Goga Masuda

Foi haicaísta e estudioso do haicai, compondo tanto em português como em japonês. Seguidor de Nempuku Sato, mestre já falecido e responsável pela divulgação do haicai entre os imigrantes japoneses no Brasil. Em maio de 1987, participou da fundação do Grêmio Haicai Ipê. Em agosto de 1993, liderou a fundação do Grêmio Haicai Caleidoscópio, tendo em vista o estudo e a composição de haicais encadeados (renku). Suas pesquisas sobre o haicai no Brasil remontam a 1936. Travou relações de amizade com os poetas Jorge Fonseca Júnior e Guilherme de Almeida, com quem trocava idéias sobre a composição do haicai, tomando como exemplo o modelo japonês. No Japão, foi associado à revista "Yuki", de orientação tradicional, editada por Kôka Muramatsu. Em 2004, recebeu o "Masaoka Shiki International Haiku Prize", por seu esforço na divulgação do haicai. Também foi pintor.


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O haicai e o homem

Embora já escrevesse a seu modo, foi ao conhecer o mestre Nempuku Sato, em 1935, que verdadeiramente mergulhou na prática do haicai. Nempuku foi um imigrante como Goga, encarregado de cultivar a arte do haicai entre os imigrantes japoneses no Brasil por ninguém menos que Kyoshi Takahama, a figura dominante do haicai japonês durante toda a primeira metade do século 20.

Prontamente, Goga mostrou ser um discípulo dedicado e, ao lado de tornar-se um poeta de haicai, colaborou intimamente com seu mestre na divulgação do haicai entre os imigrantes, especialmente depois da Segunda Guerra, quando se tornou jornalista na então florescente imprensa nipo-brasileira.

Apesar de batalhar pelo haicai em japonês, Goga nunca se confinou aos limites da comunidade nipo-brasileira e sempre manteve intensa troca de informações com poetas e intelectuais brasileiros sobre a possibilidade de se escrever haicai em português.

O haicai foi trazido ao Brasil através da leitura de orientalistas europeus (especialmente franceses) e foi a partir disso que poetas brasileiros começaram a escrever haicais nas primeiras décadas do século 20. Naquele tempo, o haicai foi entendido como uma forma fixa breve, de 5-7-5 sílabas. Era um pequeno molde poético a ser preenchido com uma pequena porção de sentimentalismo, graça ou sabedoria (e, em décadas recentes, de iluminação zen).

Contra essa concepção, Goga sempre pregou a necessidade de observar os valores tradicionais do haicai japonês, tais como objetividade e kigo (palavra de estação) aos não-japoneses que vinham a ele em busca de orientação. Mas ele não estava apto a reunir um número significante de seguidores até 1987, com o surgimento do Grêmio Haicai Ipê. Goga, inicialmente um de seus fundadores, foi rapidamente elevado à categoria de mestre do grêmio, impondo naturalmente sua liderança e visão estética ao resto dos membros.

Desde sua fundação e sob a orientação de Goga, o Grêmio Haicai Ipê tem sido uma referência para o estudo e a reflexão sobre o haicai em português no Brasil. Através do trabalho de seus membros, os conceitos do haicai tradicional japonês têm sido adaptados e divulgados pelo país, com atenção especial para a identificação e uso dos kigos nacionais, considerados por Goga como o núcleo do haicai em qualquer língua.

Na verdade, pela concepção de Goga, o haicai é uma poesia de características universais e adapta-se a qualquer cultura do mundo, tornando-se poesia nacional através da aplicação de kigos locais. Neste sentido, ele considera que o haicai escrito em japonês por imigantes japoneses vivendo no Brasil é poesia brasileira, por causa dos kigos brasileiros que utilizam.

Como seu mestre Nempuku, Goga entendeu a necessidade de aclimatar o haicai original a sua nova terra, percebendo que Brasil e Japão são perfeitamente antípodas e que a direção dos ventos, as estações, os pássaros e as flores eram em tudo diferentes de seu país de origem. Em 1995, Goga publicou "Shizen Fûei", um dicionário de kigos brasileiros, seguido por sua contraparte em português, "Natureza, berço do haicai", em 1996. Este é o primeiro dicionário de kigos em português e é hoje uma referência do haicai brasileiro.

Por muitos anos, Goga também selecionou haicais para publicação, quer em japonês ou em português, em revistas e jornais, permitindo o surgimento de uma cultura de haicai entre os leitores, sempre baseada nos vaores tradicionais do haicai e na cuidadosa observação da natureza, com a identificação subseqüente dos kigos brasileiros, que Goga defendeu por toda a sua vida.

Goga também co-organizou uma importante antologia de haicais brasileiros (100 haicaístas brasileiros) e a primeira antologia de haicai latino-americano de que se tem notícia (Antologia do haicai latino-americano).

Em paralelo às atividade no campo do haicai, Goga introduziu com sucesso a prática dos versos encadeados ("renku" ou "renga") no Brasil. Ele o fez inicialmente em japonês, entre poetas imigrantes japoneses, a partir de 1984. Até 1997, este grupo terminou cerca de 60 seqüências de versos encadeados em japonês. Em 1994, Goga introduziu a prática em língua portuguesa junto a um grupo de poetas brasileiros, que hoje continua produzindo independentemente do mestre.

Não podemos esquecer a importante contribuição de Goga à historiografia do haicai brasileiro. Seu livro "O haicai no Brasil", publicado em 1988 como um trabalho pioneiro rastreando a história do haicai em língua portuguesa no Brasil, é hoje um clássico, citado em todas as bibliografias sobre o assunto.

Hoje, graças ao trabalho de membros do Gremio Haicai Ipê, diretamente inspirado por Goga, conceitos como "kigo" e "aqui-e-agora" são bem conhecidos e estão no centro das discussões sobre o fazer do haicai e dos versos encadeados no Brasil. Desde então, muitos haicaístas talentosos têm sido revelados. A prática do haicai em português finalmente atingiu um bom paradigma, longe de ser apenas uma forma poética exótica e afetada.

Todos esses resultados não teriam sido possíveis sem o trabalho de Goga, que entendeu como romper barreiras, unir culturas e fazer amigos através do haicai.


Dados Biográficos

1911 - 8 de agosto: nasceu no Japão, na província de Kagawa, cidade de Zentsûji.

1929 - Concluiu o curso de técnicas comerciais em Osaka. Emigrou para o Brasil, onde trabalhou em fazendas de café.

1933 - Estudou no Instituto Agrícola de São Paulo, mais conhecido como Instituto M'Boi. Tornou-se capataz de uma fazenda de café.

1935 - Conheceu o mestre Nempuku Sato (1898-1979), que o orientou no haicai em japonês até sua morte.

1937 - Tornou-se um pequeno comerciante em Pedregulho, SP.

1938 - Conheceu Jorge Fonseca Júnior, com quem iniciou suas pesquisas sobre o haicai em português.

1943 - Publicou seus primeiros haicais em português no Anuário do Oeste, de Corumbá, editado por Jorge Fonseca Júnior.

1948 - Mudou-se para São Paulo. Tornou-se jornalista no diário nipo-brasileiro "Jornal Paulista", tendo chegado a redator-chefe.

1952 - Conheceu Guilherme de Almeida, com quem travou discussões sobre o haicai em português.

1953 - Correspondente do jornal japonês Mainichi Shimbun até 1963.

1955 - Tornou-se funcionário da Cooperativa Agrícola de Cotia.

1962 - Naturalizou-se brasileiro.

1963 - Associou-se ao Grupo Seibi de artistas plásticos nipo-brasileiros.

1963 - Tornou-se administrador-chefe da Sociedade Beneficente da Cooperativa Agrícola de Cotia.

1973 - Aposentou-se.

1984 - Fundou o Burajiru Renku Kenkyûkai (Grupo Brasileiro de Estudos sobre Versos Encadeados), o primeiro grupo brasileiro devotado à prática de Versos Encadeados (renku ou renga) em língua japonesa.

1984 - Selecionou haicais em japonês para a coluna de haicai da revista agrícola "Agronascente", até 1998.

1987 - Co-fundador do Grêmio Haicai Ipê, o primeiro grupo brasileiro devotado exclusivamente à prática do haicai em português.

1989 - Escreveu artigos em japonês sobre o movimento haicaísta em português para o jornal nipo-brasileiro "Diário Nippak" (atual Jornal do Nikkey) até 1998.

1989 - Selecionou haicais em português para a coluna de haicai da revista de cultura japonesa "Portal" até 1995.

1994 - Fundou o Grêmio Caleidoscópio, o primeiro grupo brasileiro devotado à prática de Versos Encadeados (renku ou renga) em português.

1995 - Selecionou haicais em português para a coluna de haicai do jornal nipo-brasileiro "Notícias do Japão" (atual Jornal Nippo-Brasil) até 1998.

1999 - Encerrou todas as suas atividades sociais e mudou-se para um sítio no interior de Minas Gerais para viver uma velhice tranqüila. Enquanto viveu, nunca parou de escrever haicais.

2004 - Agraciado com o "Masaoka Shiki International Haiku Prize", pela Fundação Cultural de Ehime, Japão, por seu esforço na divulgação do haicai no Brasil.

2008 - 28 de maio: Faleceu em São Paulo, de causas naturais.


Alguns trabalhos publicados

  • Emeboi Jisshûjô-shi. Edição do Comitê de Publicação da História do Instituto Agrícola de São Paulo. São Paulo, 1981. A história do Instituto Agrícola de São Paulo (também conhecido como Instituto M'Boi), em japonês.

  • Burajiru no haikai (O haicai no Brasil). Revista Haiku bungakukan kiyô, Tóquio, v.4, 1986.

  • O Haicai no Brasil. Editora Oriento. São Paulo, 1988. Tradução para o português de trabalho de pesquisa originalmente publicado no Japão, sobre as raízes e o desenvolvimento do haicai no Brasil, do início do século até a atualidade.

  • 100 Haicaístas Brasileiros. Organizador, com Roberto Saito e Francisco Handa - Aliança Cultural Brasil-Japão e Massao Ohno - Editores. São Paulo, 1990. Antologia de 100 haicaístas (200 haicais) brasileiros, com biografias.

  • As Quatro Estações. Organizador, com Roberto Saito e Francisco Handa - Aliança Cultural Brasil-Japão e Massao Ohno - Editores. São Paulo, 1991. Antologia de haicais dos membros do Grêmio Haicai Ipê.

  • Antologia do Haicai Latino-americano . Organizador, com Humberto Senegal, Roberto Saito e Francisco Handa - Aliança Cultural Brasil-Japão e Massao Ohno - Editores. São Paulo, 1993. Antologia de 100 haicaístas (200 haicais) brasileiros e hispano-americanos.

  • Burajiru ni okeru haikai no genjô (Condição presente do haicai brasileiro). Revista Haiku bungakukan kiyô, Tóquio, v.8, 1994.

  • Haicai - A Poesia do Kigô. Aliança Cultural Brasil-Japão. São Paulo, 1995. Livro de haicais em co-autoria com Teruko Oda e Eunice Arruda.

  • Shizen Fûei. Empresa Jornalística Diário Nippak. São Paulo, 1995. Dicionário de termos-de-estação (kigo) com antologia de haicais-exemplo, em japonês.

  • Natureza - Berço do Haicai. Empresa Jornalística Diário Nippak. São Paulo, 1996. Dicionário de termos-de-estação (kigo) com antologia de haicais-exemplo, em português, em co-autoria com Teruko Oda.

  • Burajiru ni okeru haikai no kigo (O kigo no haicai brasileiro). Revista Haiku bungakukan kiyô. Tóquio, v.9, 1996.

  • Burajiru renku no ayumi (A senda dos versos encadeados no Brasil). São Paulo, Burajiru renku kenkyukai, 1997.

  • Haiku wa sekai no shi de aru (O haicai é a poesia do mundo). Revista Yuki. Niigata, n.244, 1998.

  • Ecos do Silêncio. Co-autor, com Isabel Kioko Noda (fotos). Escrituras. São Paulo, 2002. Livro de fotos tiradas na região do Monte Fuji, Japão, acompanhadas por haicais especialmente compostos por Goga.

Outros

  • Televisão: Shirarezaru haiku ôkoku Burajiru (Brasil, o reino do haicai que precisamos conhecer). Matsuyama, 1997. Especial sobre o haicai brasileiro (português e japonês), produzido pela rede japonesa de TV NHK e exibido em 28/01/1997 no Japão.

  • Curta-metragem: Masuda Goga, discípulo de Bashô. Guto Carvalho, diretor. São Paulo, 2002. Documentário focando a personalidade de H. Masuda Goga e seu trabalho à frente do haicai brasileiro.

Curiosidades

  • O nome civil do mestre Goga é Hidekazu Masuda.
  • Goga é um haigô, alcunha ou nome literário adotado para assinar seus haicais.
  • Goga quer dizer "Rio Ganges". Segundo o próprio mestre, o Rio Ganges é, a um só tempo, o mais sujo e o mais sagrado rio da Índia, simbolizando as contradições da condição humana.
  • Foi o mestre que escolheu seu próprio haigô.
  • Segundo o padrão japonês, o sobrenome vem antes do nome: Masuda Goga. No ocidente, é o contrário: Goga Masuda.
  • Em muitas publicações, o mestre chegou a assinar como H.Masuda Goga, unindo seu nome civil e o nome de haicaísta.









Alguns haicais de Goga








Em cima do túmulo,
cai uma folha após outra.
Lágrimas também...















Primavera alegre
Os namorados com walk-man
Percorrem o parque.












Flores silvestres
pequeninas e sem brilho
à espera de abelhas...












O ano fenecendo...
preocupação nenhuma:
só penso em haiku!












As nuvens douradas
Flutuam no pantanal
- florada de ipê









Paineira em flor:
Casa-grande abandonada,
sem telha nem porta









Ah, mosca de inverno
- questão de dia ou de hora -
seu último instante?










Libélula voando
pára um instante e lança
sua sombra no chão











Eco dos trovões:
O aguaceiro, de repente,
faz subir o rio










À noite... sozinho...
me deixam mais pensativo
os cantos de insetos









Uma aldeia pobre,
ao pé da serra de inverno -
mina antiga de ouro












Toque de buzina:
atravessa o rio seco
a boiada em ordem
















31 de maio de 2008