Haicrônicas: Haibun à Brasileira

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Um rio de nome vida: Haibuns à maneira de crônicas
Carlos Martins

Coletânea de haicrônicas [crônicas à maneira de haibun] (151 textos acompanhados de haicais). Apresentação do autor. Inclui nota biobibliográfica. Jundiaí, Telucazu, 2026. 256 páginas, 14 cm x 21 cm. ISBN 978-65-856970892-6. Contato: Loja Telucazu.

Da apresentação: “Pelo exposto até aqui, já pode o leitor perceber a relação estreita entre o haicai, o haibun (especialmente esse, pela sua dose de prosa) e a crônica. Portanto, não proponho (nem quero!) alguma novidade personalista. A intenção é só a de reforçar essa natureza comum dos gêneros literários, e estabelecer uma ponte entre eles. O que me propus foi realizar um sincretismo literário entre o haibun e a crônica, o que implica gozarem os textos de uma liberdade estilística, ou seja, especialmente no haibun (já que a crônica já é por si só mais espartana em relação a regras), seguir o proposto por Bruce Ross, ‘privilegiando o vínculo’, não sendo rigoroso quanto à extensão da prosa; se o haicai não pedir um kigo, não forçar a sua presença nele; procurar deixar o ego detrás da porta de en-trada, mas permitir ao eu participar da composição, desde que não se ache o último bombom da caixa. E, por fim, generalizar e chamar todos esses prosímetros de haicrônica! Gosto do direcionamento dessa frase que usei como subtítulo ‘haibuns à maneira de crônicas’, pois ele encerra a minha falta de preocupação com apuro literário, pois essa aproximação clara entre essas suas formas literárias deixa ainda mais coloquial o haibun, permitindo voos subjetivos, o que não convém ao haicai. O texto fica mais gostoso de ser escrito e, espero, de ser lido por outros, que não sejam os meus olhos…”

Amostra:

Sirene de latinha

Não era só no verão, mas era nele, no descompromisso dos dias quentes e luminosos das férias, que a meninada descalça e de shortinho, montava nas bicicletinhas das quais não eram os primeiros donos, herdadas que foram de outros bumbuns, parentes ou não, e saíam azucrinando pelas ruas de terra do bairro. Não bastavam os gritinhos das vozes pré-púberes e de onde ou quem — ninguém sabia como —, surgiu a ideia de uma buzina angustiante aos ouvidos mais velhos, e motivo de riso e orgulho da molecada. Feita de barbante e latinha de extrato de tomate Cica — futuro extrato de tomate Elefante —, amarrada da popa à proa do quadro da magrela, elas infernizavam as tardes abafadas na várzea do rio Tietê. E, só hoje me dei conta, do porquê gosto tanto do estridular das cigarras…

Rua ruidosa
Bicicletas e cigarras
ao entardecer

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