Como foi a Contemplação da Lua 2026 no Templo Busshinji

Relato da Contemplação da Lua 2026, reunião de poetas para contemplar a lua cheia de outono e compor haicais sobre a ocasião, realizada durante a noite de 1 de abril de 2026, no Espaço Cultural Soto-Zenshu — Templo Busshinji, em São Paulo.

O QUE FOI

Durante o outono, quando a lua cheia surge de forma esplêndida, os japoneses costumam admirá-la e aproveitam para compor poemetos conhecidos por haicai ou haiku, acompanhados de comida e bebida. Esta reunião tem o nome japonês de tsukimi, que significa “contemplação da lua”.

Aspecto da lua obsrvada do Templo Busshinji em 1/4/2026 (Foto: Danita Cotrim)

Para os poetas de haicai, a estação do outono tem um significado profundo, de grande introspecção. A lua de outono é um dos temas preferidos deste exercício poético.

Poetas recebem instruções do Monge Jishô Handa
(Foto: Danita Cotrim)

Simbolicamente, nesta estação, a lua se mostra mais próxima aos olhos do poeta e, portanto, imensamente grande. Veja como foi em 2025, 2024202320192018201720162015201420132012201120102009200820072006200520042003200220012000 e  1999.

COMO FOI

Numa noite do outono de 2026, dezoito poetas se reuniram no templo zen-budista Busshinji, situado no centro de São Paulo, para escrever haicais dedicados à lua. É a 24ª reunião do grupo, tendo a primeira delas ocorrido há 27 anos, com sua frequência interrompida unicamente durante os anos da pandemia.

Alguns dos poetas presentes ao fim do evento
(Foto: Jigen Oliver)

Mostramos alguns dos haicais dessa produção.

Que lua?
O que há para observar?
O que está sendo contemplado?
Ben En (Henrique Kruszynski Rodrigues)

Não estaria a lua, bela
Aqui dentro?
Uma bela indescritível, como tudo.
Ben En (Henrique Kruszynski Rodrigues)

Mesmo sendo míope
vejo crateras e sombras.
Lua desta noite.
Danita Cotrim

No vão entre os prédios
do bairro da Liberdade.
Ah! Achei a lua.
Danita Cotrim

Receita de torta.
Cozinho o universo inteiro
Incluindo a lua.
Diego Macedo de Oliveira (Jigen Oliver)

Escavando a lua
No bairro da Liberdade.
Obras no Metrô.
Diego Macedo de Oliveira (Jigen Oliver)

Ao clarão da lua
a nítida pichação
do prédio vazio
Edson Iura

No céu silencioso
como uma gravura antiga
a lua entre as nuvens.
Edson Iura

A lua no mato
Conversa de caminhão
Tempo só esfria
Flávio Tayra

Vaga a lua
No devaneio triste,
O tempo final
Flávio Tayra

Quente luz da lua
Entrando pela janela —
O monge sorri.
Gustavo Fogo

Leve som de passos
Junto da sombra das folhas
Acompanha a lua.
Gustavo Fogo

todos em silêncio…
brilha a careca do monge
sob a luz da lua
Gustavo Ortale

poetas reunidos —
entre amadores e mestres
brilha a mesma lua
Gustavo Ortale

Pelo vão dos prédios
Nos vapores que se formam
A lua vagueia.
Jishô Handa

Quando vejo a lua
Os amigos que não vejo
Põe-se a compor.
Jishô Handa

dobram-se os joelhos
dos haijins no templo
noite de lua cheia.
Lira Dicetaro

resplandece no céu
o primeiro luar do mês —
postes… para quê?
Lira Dicetaro

Eu rezo no templo
e meu pai no hospital
sob a mesma lua
Lourdes Basílio

A lua cheia
No templo, os haicaístas
contemplam o mundo
Lourdes Basílio

a lua
no orvalho
é a lua?
Monja Kokai

eu vou
a lua
fica
Monja Kokai

Lua-desta-noite
Junto aos amigos haijins
Brilha sem ruído
Nicolas Marques

Silêncio no templo
Para encanto dos haijins
Lua cheia surge
Nicolas Marques

Fios prateados
Tecem a nova lua
Olhos de gato
Patrick Ribeiro Lisboa

Cinzas afloram
Desse branco círculo.
Anuncia a lua.
Patrick Ribeiro Lisboa

Chá da flor de jasmim
Efêmera fumaça
Da janela a lua
Pedro Tiné

Janela do templo
Recebe a lua por entre
Frestas de prédios
Pedro Tiné

Admira ao longe
o clarão da lua.
Gato do vizinho.
Riju (Jule Pires Amaral)

Ponho sobre a mesa
o reflexo da lua.
Um copo de chá.
Riju (Jule Pires Amaral)

nuvens caindo
como folhas de outono —
coração lunar.
Sayuri Toudou

lua derrama
luz sob a calçada —
outono azul.
Sayuri Toudou

Da janela grande
a ponta da árvore
acima a lua
Tokuzô (Diego Felippe da Silva)

Lua cheia
nuvem chega
e vai embora
Tokuzô (Diego Felippe da Silva)

amigos reunidos
chegam ao som do batuque —
a lua e sua luz
Tom Milles

dentro da cidade
o silêncio de um templo —
noite de lua cheia
Tom Milles

REALIZAÇÃO
Espaço Cultural Soto-Zenshu (Templo Busshinji). Apoio Cultural: KakiNet