Acima: O palestrante Yoshikazu Shiraishi exibe os dois saijiki de Goga Masuda (Foto: Kakinet)
“Goga Masuda, mediador da cultura haicai: O futuro do haicai mundial começa no Brasil”. Com este título ousado, palestra do professor japonês Yoshikazu Shiraishi (Universidade Shôin – Kanagawa, Japão) abordou a trajetória do mestre Goga Masuda (1911-2008) e o papel do Brasil como modelo para a transplantação do haicai às culturas de outros países.
Caqui foi o nome escolhido para a revista digital lançada em 1996, pioneira do haicai e, na verdade, um dos mais antigos sites literários da internet brasileira. Depois de três décadas, o que nasceu como boletim do Grêmio Haicai Ipê tornou-se o principal ponto de referência para quem pratica, pesquisa ou simplesmente aprecia o haicai em português.
Acima: microcomputador antigo, em estética pixel art, com caqui na tela
Edson Iura
Em setembro de 1995, a internet comercial chegou ao Brasil. No ano seguinte, antes de quase tudo que restou daquele momento pioneiro, um site dedicado ao haicai em língua portuguesa entrava no ar. Trinta anos mais tarde, o Caqui ainda está aqui, com o mesmo espírito artesanal e fiel à missão de acompanhar o desenvolvimento do haicai no Brasil.
Ao completar trinta anos, a coluna Haicai Brasileiro inscreve-se na tradição inaugurada por Masaoka Shiki, um dos quatro grandes mestres do haicai japonês (ao lado de Bashô, Buson e Issa), que transformou sua coluna de jornal em espaço de aprendizagem, crítica e formação de novos autores. Desde sua primeira edição, em 1996, a coluna acompanhou as transformações da imprensa nipo-brasileira, atravessou o fechamento de jornais, adaptou-se às novas tecnologias e manteve viva uma comunidade de haicaístas em língua portuguesa. Sua história confunde-se, assim, com a própria consolidação do haicai brasileiro contemporâneo.
A permanência do Haicai Brasileiro por trinta anos não se explica apenas pela dedicação de seus editores. Ela depende, sobretudo, das pessoas que a alimentam com seus poemas, sua leitura e sua fidelidade ao longo do tempo. Os depoimentos reunidos a seguir revelam como o Haicai Brasileiro marcou a trajetória de seus colaboradores, tornando-se, para diferentes haicaístas, um espaço de aprendizado, convivência e transformação.
Por ocasião dos trinta anos da existência da coluna Haicai Brasileiro, cabe recordar como se deu a consolidação do haicai como o conhecemos atualmente, um movimento que não surgiu por acaso.
Foto: Edson Iura e Paulo Franchetti na Câmara Municipal de Campinas
Edson Iura
No início de maio de 2026, estive no plenário da Câmara Municipal de Campinas. Lá, presenciei a solenidade de concessão do título de Cidadão Campineiro ao Professor Paulo Franchetti. Justa e merecida homenagem, mais uma entre tantas já recebidas e ainda por receber, a uma vida dedicada ao conhecimento, ao ensino e, principalmente, ao haicai.
O poeta niteroiense Luiz Antônio Pimentel (1912-2015), a quem se atribui a responsabilidade pela dicionarização do vocábulo haicai (Foto: Will Martins)
Pesquisadores às vezes
se voltam para a comunidade nipo-brasileira em busca de falares arcaicos, que
não acompanharam a evolução do idioma no Japão. Porém, não é no seio dos haijin
imigrantes, e sim entre poetas brasileiros falantes de português, que se
registra o uso arraigado de haicai, um termo obsoleto há mais de um século. Haiku
é o termo atualizado que designa a poesia curta inspirada pelos cânones
definidos por mestres como Bashô, Issa e Shiki, no Japão e em quase todo o
mundo. Mas a regra é quebrada justamente no Brasil, onde, paradoxalmente, tal
forma poética é muito popular. Tentarei rastrear os principais pontos do
percurso da palavra haicai ao longo da história, procurando entender a
tenacidade de seu uso no Brasil.
O haicai é uma forma poética muito popular no Brasil. Sua origem é japonesa. A prática do haicai remonta ao século 15, quando nasceu como um divertimento. Entretanto, pode-se dizer que foi Matsuo Bashô (1644-1694) o responsável por aperfeiçoar e dar qualidade literária ao gênero. Há várias maneiras de se compor haicai em português, mas neste artigo só trataremos de uma.