Acima: O palestrante Yoshikazu Shiraishi exibe os dois saijiki de Goga Masuda (Foto: Kakinet)
“Goga Masuda, mediador da cultura haicai: O futuro do haicai mundial começa no Brasil”. Com este título ousado, palestra do professor japonês Yoshikazu Shiraishi (Universidade Shôin – Kanagawa, Japão) abordou a trajetória do mestre Goga Masuda (1911-2008) e o papel do Brasil como modelo para a transplantação do haicai às culturas de outros países.
O evento foi realizado na noite de 13/08/2026, no Centro de Estudos Nipo-Brasileiros (CENB), em São Paulo. A abertura foi feita pelo jornalista e escritor Jorge Okubaro, presidente do CENB, e a tradução para o português ficou a cargo do professor Takashi Yamanishi, do canal 123 Japonês. 20 pessoas estiveram presentes e outras 50 acompanharam a palestra pela internet.
A adaptação do kigo
O professor Shiraishi relembrou a história da chegada do haicai ao Brasil, que se desenvolveu por duas vias principais: a francesa, relacionada à circulação de traduções de haicais japoneses no Ocidente, e a japonesa, trazida diretamente pelos imigrantes. Em determinado momento, essas duas vertentes se encontraram e se misturaram. Essa história, observou Shiraishi, é pouco conhecida tanto no Japão quanto no próprio Brasil.
É nesse processo de encontro cultural que a atuação de Goga Masuda ganha importância particular. Shiraishi destacou sobretudo sua relação com o kigo, a palavra ou expressão que situa o poema em uma determinada estação do ano.
No Japão, explicou Shiraishi, o kigo nasceu praticamente junto com o haicai e tornou-se parte essencial de sua identidade. Em boa parte do haicai praticado no Ocidente, entretanto, o kigo não ocupa a mesma posição. A experiência brasileira apresenta, nesse sentido, uma particularidade importante, sobretudo entre os grupos que seguem a tradição do Grêmio Haicai Ipê.
Shiraishi utilizou dois exemplos de kigo: “Obon” e “Visita ao cemitério” para mostrar que a transferência do haicai para outro país não significa simplesmente transportar os mesmos elementos culturais japoneses.
No Japão, “Obon” é o nome de uma celebração feita em agosto, em que se lembram os falecidos. “Visita ao cemitério”, portanto, integra o mesmo universo sazonal.
No Brasil, porém, a principal data de visita aos cemitérios é Finados, em novembro. Dessa forma, o kigo “Visita ao cemitério” passa a se associar a novembro (primavera brasileira), e não a agosto (verão japonês).
A diferença pode ser observada na comparação entre os saijiki (dicionários de kigo) japoneses e brasileiros. O kigo não é simplesmente uma palavra traduzida de uma língua para outra: ele carrega consigo uma determinada experiência de tempo, natureza e cultura.
Foi justamente esse problema que Goga Masuda, ao lado de Teruko Oda, procurou enfrentar na elaboração de Natureza: Berço do Haicai, obra destinada a identificar e organizar termos adequados à realidade brasileira.
São Paulo tem quatro estações em um dia
Shiraishi relatou um episódio que sintetiza a resistência inicialmente encontrada por Goga Masuda à ideia de que o haicai brasileiro deveria incorporar temas sazonais.
Em uma reunião do Grêmio Haica Ipê, Goga defendeu a necessidade do kigo no haicai. A reação dos participantes foi negativa. Argumentava-se que o Brasil não possuía estações claramente definidas e que, em São Paulo, como se dizia, “temos quatro estações em um dia”.
No mês seguinte, Goga apresentou quatro termos: “ipê”, “Natal”, “paineira” e “festa junina”. Em seguida, perguntou aos participantes em que época do ano ocorria a florada ou a festividade correspondente.
A resposta era inequívoca: cada termo remetia a um período determinado. Quando os participantes perceberam isso, compreenderam também a ideia fundamental de Goga: se uma palavra é capaz de evocar uma época específica do ano, ela pode funcionar como kigo.
A experiência brasileira, portanto, não precisava abandonar o princípio do kigo para se adaptar ao novo ambiente. Era possível, ao contrário, criar um repertório sazonal próprio.
Dois saijiki, duas culturas
Shiraishi chamou atenção ainda para um fato excepcional na trajetória de Goga Masuda. Em 1995, ele publicou um saijiki em japonês e, em 1996, outro em português. Na visão do palestrante, talvez Goga seja o único autor do mundo a acumular esse feito.
Mais significativo que a existência de duas edições em línguas diferentes é o fato de que elas não constituem uma simples tradução uma da outra. O conteúdo dos dois saijiki é substancialmente diferente. Cada um resulta de uma seleção e de uma reflexão próprias sobre o ambiente cultural em que o haicai é praticado. A análise de alguns dos kigos evidencia essa transformação.
“Geada” adquire no Brasil uma dimensão particular. Não se limita ao fenômeno climático conhecido pelos japoneses, mas acrescenta a vivência dos imigrantes que tiveram suas plantações destruídas.
Essa memória aparece no haicai de Olinda Marques de Azevedo:
Como uma mortalha
branca geada
sobre o cafezal
A imagem poética da geada como uma mortalha acrescenta ao fenômeno natural a experiência histórica da imigração.
Outro exemplo apresentado foi “chuva-de-caju”, que desempenha no repertório brasileiro uma função poética semelhante à de tsuyu, a estação chuvosa japonesa associada ao crescimento das ameixas. Em sentido diverso, o kigo “lírio-branco” revela a presença de uma sensibilidade europeia na formação do repertório brasileiro.
A transformação cultural também aparece em um haicai de Teruko Oda:
Volto a ser criança
em cada trouxinha de palha
que esconde a pamonha!
Aqui, um elemento profundamente ligado à cultura alimentar e à memória brasileira transforma-se em matéria poética.
Para Shiraishi, os kigos japoneses chegam ao Brasil carregando uma longa tradição poética e um conjunto de símbolos acumulados ao longo de séculos. No novo ambiente, porém, eles passam a conviver com as memórias da história da imigração japonesa, interagindo com elementos da cultura brasileira.
O poema pode partir da observação direta da realidade, o shasei, entendido como um esboço ou registro daquilo que se vê. Mas, sobre essa realidade observada, podem atuar tanto a tradição simbólica da poesia japonesa quanto as experiências e lembranças individuais.
O resultado não é, portanto, uma simples reprodução do modelo japonês.
O grêmio como lugar de contato, criação e aprendizagem
A discussão sobre a experiência brasileira conduziu Shiraishi a outro conceito fundamental: o za, traduzido por assento, parte do termo za no bungaku ou literatura de assento, uma característica tradicional da prática literária japonesa.
No Ocidente, a prática literária costuma estar associada à figura do autor individual, muitas vezes concebido como um “gênio” solitário, que escreve para seus leitores. A tradição japonesa, por outro lado, desenvolveu formas de criação coletiva, presentes no tanka, no haicai e no renku (versos encadeados).
Um grêmio de haicai é, nessa perspectiva, um exemplo de literatura de assento: um espaço em que as pessoas se reúnem para produzir, ler, comentar e aprender literatura.
Em vez de entendê-lo apenas como um lugar físico, o professor o apresentou como uma zona de contato: um espaço em que diferentes culturas se encontram e, a partir desse encontro, produzem transformação cultural.
No contexto brasileiro, o grêmio possibilita a interação entre as culturas brasileira e japonesa, além de favorecer a transmissão de conhecimentos entre pessoas de diferentes gerações e formações.
Shiraishi destacou que os integrantes não são simplesmente espectadores ou alunos, mas desempenham simultaneamente os papéis de autores e leitores. Ao apresentarem seus poemas, lerem os poemas dos demais, trocarem críticas e discutirem entre si, crescem juntos como haicaístas. O grêmio é, portanto, um espaço de criação.
Trata-se de uma dimensão particularmente importante porque rompe com a imagem do poeta isolado. A criação acontece dentro de uma comunidade na qual cada participante contribui para a formação dos outros.
Shiraishi associou esse funcionamento às guildas da Idade Média, nas quais os participantes começavam por tarefas simples, aprendiam com os demais e gradualmente adquiriam domínio de seu ofício. No grupo de haicai, o conhecimento não é transmitido apenas verticalmente por um mestre: ele circula entre os participantes. Por isso, o grêmio é também um espaço de aprendizagem.
Goga como mediador cultural
Essa concepção esclarece a maneira particular com que Goga Masuda atuou no Grêmio Haicai Ipê. Goga levou para o grupo uma forma japonesa de criação coletiva, mas não se colocou na posição de líder hierárquico. Preferiu atuar como mediador e facilitador, criando condições para que os participantes pudessem desenvolver seu próprio aprendizado.
O grêmio torna-se, assim, uma espécie de laboratório: um lugar em que a tradição japonesa encontra a experiência brasileira, em que diferentes gerações se encontram e em que a própria tradição é transformada por aqueles que a praticam.
É nesse sentido que ganha especial importância a afirmação de Goga Masuda, relembrada por Shiraishi:
“O haiku é o poema que canta em louvor da natureza do Japão. O haicai é o poema que canta em louvor da natureza do Brasil. Por isso, o haicai não é cópia do haiku”.
Natureza – Berço do Haicai, p. 259
Para Shiraishi, essa frase expressa a maturidade do haicai brasileiro: ele deixa de ser a reprodução de um modelo estrangeiro e passa a constituir uma experiência própria. O grêmio de haicai não é um lugar de recepção passiva, mas de participação e transformação.
Da mediação ao intercâmbio
É na conclusão que a importância de Goga ganha sua dimensão mundial.
Segundo Shiraishi, a história do haicai internacional tem sido abordada principalmente a partir dos Estados Unidos, da França e do Reino Unido. É necessário, porém, compreender também como o haicai se espalhou por outras partes do mundo e como essas comunidades transformaram a tradição recebida. Nesse novo mapa, o Brasil pode desempenhar um papel exemplar.
Goga representa justamente essa passagem: da transmissão para a transformação, e da mediação para o intercâmbio. Ele foi uma ponte entre Japão e Brasil, entre a língua japonesa e a portuguesa, entre a tradição original e a experiência local. Mas, ao criar um espaço de convivência e aprendizagem, sua atuação produziu algo maior que uma simples ponte: criou um modelo de interação entre culturas.
Essa experiência ganha nova importância diante das possibilidades atuais de comunicação. Internet e ferramentas de tradução permitem que grupos de diferentes países estabeleçam contato direto. O haicai entra, assim, em uma nova era de intercâmbio.
Shiraishi vê nessa experiência brasileira um possível modelo para o futuro. A articulação entre grupos da América Latina já começou, enquanto o haicai continua a se expandir em países como Estados Unidos, Espanha e Alemanha.
O desafio será equilibrar global e local: de um lado, a construção de repertórios internacionais e de outro, a valorização dos saijiki e dos kigos próprios de cada cultura. A experiência de Goga mostra que as duas coisas podem coexistir.
Ele não procurou fazer no Brasil uma cópia do haicai japonês. Ao contrário, criou condições para que o haicai incorporasse a paisagem, o calendário, a cultura e a memória brasileiras. Por isso, a importância de Goga Masuda, na leitura de Shiraishi, não pertence apenas ao passado. Seu legado oferece uma possível resposta para o futuro do haicai mundial.
Assim, a frase que dá título à palestra deixa de ser apenas uma afirmação auspiciosa para se tornar proposta. O futuro do haicai mundial pode começar justamente onde culturas diferentes aprenderam a se encontrar. E Goga Masuda foi um de seus grandes mediadores.
Como resultado de seus estudos sobre o haicai brasileiro, que desenvolvem os tópicos acima, o Prof. Yoshikazu Shiraishi publicou o livro Burajiru Imin to go-shichi-go: Burajiru kokusai haiku no transcultural na hatten (Yokohama: Shumpu, 2025, 268 p.) ISBN 978-4-86816-075-5.
