Edson Iura
Em 2017, o Grêmio Haicai Ipê, primeiro grupo de estudo e prática de haicai em português no Brasil, completou 30 anos de fundação. A antologia Lua de Outono, organizada por Teruko Oda, foi editada naquele ano para marcar o momento histórico. Com prefácio de Paulo Franchetti, dezesseis autoras e autores, membros do Grêmio, participaram com quatro haicais cada um, totalizando 64 poemas. Cada autor é identificado por um pequeno perfil biográfico. Completa o livro uma cronologia de fatos, eventos e publicações, de 1987 a 2017.
Homenagem a Goga
Vale destacar que o grande homenageado do livro é o mestre Hidekazu Goga Masuda (1911-2008), um dos fundadores do grupo. No texto da orelha, Raimundo Gadelha esclarece: “Goga, de forma pioneira, criou para o Haicai uma orientação estética e, mais ainda, explicou o termo de estação (kigo) e convenceu os brasileiros de sua importância no haicai. Em um justo reconhecimento, em 2004, Goga foi laureado com o Masaoka Shiki International Haiku Prize. Ao falecer, em 2008, o Mestre Goga deixou para todos nós um poético ensinamento: vale a pena sonhar, mesmo que em 17 sílabas!”
Aqui, Goga comparece postumamente com uma seleção de 38 haicais inéditos, acompanhados de um álbum de 15 fotografias do próprio Goga ou a ele relacionadas, além de um depoimento de seu primogênito, Kiitiro Masuda. O depoimento de Kiitiro Masuda é fascinante, ao desvelar um pouco da intimidade da família Masuda. Ficamos sabendo que o menino Hidekazu colecionava recortes de jornais e propagandas sobre o Brasil, sonhando um dia vir para cá. Esse sonho se realizou com a imigração em 1929 e a fixação em Pedregulho, SP, para trabalhar com agricultura e, posteriormente, comércio.

Na idade adulta, somos apresentados ao cotidiano de Goga como chefe de família de cinco crianças, morando em São Paulo. Preocupado em prover o sustento dos filhos e dos pais idosos, ele desdobrava-se como funcionário da Cooperativa Agrícola de Cotia e jornalista. Ao mesmo tempo, destacava-se na colaboração com Nenpuku Sato (1898-1979), introdutor do haicai entre os imigrantes japoneses. Kiitiro revela que a postagem da revista mensal da associação Kokage, de Nenpuku, era responsabilidade de Goga, contando com o reforço dos filhos para etiquetar as revistas com os endereços dos assinantes.
A trajetória de Goga no haicai e, posteriormente, no Grêmio Haicai Ipê, é narrada da forma que conhecemos de seu perfil público, mas aqui ganha a perspectiva única do filho, permitindo-nos enxergar o ser humano por detrás do poeta.
Alguns haicais de Goga
De Lua de Outono:
Fugi de São Paulo –
Mas tenho muita saudade
Do ipê em flor.
Uma noite curta –
No longa-metragem do sonho
História nostálgica.
Um espelho sem mácula
Azul, azul, mais azul –
O céu de outono.
Frio, muito frio –
Mas o meu coração quente
Palpita no poema.
Alguns haicais do Grêmio Haicai Ipê
De Lua de Outono
Vozerio no parque –
Atentas às próprias falas
Duas maritacas.
Carlos Bueno
Chuva e trovão –
Olhinhos arregalados
Na sala de aula.
Débora Tavares
Aterro sanitário –
Cachorros e urubus
Disputam comida.
Luci Tiho Ikari
Velha mariposa
No quintal da minha mãe –
Estendo a mão.
Michela Brígida Rodrigues
Replanto glicínias –
Os sonhos de meu avô
No cheiro da terra.
Teruko Oda
A necessidade dos grêmios
Kiitiro Masuda conta que, no sítio à beira da represa de Furnas, para onde levou o pai em sua merecida aposentadoria, montou-lhe um escritório, a curta distância da casa principal. Todos os dias, Goga para lá se dirigia, e, antes de qualquer outra tarefa, abria o oratório familiar e entoava a plenos pulmões uma sutra budista. O espantado Kiichiro perguntou-lhe por que recitar tão alto, a ponto de ser ouvido na casa principal. Goga respondeu: “Para exercitar as cordas vocais. No momento de minha travessia [morte], desejo fazê-la sentindo o tépido aquecimento do corpo, a alegria no coração e a leveza de espírito. É como o sentimento que experimento quando tomo uma pinga boa na roda de amigos fazendo haicais”.
Eis a deixa para refletir sobre a necessidade dos grêmios.
Vivemos uma época de relações líquidas. Estamos cada vez mais conectados pelas ferramentas digitais, mas, paradoxalmente, cada vez mais solitários. A quantidade de contatos é enorme na aparência, mas os laços resultantes são superficiais e efêmeros. A espontaneidade e a autenticidade desaparecem na tela bidimensional. A ausência de comunicação não verbal compromete a expressão e a compreensão das emoções humanas. É cada vez mais difícil estabelecer relações profundas e duradouras.
Nada contra escrever ótimos poemas. Nada contra ser um haicaísta que se realiza de maneira solitária. Entretanto, o haicai, mais do que qualquer arte literária, é para ser feito coletivamente: “uma prática cujo valor não está apenas nos resultados, mas principalmente no exercício orientado e na alegria do encontro para ler e ouvir os versos dos amigos”, ou “celebrar o convívio”, palavras do prefácio de Paulo Franchetti.
Essa dimensão comunitária se revela na história do Grêmio Haicai Ipê, e de todos os outros grêmios que, surgidos de sua inspiração, levaram adiante esse espírito comunitário, celebrando a força do encontro e sobrevivendo mesmo diante de um desafio extremo como a Pandemia.
Convite
Em 2027, será celebrada mais uma década do Grêmio Haicai Ipê. Para os que ainda não tiveram contato com esse livro e para que mais pessoas conheçam um pouco de seu trabalho pregresso, o Grêmio oferece a antologia Lua de Outono a um preço muito convidativo: R$ 24,00 com frete incluído. É uma oportunidade imperdível de explorar a produção do Grêmio e aprofundar-se na história do mestre Goga. Para comprar, basta enviar um e-mail com endereço completo para haicai.ipe@gmail.com. O pagamento deve ser feito exclusivamente por Pix, e a chave é o e-mail: haicai.ipe@gmail.com.
