Caqui foi o nome escolhido para a revista digital lançada em 1996, pioneira do haicai na internet brasileira. Depois de três décadas, o que nasceu como boletim do Grêmio Haicai Ipê tornou-se o principal ponto de referência para quem pratica, pesquisa ou simplesmente aprecia o haicai em português.
“Haicais brasileiros,
como se lhes desse caquis
de Barbacena ou de São Paulo”
Afrânio Peixoto, Missangas, 1931
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Um nome emprestado
A história do Caqui começou em maio de 1993, com a publicação do número inicial de um boletim impresso. Edson Iura e Francisco Handa escolheram juntos o nome da publicação, inspirado na trajetória do haicai: como o caqui, ele veio do Japão, aclimatou-se ao Brasil e caiu no gosto dos brasileiros.

Com periodicidade irregular, o Caqui impresso teve 21 edições, numeradas de zero a 20, publicadas ao longo de dez anos, entre maio de 1993 e dezembro de 2003. Sua principal finalidade era divulgar o trabalho do Grêmio Haicai Ipê (GHI), apresentando, em cada edição, uma amostra dos haicais compostos pelos membros, ao lado de artigos curtos, resenhas e notícias.
No Caqui número 7, de março de 1996, sob o título “Caqui on-line”, aparece o anúncio da revista homônima em sua nova versão digital, que já estava há algum tempo no ar. Num momento em que a internet ainda era desconhecida para grande parte do público, o texto buscava explicar o caráter inovador da iniciativa: tratava-se da primeira revista brasileira de haicai com circulação exclusivamente pela rede, prometendo expandir o caráter acanhado do boletim xerocado ao dar “mais profundidade e tratamento gráfico apurado ao Caqui tradicional”. Destacava-se também a possibilidade de a revista “ser lida em qualquer lugar do mundo”, sublinhando o alcance global proporcionado pela nova tecnologia.

O anúncio transmitia um entusiasmo quase utópico diante da fronteira recém‑aberta pela internet, descrita como “a rede que une computadores de todo o planeta”. Nesse contexto, o lançamento da revista digital era apresentado como um “fato alvissareiro para a comunidade haicaísta”, reforçando o espírito pioneiro que marcava a transição do haicai brasileiro para o ambiente virtual. O anúncio, na verdade, funcionava como um verdadeiro manifesto de criação do Caqui on-line. Ironicamente, foi publicado em papel, dado que a versão eletrônica nunca teve uma seção editorial.
Nasce a revista brasileira de haicai
Como revista, o Caqui on-line teria periodicidade quadrimestral, alinhada às estações. A cada nova edição, assim se anunciava, suceder-se-iam conteúdos fixos, para consulta e referência permanentes, e conteúdos variáveis, substituídos a cada nova estação. O cardápio da edição de verão de 1996 incluía os seguintes tópicos: “O caqui e o haicai”, “Os dez mandamentos do haicai”, “O ipê e o haicai”, “O poema de Bashô e o zen”, “Uma antologia de verão” (haicais do GHI) e “Graffitti” (seção de haicais dos leitores).

O qualificativo “on line” foi abandonado algum tempo depois, especialmente com o fim do boletim que lhe deu origem, restando somente a palavra “Caqui”, seguida pelo subtítulo “Revista de Haicai”, posteriormente atualizado para “Revista Brasileira de Haicai”. Quanto à periodicidade baseada nas estações, essa acabou na prática transformando-se em mero marcador na home page, pois era obedecida apenas pela Antologia do GHI. De resto, não fazia sentido esperar três meses para postar novos materiais em um site de internet, dinâmico por definição.

Apesar de compartilhar o nome com o boletim impresso, o Caqui virtual seguiu um caminho próprio. Aproveitou, em seu início, muitos artigos previamente publicados no material impresso e continuou servindo de vitrine para os haicaístas do Grêmio Haicai Ipê, através das seleções elaboradas por Douglas “Guin Ga” Eden (1938-2017) e renovadas trimestralmente. As seleções terminaram em 2009, refletindo o progressivo afastamento de Edson Iura do GHI. Mas o Caqui continuou a atuar como linha de apoio ao Grêmio, mantendo páginas dedicadas ao próprio GHI, a Goga Masuda e, especialmente, dando cobertura ao Encontro Brasileiro de Haicai e aos concursos promovidos pela entidade. Ao mesmo tempo, buscava alçar voo sozinho, em uma trajetória diferente da do boletim impresso, que sempre seria o órgão oficial do GHI.
A esquina virtual
A primeira iniciativa nessa direção foi o Graffitti, página aberta à participação dos leitores, que podiam enviar qualquer tipo de poema em três linhas, publicados sem seleção ou questionamento. Ativo de 1996 até 2017, o Graffitti foi o primeiro espaço da internet brasileira dedicado exclusivamente ao haicai, contribuindo para popularizá-lo nos anos pioneiros. Encerrou seu funcionamento com a sensação do dever cumprido. A presença do haicai no espaço virtual tinha se multiplicado ao longo de vinte e um anos, tornando desnecessária essa porta de entrada específica.

Haicais e seus haicaístas
Outra iniciativa digna de nota é a Antologia da Rã. Francisco Handa e Guin Ga apresentaram a Edson Iura o livro One Hundred Frogs, de Hiroaki Sato, e seu apêndice de 100 traduções para a língua inglesa do famoso poema de Bashô. O número, segundo eles, teria influenciado o título da antologia 100 Haicaístas Brasileiros, de 1990, a primeira organizada pelo GHI. O Caqui resolveu retomar o caminho de Hiroaki Sato, agora para levantar todas as traduções possíveis do haicai da rã para a língua portuguesa. Uma primeira pesquisa arrolou 21 versões, de autores como Cecília Meireles, Haroldo de Campos, Millôr Fernandes, Paulo Leminski e Teruko Oda, entre outros. A última versão conta 67 traduções, atualizada a cada vez que um novo espécime chega ao conhecimento do editor.
Desde o início, o Caqui procurou retratar a vida e a obra de grandes haicaístas, oferecendo, junto a uma biografia ou a um ensaio biográfico, uma amostra de sua poesia. O primeiro perfilado foi Guilherme de Almeida, seguido pelo japonês Kobayashi Issa (numa colaboração de Paulo Franchetti), por Fanny Dupré e Masuda Goga.

Seguiram-se Paulo Leminski (colaboração de João Angelo Salvadori e Ricardo Silvestrin), Jorge Fonseca Jr., Nenpuku Sato e Helena Kolody (colaboração de José Marins). Esses perfis formam a base da editoria “Gente”, que, além de artigos biográficos, agrupa todas as matérias cujo destaque seja uma personalidade ligada ao haicai.
O haicai clássico também mereceu lugar central no Caqui por um longo período. Originadas de seu trabalho no Jornal Nippo-Brasil, as traduções de Edson Iura, 179 haicais de 34 autores acompanhados dos originais e classificados por estação, estamparam as páginas do Caqui de 2003 até 2024. Neste ano, foram recolhidas e editadas em livro físico. Por duas décadas, a Antologia de Haicais Japoneses foi a referência mais confiável e abrangente sobre o haicai japonês disponível na internet em português.

A maior vitrine da internet
A seção Estante, iniciada em 2002, é um dos maiores sucessos do Caqui. Inicialmente desenhada como uma forma de mapear a produção de livros de haicai em língua portuguesa, a Estante chega a 2026 com 274 títulos inventariados, a grande maioria enviada espontaneamente por seus autores. Cada livro é contemplado por uma descrição básica, informações de contato, um resumo do conteúdo e uma amostra de haicais. A Estante cumpre simultaneamente os objetivos de aproximar o autor do leitor, catalogar e perenizar a produção haicaísta de língua portuguesa, e atestar a relevância do haicai para o mercado editorial.
Arquivo do haicai brasileiro
Desde 2001, o Caqui passou a incluir uma área de notícias, concentrando a divulgação de concursos, eventos culturais, homenagens e lançamentos. Exerce, assim, ao lado do importante papel de divulgação, o de memória do movimento haicaísta, contribuindo para sua perenidade.

Ao longo dos anos, documentou e cobriu, entre outros: as 18 edições do Concurso Brasileiro de Haicai Infanto-Juvenil (2002-2019); as 12 edições do Prêmio Masuda Goga (2008-2019); diversas edições da fase brasileira do Concurso de Haicai para Crianças da JAL; as 25 edições da Contemplação da Lua, desde seu início em 1999, interrompidas apenas durante a pandemia; as cinco edições do Concurso Bunkyo de Haicai (desde 2022); as 17 edições do Concurso de Haicai do Prêmio Literário Yoshio Takemoto (2006-2025, com interrupção durante a pandemia); e as 26 edições do Encontro Brasileiro de Haicai, incluindo as anteriores à fundação do Caqui, documentadas retrospectivamente, de 1986 a 2017.

Três décadas após aquele primeiro boletim xerocado, o Caqui permanece como o mais longevo e abrangente site do haicai em língua portuguesa. Não é apenas um repositório do que foi produzido, mas um instrumento ativo de formação, divulgação e memória, fiel desde o início à convicção de que o haicai, transplantado do Japão, encontrou solo fértil no Brasil.
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