Caqui: revista brasileira de haicai

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Nempuku Sato
Poeta Brasileiro


Na genealogia do haicai brasileiro, o nome do imigrante japonês Nempuku Sato (1898-1979) se destaca apesar de nunca ter escrito um poema em português. Ecos de sua influência podem ser ouvidos tanto no trabalho do Grêmio Haicai Ipê quanto na poesia de Paulo Leminski e cresce o interesse acadêmico por sua obra.


Sabemos que os brasileiros foram apresentados ao haicai através de livros franceses. Mas o haicai escrito em japonês no Brasil desenvolveu uma história paralela, praticamente desconhecida dos poetas nativos. Dos imigrantes japoneses em terras brasileiras, quase todos se dirigiram para a agricultura, quer na condição de colonos, quer como pequenos sitiantes. Este fato e mais a presença de um mestre de primeira grandeza entre eles foram fundamentais para o desenvolvimento vigoroso de um haicai de corte tradicional, vinculado à natureza.


Discípulo de Kyoshi Takahama, líder da escola tradicionalista Hototogisu, Nempuku estava totalmente consciente de sua missão de cultivar o haicai no Brasil, missão levada a cabo pelo ensino itinerante, pela fundação de grêmios de haicai, promoção de concursos, orientação através da imprensa e de sua própria revista e pela publicação de antologias. Mas apesar de tradicionalista, Nempuku logo percebeu que a legitimidade da produção poética na nova terra dependia de sua capacidade de adaptação, resultando na reinvenção do haicai japonês dentro das condições brasileiras, em especial pela pesquisa de temas e kigos. Por tal razão, autores como Maurício Arruda Mendonça e H. Masuda Goga classificam o haicai de Nempuku e seus seguidores como poesia brasileira, ainda que escrita em japonês.


É Mendonça quem escreve, num ensaio publicado em 1993: "Devemos ou não considerar Nempuku Sato como poeta brasileiro? A inter-relação de língua e base geográfica não foi suficiente para solucionar a questão de um Samuel Beckett, que escreveu simultaneamente em inglês e francês e é analisado por estudiosos de ambas as nacionalidades. Nempuku, também, parece se encaixar dentro dessa visada multicultural. Tendo ele captado a natureza e as relações sociais e econômicas do Brasil, poderia ser considerado como autor brasileiro. Contudo, devemos reconhecê-lo como integrante de nossa literatura por não se deixar fixar, transitar no devir, no "entre" duas literaturas. Devemos considera-lo brasileiro por servir de diálogo e contraponto para a crítica do poema curto produzido por nossos poetas nativos. Assim, poderíamos relaciona-lo, evidentemente, com os haicais de Leminski e Alice Ruiz, percebendo nuances até então desconhecidas e enriquecendo nosso repertório poético com outro frescor" ("Nenpuku Sato, o sonhador no campo de algodão", em Nicolau 48).


Hoje, a comunidade de haicaístas japoneses no Brasil se organiza em diversos grêmios e publica haicais em revistas, jornais e antologias. Mas ela sente os efeitos da idade. Os filhos e netos dos imigrantes, cada vez mais integrados à comunidade brasileira, perdem a intimidade com a língua de seus ancestrais. Sendo assim, não ocorre renovação no quadro dos haicaístas. Em contrapartida, cresce entre os brasileiros de todas as origens o interesse pelo aprendizado do haicai tradicional. Assim, a herança de Nempuku é preservada e se expande.

6 de maio de 2001

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