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    Alexandre JP




Quantas lembranças,
me vem à tona agora.—
Flores de cerejeiras.



Ouço os gritos,
a molecada corre.—
Época de pipa.




  Ana




Vento

circo outonal
reviravoltas no ar
folhas ao vento




  Duda t




Outono já é
Vou tomar chá de sachê
A tarde feliz




  Midam




Se põe o Sol e vem a Lua
Se vai a Lua
É vem o Sol!




  Valdeci Alves de Almeida




Domingo de sol
indo ao passeio
o caracol.



Pau, pedra, espinho...
para a formiga
tudo é caminho.



Outono...
o vento abre a porta,
entra a folha morta.



Silêncio imenso...
tudo parece ouvir
o que eu penso.



Oração a Bashô

Ó, Bashô! Nos perdoai
por tudo o que f!z&mo$
com o haicai!




  Wil




Cachorro Louco
Corre, pula, late e baba
Por um osso




    R.Barbalho




Dia - Dia

acredito em viver
vendo em você
alegria florescer




  Flavio Costa




cotidiano
mulher arruma sala
homem olhando.



noite escura
pássaro-preto pia
nada se vê.



noite de verão
rua movimentada
triste solidão.



três horas em pé
sob um sol escaldante
água de nascente.



pilão antigo
pasta de amendoim
olhar guloso.




  Aloisio Andrade




Estações

A tempestade
moto serra árvores
nem é inverno



Verão

A queresmeira
flora global borra
de roxo o verão



Outono

Outro dia da ave
sabiá o símbolo
canto do Brasil




    Josete Maria Vichineski




A manhã desperta.
Junto com o Sol, a Lua Nova
Se posiciona.



Cueira do gaúcho,
A cabaça é paixão
De norte a sul



Da costa rochosa
Grande saltão desentoca:
Fim para as sardinhas!



Uma flor rara e nobre,
Rainha do litoral:
É a laelia purpurata.




  William Martins dos Santos




nasce uma flor branca
no meio do vaso
enfeitando a planta



calçam o caminho
debaixo do meu pé
pedras de São Tomé



janela anti-ruído
a pureza do silêncio
acalma meu ouvido




  Melissa de Britto




Chega a manhã
Flor a se espreguiçar
É época de primavera.



Medo

Atenta observo
Tremem-me as pernas
Filme de terror.



Primavera

Chão de retalhos
Vento forte
É época de primavera.




  Dalestella




Silêncio...
Com um ar de haicai
Calou-se




  Bruno Cosse Pedroso




Árvores em espiral
uivo de lobo-guará
esse é o cerrado.



Em cidade grande
única estrela no céu
helicóptero.



o som da chuva
se difunde
quando se debate no chão.



Late o cachorro
a campainha toca
tem gente chegando.




  Luiz Fernando




Libélula

Regato tranqüilo
a libélula chega
e lava os pés



Campina

No céu da campina
As nuvens passam ligeiras
No pasto as ovelhas calmas



Susto

Um susto gelado:
A perereca num salto
me beija no braço



Guerra

Vidro quebrado
Criança olhando
estamos em guerra



Espanto

Vidro quebrado
Cranças espantada
primeiro tiro




    Flávio de Queiroz




Armadilha:
no mar infinito,
penha na quilha.



Após temporal,
sabiá corta o silêncio.
Samurai sonoro.




    Nilton Manoel




No verde da praça
a rã salta, salta, salta
e assusta quem passa.



Na estreita calçada
o bípede e o quadrúpede
presos na cordinha.



Sapato furado
em dia de chuva fria,
resfria um coitado.



O piolho arteiro
desconcentra o aluno e a classe
e o mestre reclama.




  Maria Romana




Outono

matizes de cores
colcha de retalhos
a natureza tece.



A flor da laranjeira
perfumou o cair da tarde,
setembro chegou



Andorinha, nuvem
borboleta, da relva
fito o céu




    Maiara F.Siqueira




Escrever não é revelar-se
É dar um pouquinho
Do que está além da compreensão



Passou a chuva
passeio no parque
encontro o menino da cidade



sentimento suave
um sorriso tímido
amor de crianças



algodão doce
nuvem e brisa
de repente um beijo



atrás da árvore
as testemunhas
risos infantis




    Lena Casas Novas




São Paulo

No céu poluído,
Estarei debaixo em breve,
Vou fazer ruído.



Esfomeado

Durmo na banqueta,
Sovinam-me numa esquina
Migalha cuspida.



Garota Programada

Na pista molhada
Coagida com antiincêndio
Perdeu o pão diário



Elo quebrado

Engavetou com dor
Sua aliança mareada,
Trancou o noivado




  Perpétua Amorim




Noite infernal
pernilongos em bando
sugam meu sono.



A lua olha o gato
que mansamente passeia
pelo telhado.



Lá está, no chão
a alma seguiu a luz
o corpo, nem dói.




    Linney Jeanne Palma




tarde preguiçosa
de um feriado de Outubro
balanço na rede



manhã na floresta
ouvindo o canto dos pássaros
passeio nas trilhas



para ver os peixes
em passeios matinais
jangadas ao mar



na praça florida
ouço o gorgeio das aves
primaveris encantos



no bosque da escola
crianças brincam felizes
festejam o Sol




  Eolo Yberê Líbera




Vésper

Havia você,
sem alarde e sem a tarde,
sol de macramê



Manhã

Manhã na montanha:
e então o sol sai do chão,
silente, e me apanha.



Gira

Gira, girassol
gira em mim sua mentira
de ser gira e sol.



Reconhecimento

A rua se banha.
Lá fora, a chuva de agora
nunca foi estranha



Provérbio

Qualquer andorinha
capaz de fazer, desfaz
seu verão, sozinha.




  Wilson Santana




A Moça de botas
Distante olha o trem
Que parte e vem



Das Folhas Secas
O Obeso pisa
Cream crack no chão



Pingo de chuva
É chuva
É amor molhando-lhe



Com chapéu no mormaço
Passo o braço e abraço
A moça que passa




  Shibumi




Lua brilhante
No céu suspenso
Sorriso minguante



Chuva de ontem
Pequenos lagos refletem
Nuvens derradeiras



Caqui pra mim
Folhas amarelas
O outono para elas



Manhã fria
Bolinhos de chuva
Como minhã mãe fazia



Amanhece em silêncio
O som em meus ouvidos
Da brisa que me tocou




  André Luiz




Através do oxigênio
Ele vai encandecendo
e reluzindo.



Num pavio ele permanece,
com vela de cera ele se
faz presente, é o fogo!




    Bernardo Souto




manhã de neblina
agora é branco
o verde da colina



violetas à mesa
brasas azuis
violenta beleza



fim de partida
o vento move
a bola esquecida



xadrez a três
o sopro do vento
derruba os dois reis



leve desliza
a folha no lago
barco de formigas




  Siderall Poeta




Claras manhãs
o sol luzindo os grãos
maduros da romã



Passeio esquisito
de mãos dadas
a pulga e o mosquito



Precipitado
suicidou-se
o enforcado



Noites urbanas
luzes de neon
dúvidas urbanas




  Maioni




Pingos sólidos no varal
vidraça embaçada
bule de chá



o trem some na curva
meus olhos ficam




  Lúcio Kume




claro luar n’alma
junto à dureza da pedra
like a rolling stone



arranha — o céu
cadente brevilínea
tampouco estrela



ramagens desta mata
um ouvir cristalino, fio
d’água serenascente



Volteios de onda
por onda: nas pedras
— Outronda!



sol penso indolor
oxidar toda cor, outra luz
de sentido o que fica




  D'Aguinaga




Ela disse: ai
O menino pede: vem
Doce fruta cai.



Triste a liberdade
Em uma gaiola canta
Voejando em sons.



Pezinhos descalços
Pelas estradas da terra
Como estão cansados!



I

Os gatos miando
Cobiçam a linda lua
Rindo diz: sou tua.



II

Ver os pirilampos
Divagando com seus lumes
Em torno dos campos.




  S2 Silvana Aparecida S2




Manhã fria de verão
Cheiro de flor
Um triste olhar!



Acordar com um bolo
Alegria maravilhosa
Abraço apertado!



Brincadeira alegre
Chuva cai na rua
Um chamado se ouve!



No forno um abacate
Chega a surpresa
Olhar encantado!



Uma cama desarrumada
Bidê e rádio
Sonhos profundos!




    Fábio Azevedo (Hyaku Ryuu Kei)




O galo não cantou,
A lua azul ainda brilha,
Inicio o zazen.



O sino acaba de bater,
Chinelos à beira da porta,
Vento, silêncio...



Pardais ciscando,
Pedras enfileiradas.
Alvorada morna...



Shinai em riste,
Pássaros cantando.
Caminho real.



Verão em três linhas,
Ou apenas em uma.
Viver em haicai...




  Paulo Ciriaco




A brisa:
Sorriso que vem
Dançar as flores.



A sobra do boi
Acolhe-se no
Crepúsculo ruminando estrelas.



Na ausência dos pássaros,
As árvores
Declinam-se na morte.




    Thomaz de Souza




Passada a chuva,
o céu descansa
nas poças.



Noite fria:
os postes iluminam
o silêncio da rua.



O céu azul
é uma imensidão
sozinha.



O vento passa:
as saias das mulheres
são bandeiras.



As árvores da infância,
antes pequenas,
confrontam o céu.




    Fabio Melo




Mosca

Uma mosca adeja
Um homem ali no meio
Que descanse em paz



Noturno I

Uma noite, sem sono
Um vulto ilumina o quarto
Anunciando o dia




    Trezis




Após o dilúvio

sol ilumina
o arco-íris
boiando no mar



presas nas árvores
serpentes e enguias
trocam olhares



com os espantalhos
ando
pássaro-a-pássaro



manhã otimista
os chuchus são casulos
as larvas niilistas



sonho em segredo
sozinha na terra quente
patina no gelo




    Vera Vilela




Da flor branquinha
Nasce a negra bolinha —
Doce jabuticaba



Somem as estrelas
Solitariamente fica —
Lua cheia



Tarde muito fria
Chá de maçã e canela —
Carinho de mãe



Filhotes e ninhos
Frutas quase maduras —
É Primavera



Na árvore folhosa
Travestido de rubi
Vemos o caqui




  Golfieri




hai
kai
183



O monge
antevendo a chuva
cultiva a sede




    Rosangela Aliberti




No início da chuva
uma das portas se fecha —
sopra a ventania.



No meio do campo
Girassóis iluminados
entre um arco-íris.



Cestas com espigas
homens trabalham na terra —
Na tela do pintor.



Nuvens passageiras
águas lavam os calçados —
Luar na lagoa.



Vaga-lumes voam
giram círculos no lago —
Dezenas de luzes...



Em uma arandela
o luzir quente sem voltas —
Mariposas mortas.




  Alencastro




Noite gelada
Gente feliz
Vinho na mesa



Noite fria
Inverno que chega
Gripe danada




    Haymo Sachs (Ph00k4)




Enquanto a contemplo
Pequenos defeitos são
Traços de requinte.



Viagem de trem
Companhia especial
Sorrisos ao acaso



A sublime arte:
Progenitores prodígios
Geram a obra-prima



Massacre das pétalas...
"Bem me quer ou mal me quer?"
Simples: mal as faz.



Uma folha em branco
Muita coisa pra dizer
Haicai de três versos




  Leonardo Leitão




Vento sem Tempo
pedra parada —
minhoca enterrada.



Criança brincando,
tarde sem fim —
mas que sono danado!



Passarinho foi
gestos ao vento
a sombra cala




    Luís Dill




calor de julho
engana o inverno:
ipê florido.



chuva de viés
afia lâmina
do capim-­cidró.



crepúsculo:
dentes de sombra
mastigam o dia.




    Saramar Mendes




o sol descortina
a manhã em colorido
deslumbramento.



Borboletas vão
Sob o frio da tarde
aladas flores.



No céu brilhante
nuvens abrem clareiras
o sol vai passar.



Recatada lua
vermelha, atrás do sol
eclipsou-se.




  Su Tamae




Esguia Araucária
Iluminada de lua
Teatro de sombras.




  Daniel de Leão




Eu que bebo
e o mar que acorda
de ressaca!



Sereia

Corro o risco
arrisco, risco
um verso na areia



Na cabeça do poeta
um problema
vira poema



Tu o mote; Eu a glosa
Há quem suporte?
Eu o verso; Tu a prosa



O sol por testemunha
um gato agarra
a vida a unha




  Zuleika dos Reis




Crepúsculo rubro.
Lua e Sol quase se tocam
neste céu de outono.



Gotas de orvalho
molhando a flor e a avezinha.
Fresca madrugada.



A estrela cadente
e o meu pedido-relâmpago.
Segredos no céu.



Flores da paineira.
No parque, o casal velhinho
de mãos enlaçadas.




  Márcia de Albuquerque




Formiguinhas mil
no mármore da pia
uma correria...



Dia cinzento
Sol de outono
Noite ao relento



Ontem, ventania
Hoje, a brisa leve
A manhã é breve...



A luz do raio
longe no horizonte
perto da ponte



Lua minguante
Janela aberta
vôo rasante




  Rossini




outono?
folhas cobrindo o chão
sob os pés sujos... jornal velho




  Igor lopes




ao pôr-do-sol
luz ardente
bronzeia o mar



listras negras
garras de pelúcia
tigres-de-sumatra




    Raphael




Sobre pêlos macios
Uma dança de sangue
Tigres-de-Sumatra




  Danilo Nascimento Rabelo




Despenca criança
No saguão do shopping
Brinquedo mortal




  Calaça Farias




Explode solitária
Na pia
A gota, ploft.



I

Pedaços do sol
À boca da noite
Longe do céu.



II

Cai elástica
Por cima
Do dia a noite.



III

Nuvens
Tapetes voadores
No céu



IV

Como jibóia
Engolia a cidade
a neblina.




  Bianca Dantas Vieira




mantos vermelhos
longos cabelos
brando olhar



um pingente coração
no pescoço vem mostrar
que eu nasci para amar



nas faixas judô
nas fitas balé
tigres de sumatra



nas patas nas listras
o preto no branco
tigres brincando



mãos no coração
cabeça a pensar
inspiração no ar




  Leo San




Beija-flor agita
asinhas pra lá e pra cá —
Dança de primavera!



Algazarra no céu —
Maitacas sobrevoam
projetos de ninho.



Primavera chega
com todas as flores sorrindo
para outra flor...



Mais um pouquinho...
Ah, que saudades do frio!
A vida continua...



todo dia frio,
mas o coração quente.
saudade...




  Reneu do A. Berni




Cedo, o rouxinol
ensaia um canto bonito
pra saudar o sol.



Vendo pouca fé,
a esperança não desce
pela chaminé.



Abanam os rabos:
o cachorro, de contente;
o gato, de brabo.



Saudade: quintais
com sabiás-laranjeira
que cantavam mais.



Vai passando um rio,
murmurando pras barrancas
seu andar macio.




  Karoline de Lima Walczak




Azul e escuro
Estrelado e radiante
Brilho contemplante



Pontos brilhantes
da longa estrada
esperança da chegada



Braços ao ar
Grito de medo
brinquedo da morte




  Daniel Mirc




Santo Apollinário,
Deus gótico do Sol.
Solstício de Verão.



Lua cheia
Tua Meia
Meia Lua.



O meu pensamento
Quando vai até você
Não quer mais voltar!



— Minhas asas doem!
Mas sou um inseto
Que sabe cantar.




  Adriana Martins




Só não sei
rasgar o que sou
sem ferir



Nunca olhei
para
dentro de mim




    Guilherme Lessa




não teve êxito
ao hesitar
o êxtase




  Ligia Alencar




Suave pousar
No galho bem frágil
leveza de garça



De repente o apagão
Vagalumes atraem
Curiosos olhares.



Noite de luar
Minha solidão
No chão se reflete.



Brinca de esconder
pelas frestas da cortina
lua de primavera.



Mensagem colorida
Passa bolha de sabão
Deixando saudades.




  Rogério Lopes




hai cai saudade

na alegria do contato
lágrimas furtivas
na água-furtada dos rostos



hai cai rancor

nosso amor catastrófico:
um vulcão findado
em seus fogos e artifícios



haicai em contração

eu tô transando cabete
ela sai comigo
dois tiro acabo com ele




  Carmen Derêz




Ao próprio velório
Não compareceu o fantasma —
Alérgico a flores.



Deixem que apareça a lua
Pra benzer a chuva
Novo casamento.



Regando o jardim,
Eu faço deste pedaço —
Mosaicos de mim.



Em ti gostaria
De escrever sem tinta, ousando
Umas cem carícias.



Ganhou-me a gravura
De sentida chuva mais
Um pingo por sobre.




    Otávio Coral




Diante de mim
doce flor no pessegueiro:
crescem as saudades



Por entre bambus
a leve brisa se move
e desperta o córrego



O sol outonal
laminando a tosca mesa
expõe suas nervuras



Apenas silêncio:
nuvens bailando no céu
olhares perdidos



Os pingos de orvalho
molhham as cores do plátano:
úmida beleza




  Nicolau Otrebor Amadeli Vilás




Chá no frio sem dó —
O que nos pode aquecer
Mais que o tenro amor?



O navio partindo,
Pisada a areia da praia —
Mais por minhas lágrimas.



Eu me visitando —
Uma borboleta azul
Por sobre meu túmulo.



Quantas de você
Não fez minha tenra infância?
Bolhas de sabão.



Um sino budista
Na placidez do meu chá
Bulindo, me chama.




  David Rodrigues




Árvore seca
na floresta úmida
que amor lhe faltou?



Toda a beleza
do muro verde da montanha
traz saudade



A blusa parou
no rego dos teus seios
a mão virtual




    André Luís Gabriel




As folhas mortas
pousam sobre águas do
sereno lago.



No cemitério
procissão de formigas,
segue a vida.



As borboletas
poesias concretas
voam etéreas.



Pássaro bica
fruta madura caída
quase perdida.



Nuvem negra
gafanhotos voam
adeus milharal.




    Nazareth Bizutti




Na face paisagem
os caminhos traçam rugas
miragens da vida



Lamento secular
no manso correr do riacho
polindo pedras



Adormeci versos
arcordei rasgando rimas
entre a pena e o papel



Chuva no telhado
tem rufar tamborilado
cantiga de ninar



O pássaro preso
na linha do horizonte
em asas brilhantes




    Thiago Hunz Negri




Flores ao vento,
O pássaro voando —
Floresta virgem.




  Fernando Andreolli




borboleta amarela
espatifada no chão —
cumpriu sua missão?




  Djiana




respeito o silêncio...
quisera calar o pensamento.
existir, exige espera.




    Clevane Pessoa Lopes (Haruko)




haikais para depois das chuvas

Do ovo da manhã
rompe a casca a ave amarela
que se chama sol...



Ontem, todas águas
encharcaram terras, ossos,
— pela manhã, o sol...



passarada ao sol
pela estiagem, dançam, cantam
e procuram grãos...



saboreio o sol
desvisto meus agasalhos
luz cobre a alma e a pele...



após muita chuva
brotam haicais quais raios de sol
poesia seca as águas...




  Cumbuca




Outono vem vindo.
Folhas folhas e folhas
caindo caindo.



Noite sem vida
O ceu é só um velho
com testa franzida



No varal do quintal.
O casamento de raposa
molhou um enxoval.



Gata malhada.
De tanto deitar e dormir
Virou almofada.



Ano novo.
A lua brilha bailando
no reino das carpas.




  Leandro Koetsu




Corrente dos ventos
barulho na floresta
folhas ao chão.



O canto dos rouxinóis
entre a paisagem colorida
lindas flores!



Belo oceano Azul
o espelho refletindo
um límpido Céu.



Flor de cerejeira
de beleza iluminada
ofusca os olhos.




    Bhall Marcos




Imensa colméia
Abelhas namoram
pote de geléia.



Range o portal
Vento de outono
ou vendaval?



Uma pandorga
singrando o céu
Ave de papel.



Noite tranquila
Mariposas em torno
da lamparina.



A redonda lua
clareia ponta à ponta
a comprida rua.




  Regina Célia de Andrade




Dia ensolarado —
borboletas coloridas
voam no jardim.



Chuva de verão —
barquinhos de papel seguem
enxurrada abaixo.



Colheita de arroz;
deixando marcas no chão
prossegue o trator.



Arbusto de hibisco
suavemente balança
filhote de pássaro.




    Isnelda Weise




Sobre o calçadão
hora de verão estende
mesas e cadeiras.



Duas verdes palmeiras
as folhas lá bem no alto
namorando o vento.



No cálice o rosto:
afoga a mágoa no vinho
a mulher da vida.



Vinho branco seco
até o peixe cai na rede
da taça cristal.



Reflexo no vidro:
sobre a igreja alta a cruz
jaz no olhar do gato.




    BoscoPontoCom




Conta

história, matemática
2+2 é mil
menos eu, é zero!



Vagões Frios

ninguém a espera na estação
e o inverno passa,
Beatriz!



mantro de perto
pelos monges
de longe!



de Sus
morreu
o Tô, amigo meu!



Bom Dia!
Dona do dia...
Noite e dia!




    Fane




Sintonia vem
velejam maresia
vibra montanha



Domingo de sol
vento traz notícias
leva as minhas



Grama úmida
movimento devagar
rãzinha verde



Na poça d'água
passarinhos se banham
beija-flor beija



Noite escura
carro de boi rangendo
melancolia




  Cristina Figueiredo




Singelo

Borboleta pousada
no ovo de louça...
Doce sacada!



Diamantina

Sol das Almas
no Espinhaço:
dourado presépio.



Angelous

seis da tarde
celebra o barroco
o repicar dos sinos.



Azul no céu
de Abril
O inverno já vai chegar.



Via Crucis

Percorridos
teu corpe e tua alma
via crucis do amor




  Silvio Gargano Junior




Ah, dama da noite
Tempo distante não volta —
Saudade, saudade




  José Marins




bacia da crescente
sobre as folhas da palmeira
côncavo e convexo



guri ajoelhado
lá se vão os três reis magos
de volta à caixa



olhos dos meninos
as luzes do pisca-pisca
se multiplicaram



o véu da cascata
nesta noite de luar
finas gotas frias



quantos pirilampos
posso contar esta noite?
caminho enluarado




    Eder Fogaça




as ondas vêm
e vão para ninguém —
maré outonal



a lua aparece
entre nuvem e outra
o brilho é igual



chuva constante
o guarda-roupa mudou
agora é varal



eu em demasia
não fosse
a poesia



noite de outono —
na companhia da chuva
eu volto pra casa




  Renzipedro




Hai-kai
mais Um
corrupto!



céu lama ar
tempestades
aquecimento global



samba depois do carnaval
Flamengo!
sensacional



os seios na mão
o sexo no chão
perdão!



O Papa Vem Ao Brasil
cores anil azul
perdidas mil




  Sílvia Rocha




chuva de verão
transito no trânsito
chora coração



outono
mudam folhas
mudam planos



medo no coração
tirito
a mais fria estação



primavera
mergulho na ilha
bela



mãe
matriz
eterna aprendiz




  Rogério Viana




Canta alegre o sabiá
faz folia o bem-te-vi
— natureza assovia



Periquitos na palmeira
nem sobrou coquinho
— vôo sobre o pomar



Com este calor
sapo não vem nadar
— medo de virar rã



Pelo calor de agora
pinhão no inverno
— quente, quentão




  Pescador de Guifu




Sobre o campo verde
odor de Capim Molhado
durmo sossegado.



Cantou o grilo
chuva passageira
sonho longínquo.




    Humberto Firmo




Um ser noturno:
Debaixo da capa
ele guarda o escuro.



No ninho
três mafagafinhos:
trocando letras.



Um corrego, um poço,
batráquio num salto:
tibungo! momento bashô.



Silêncio na caixinha
dentro, dormindo,
a bailarina de sainha.



cheiro de floresta
um duende dormiu aqui
há folhas sobre a cama




    Manu Hawk




Outono

Folha seguindo
num lago de outono.
Dança suave...



Outono

Folha voando
Pegadas na areia
Pés de veludo



Verão

Chuva de verão
Paixão carnavalesca
Lavou a alma



Orvalho

Gotas de orvalho
cintilam em sua pele.
Amanheceu...



Cinema

Na tela comi
tomates verdes fritos.
Sabor de arte!




  Tânia Diniz




no canto da janela
nova linha do horizonte:
o fio da aranha.



vôo dos pássaros!
fio costurando ligeiro
o céu ao mar.



tal nuvem no céu
em tarde de vento forte:
lembranças se vão!



no capim orvalhado
guarda-chuva de renda
a teia de aranha



pintassilgo!
o céu pinta consigo
a cor da manhã.




  Regina Alonso




Canoa ancorada —
no embalo da maré
o vôo da garça



Soleira da porta —
silêncio dos avozinhos
em meio à modorra



Estação de trem —
tantos lenços acenando
em meio à garoa



Súbito no campo
os cavalos em galope —
rajada outonal



Noite já se faz —
nas ruínas da capela
luz de pirilampo




    Miranda




Nas águas do mar
Águas-vivas flutuam
Tranqüilamente ...



Em pleno verão,
Águas-vivas descabeladas
Passeiam pelo mar.



No fundo verde,
jogadores se preparam.
Deu carambola!



Sol, praia cheia,
meninada surfando,
Férias de verão!



O sol já nasceu,
meninada na cama.
Férias de verão!




    Francisco Soares




Chuva persistente...
Toda a noite a repetir
Lá fora o teu nome.



29-11-2004 19:08:45

Na margem do lago
Notícias que partiram
A molhar-me os pés.



05-12-2004

A voz: o vôo
Da borboleta
Encanta a morte



12-2004

Cordas de música
Não apertam
O sopro das asas



No ar quente a poeira
Não escolhe caminhos.
Eu também não penso.




  Jorge B. Rodríguez




um ária
pesa menos
o ar



barro já seco
por pegadas de sapato
passeiam formigas



sem mar
que gris o sol
do peixe



caem as mangas
no pátio do sonho
talvez em outros



noite de junho
uma sombra e seu cão
urinam bancas




    Fagner Roberto Sitta da Silva




Tarde de Verão —
Cores belas na vitrine,
Uma borboleta.



Tarde de verão —
Sua vida encontrou a minha
por estas esquinas.



Fotos no jornal
Vou procurando o seu rosto —
Eterna saudade.



A noite estrelada
Formas vagas, veludosas,
Na janela aberta.



Vagos tons de rosa
que são vistos pelo Lago —
Surge a noite fria...




  Neiva Pavesi




Silenciosamente
Sinos badalam na tarde —
Brinco-de-princesa



Balanço de rede
Ao longe um rádio ligado —
Tarde modorrenta



Mensagem no ar
Tributo à minha saudade —
Sabiá-laranjeira



No frescor da sombra
Caldo pelos cotovelos —
Manga madura



No dedão vermelho
Lateja meu coração —
Ferrão de abelha




    Benedita Silva de Azevedo




Vai e vem das ondas —
Um pedaço de isopor
Ao sol de verão.



A flor solitária
Na copa do flamboyant —
Rubi no horizonte



Nevoeiro distante —
Barcos coloridos balançam
No mar de Olaria



Frescor outonal —
Na cadeira de balanço
Pensamentos vagos



Chegada do outono —
A canoa abandonada
Balança na água




    Luciana Bortoletto




anoitece
a cidade cor-de-chumbo
se ilumina



lua de inverno
pequenina lá no céu
cabe em meus olhos



noite gelada
o cão aquece a criança
agasalho vivo.



manhã de domingo
maritacas batem asas
sobre o telhado



cidade pequena
sob o pôr-do-sol
cidade lilás




    Carlos Martins




Passando o Ano Novo
com minha filha, na estrada —
mochilão nas costas



Nunca fui tão pai —
um sorvete de pavê
para dois sorrisos.



Chuva de verão —
o cheiro de terra quente
abafando a tarde.



O som do aguaceiro
nas folhas da bananeira —
de prender o fôlego.



Dez mangas enormes
numa árvore de dois metros —
santa terra esta!




    Antônio Seixas




À beira da estrada,
o casal tirando fotos
do arrozal de outono.



Noitinha de outono —
Da varanda vê-se a rua
ficando vazia.



Final do desfile —
O mestre-sala esperando
por uma carona.



Exames Finais.
O suor de minha mão
manchando o papel.



Passeio de Férias.
No menu do restaurante,
atum com salada.




  Camila Jabur




Tarde de outono
Perseguindo folhas ao vento
O gato dançarino



Estrada de pó
A casa pobre
Desabrocha em flores



Pátio vazio
A cantiga das crianças
Ainda soa ao sol



Chama da vela
A noite acende
Um céu de dentro



Fim do dia
O velho e a árvore
Trocam silêncios




  Alberto Murata




Preenchendo o vazio
das tardes intermináveis,
a cigarra canta.



Pede ajuda ao vento
pra abanar sua roupa velha
esperto espantalho.



Na ronda da morte,
sobrevoando a densa mata,
sinistro urubu.



Alta madrugada,
sabiá boêmio entoa
um lânguido canto.



Obreiras formigas,
transportando mantimentos,
à casa retornam.




    Marcio Luiz Miotto (Pitu)




caminho por letras
aqui dentro uma tese
e lá, borboletas



pingos roxos
em meio às águas verdes
pétalas de ipê



uma folha cai
o chão cheio de folhas
o vento distrai




  Neide Rocha Portugal




Nesse fim de mundo
Um girassol solitário —
A quem marca as horas?




    Marcelino Lima (Suzumê)




Vaga-lume no quarto ­
Não fosse só de passagem,
apagaria o abajur.



Primeiro no morro,
depois onde tomo brisa —
cai a noite na vila.



Velho no farol
vendendo buquês de rosa ­
O sorriso é brinde.



O gato se estica,
boceja, retoma o sono ­
Assim vai o domingo!



Noite de saudades ­
de tanto acarinhá-la,
já desbota a foto.




    Regina Bostulim




Lótus

lágrima entre sobrancelhas
a pinta negra em kajal hindu
pérola



Encostas do Rio Dong

nunca mais
mergulharei em tuas águas
ó cios do Indizível



Pontes de Wang Ho

com as cheias
as águas
vão subir



Chuvas no Golfo de Sião

tentando os deuses
se esconderam para além
do oceano de jade



Baía de Ha-Long

gota d'água
perdida
no oceano de jade




  Valdir Peyceré




meus hai-kais:
lápis caídos
de um estojo frágil



tarde chuvosa:
a cidade absorve
luzes cinzas e água



café-da-manhã,
bem-te-vis gritando:
que bom acordar!



litoral sul:
pescadores, cães
e dias preguiçosos



no vaso,
margaridas amarelas
no dia de Reis




  Lena Jesus Ponte




O Tempo cochila
em tardes quentes de sol
no banco da praça.



Árvore curvada
tentando catar folhinhas
caídas no chão.



Cena oriental:
uma palhoça medita
no meio do pasto.



Pegadas na areia.
Natural fotografia
de vidas em trânsito.



Palmeiras vassalas
abanam com verdes leques
o Tempo que passa.




  Sérgio Francisco Pichorim




A cerejeira
cor de rosa florida
ficando verde.




  Alexandre Brito




aquela estrela
ali tão pequenininha
mas como brilha!



foi-se o verão
entre folhas secas
uma borboleta



primeiro dia de outono
tomo aquela rua
ou não tomo



panela velha
no avarandado novo
vaso de avencas



depois de horas
nenhum instante
como agora




  João Angelo Salvadori




conversa de adultos
debaixo da mesa
adormeço entre brinquedos



faróis desligados
os namorados
e a Via Láctea



alvorada insone
os pensamentos enevoados
e a névoa da manhã



o tempo ainda não passou
canta no galho mais alto
o sabiá-laranjeira



chuva de domingo
muito fraca
caminho entre os pingos




  Joca Reiners Terron




aceita
o vôo é o leito
da borboleta



a lua de langerie
ao longe
ri de mim



a chuva me cai
como uma luva
me OH!rvalha




  Ronaldo Bomfim




Arco-íris no céu,
chega ao fim o temporal:
tobogã de gnomos.



Lua refletida
na superfície do lago:
retrato da noite.



Agarrada à folha
a formiga com firmeza
desliza na brisa.



No céu da floresta
os pirilampos se acendem:
desce a Via Láctea.



Papagaio no ar:
um braço feliz de criança
a brincar nas nuvens.




  Carlos Seabra




ave calada —
ninho em silêncio
na madrugada



espiral de sol —
luz nas frestas da
escada em caracol



ágil pivete
brinca como se fosse
zero zero sete



sossego acaba —
chegou a pamonha
de Piracicaba



trigo dourado
pelas mão do vento
é penteado




  Kiyomi




Veloz bicicleta
No rigoroso inverno
Ficou esquecida



Tempo imprevisível
Me pegou desprevenido
Que frio congelante!



Mata devastada
Vence a luta pela vida
Cachos do Ipê roxo




  Ricardo Silvestrin




velhinha na janela
todo mundo que passa
é visita pra ela



no mesmo galho
uma formiga a passeio
outra a trabalho



longa conversa
um grilo termina
o outro começa



instante do passarinho
fui olhar
fiquei sozinho



o sol faz o que deve
nasce no Japão
morre em Porto Alegre




  Antônio Cristino




Sol de meio-dia
um girassol telescópico
circunavegando



Um pardal tal qual
beija-flor, sorvendo no ar
tanajuras em flor



Na teia de aranha
as gotículas de orvalho
aprisionadas



Vento sudoeste
os barcos na tempestade
castelos de areia



Solo de cigarra,
no fim da tarde, é núncio
de a hora do ângelus




  Luiz Bacellar




Se o laço do obi
voasse ao ikebana.
Borboleta azul?



Formigas na porta
carregam o corpo
da cigarra morta.



Se mira na poça
de lama do pátio
a lua vaidosa



Choveu de manhã:
as lagartas abrem trilhas
na folha de urtiga



Como um prisioneiro
a lua me espia pelas
grades do banheiro




  Rosana Hermann




Ameixa preta
quando ainda está verde
fica vermelha ...



o infinito
em meus versos medidos
enfim, contido



o vento sopra
cabelos esvoaçam
momentos passam



Nada havia ali
na verde via, nada
a ver, havia.




  Rodrigo de Souza Leão




enamoradas...
as nuvens cinzentas
apagam o sol...




  Claudio Daniel




dia após dor
após dia, luz após
dor após lua



o tempo? viagem
do pó ao pó — os pés,
os paus e pedras



a lagarta
olha no espelho
a mariposa



praia de corais
— mulheres de água,
peixes de luz



esse canto
é azul, azul, azul
quase branco




  Mailde Tripoli




Flores no jardim,
Jabuticabas no quintal!
Eis a primavera.




  Lubell




Visitas na sala
Homem muito gordo senta
A cadeira estala



Franchetti

Toma nota, rapaz:
Hai-kai é a captura
De um momento fugaz



Barulho

Barulho d'água
Mulher no tanque
Ensaboa e enxágua



Cascavel enrodilhada
Desmente a paz prometida
Nos gorgeios da alvorada.



No auge do verão
Rã saltou na cacimba
Silêncio no sertão




  Elson Fróes




Sol no templo
solto o tempo
só contemplo



A grama diz
o que o vento diz
o indizível bis




  Eduardo Balduino




Tarde de outono —
Assustada a coruja
Acorda com o trovão



Inverno no cerrado —
O vento seco trinca
O pé descalço



Flor do cerrado —
Na primavera seca
Só o ipê floresce



verão candango
o amor da menina
jorra do selim



o outono é ela
a folha que cai
sou eu




  Douglas Eden Brotto




dissolve-se a névoa
no socavão da montanha...
dormitam cavalos



um raio de sol
transluz — balança a cortina...
borboleta amarela!



na fímbria das ondas
um caranguejinho aflito
agitando as patas!



outono... insone
na tela da cortina assisto
teatro de sombras!



Noite de Ano-Novo!
velho avô traz o champagne
mas dorme antes da hora...




    Anibal Beça




Abro o armário e vejo
nos sapatos meus caminhos —
Qual virá comigo?



Noitinha na várzea —
Com a lua na garupa
búfalos regressam.



Seis hora da tarde —
Sons de cigarras prolongam
os sinos do templo.



Quase desperdício —
Moscas sobre caquis podres
só o sapo as come.



Sol no girassol —
Sombra desenha outra flor
no corpo dourado.




  Saint-Clair Cavenaghi




no frio da água, de manhã,
pálido tremor,
outono no corpo.



aviso dos deuses,
fartos, felizes,
florida paineira.



de verde encolhido,
outonal silêncio 
de lourinhos calados.



gotejar sem chuva
no jardim oculto
brumas de abril.




  Yá-Yá




desfaz-se, inútil,
velho ninho de pássaros...
ao vento — vazio...



planando no azul,
acima de tudo, calmas,
nuvens de outono...



dedinho rechonchudo
aponta ao céu a criança...
estrela cadente!



sorriso de mãe
a primeira flor-de-maio
abre-se enfim...



nas folhas verdes
novo fruto na mangueira...
ah!... maritaca...




  Rodrigo Vieira Ribeiro




O amanhecer,
Só cinco folhas douradas
No topo da Árvore



Dentro do mato
o meu carro amassado
e o silêncio...



Nesta manhã fria
o outro lado da rua
A neblina encobriu



mulher, edredom
e barriga crescente
lá no sofá



Escorre o sol
Salgando meus lábios
Passo a passo




  Zemaria Pinto




o pouso silente
da borboleta de seda
celebra a manhã



decifrando códigos
o barco atravessa a tarde
na pele do tempo



dissolve-se a tarde
no alarido das araras
e em flocos de chumbo



o sapo, num salto
cresce ao lume do crepúsculo
buscando a manhã



caminhos cumpridos
repousam sobre meu peito
teus pés minerais




  José Carlos Capinan




Tempos kamikases
As bombas de Oklahoma
São karmas de Nagasaki



Não sei tirar tua blusa
Mas quando meu sonho te despe
Tiro hábil tua pele




  Alonso Alvarez




um pescador remando
o mar rimando
alguém admirando




  Leila Míccolis




A abelha tristonha
— fauna e flora devastadas —
produz mel amargo.




  Uhracy Faustino




Os meus sentimentos
como origami no arame
sempre em movimento




  Mak




eu te amo tanto
que só um pranto
acaba o encanto




  Marland




com seu espanto
meu coração deu um salto
e virou pranto



não é você
que na enorme vaga
navega magra?



sopro na orelha
você olhou assustada
a cara do nada



umidade de orvalho
na folha verde da manhã
brilho de sol nas gotas



passos de pássaro
no telhado lá de casa
embalam sonhos




  Rosa S. Clement




crianças no zôo —
animais as observam
andando em voltas



filas de coqueiros
na estrada deserta —
curvados ao mar...



o canto dos sapos
era nossa canção de ninar;
fim de inverno



folhas voando —
minha avó sempre fazia
previsões de chuvas



libélula voando
pousando devagar
na blusa amarela




    Seadog




a volta ao lar
inquieta serenidade
parece que foi ontem



vaga lembrança
a neve nas têmporas
ai! — o tempo — ai!



vento de verão
seu sorriso ausente
sigo a poeira



olhar oblíquo
lua enevoada
sem mistério



ah! kioto

no rio
(cada vez mais)
sinto saudades do rio




  Mary




Na flor premiada
Uma mutuca agitada
Disputa olhares.



Frondosa mangueira
Sua florada antecipa
Sabor da manga.



Sementes na terra
Lutam pela sobrevivência
Pássaros e homens.



Ranger do portão
Cala o grilo, late o cão
Desconcentra o poeta.




  Soares Feitosa




As mãos conchadas de pegar,
mas o pássaro,
mais leve, voa!



País dos gatos

Rastros de vento,
escuridão de brasas,
um salto suave.



Pra que respirar?
posso ouvi-la, fremindo,
maciez de noite.



Sou doido por gatas:
Xande comeu o canário;
amados os dois.



As garras da morte,
um afligido transbordo
nas plumas da mãe




  Rodrigo de Almeida Siqueira




Quase escondida
entre a casca e o tronco
teia de aranha.



Leve brisa
aranha na bananeira
costura uma folha.



Sopra o vento
Segura-te borboleta!
Na pétala da flor.



Rio seco
silêncio sob a ponte
apenas o vento.




  Paulo Franchetti




Alto da serra —
Passa sobre a terra arada
A sombra das nuvens.



Na tarde abafada,
Só a voz de uma galinha
Que botou um ovo.



Um grande silêncio —
Nuvens escuras se acumulam
Sobre a terra seca.



O pássaro responde
Ao ruído da janela —
Tem chovido tanto...



Manhã de frio —
Apoiado num só pé
O papagaio dorme.




22 de abril de 2008

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