":["post-4263","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-gente","tag-akutagawa","tag-basho","tag-edson-iura"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Notas do Campo Seco - CAQUI \u2022 Revista Brasileira de Haicai<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.kakinet.com\/cms\/notas-do-campo-seco\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Notas do Campo Seco - 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