Bashô e a Arte da Viagem

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Diários de viagem e alguns poemas em prosa
Matsuo Bashô (trad. Jorge Sousa Braga)

Coletânea de diários de viagem (6 diários) e poemas em prosa [haibun] (3 haibun), anotados. Tradução e apresentação de Jorge Sousa Braga. Inclui bibliografia. Inclui mapas. Porto, Assírio & Alvim, 2026, 176 páginas, 15 cm x 21 cm. ISBN 978-972-37-2464-6. Contato: assirio.pt.

Da introdução: “O Diário de Tosa, de Ki no Tsurayuki, escrito por volta de 935, constitui aquilo a que podemos chamar um nikki bungaku (diário literário) ou kiko bungaku (diário de viagem) e regista uma viagem de Tosa até Quioto, escrita na perspectiva de uma companheira de viagem. Tradicionalmente, os diários eram compostos por uma série de poemas unidos por secções em prosa. Mas foi o Diário de Kagerô, da assim chamada Mãe de Michitsuna, que mais contribuiu para o desenvolvimento dos diários no Japão. Outros exemplos de nikki bungaku incluem os das cortesãs imperiais Izumi e Murasaki Shikibu. Os diários de Matsuo Bashô inserem-se nesse movimento. Aliás, Bashô confessa num deles: ‘Desde tempos imemoriais que a arte de escrever diários de viagem é muito popular e grandes escritores como o senhor Ki, Chômei e a monja Abutsu atingiram a sua perfeição. Trabalhos posteriores não passam de imitações desses grandes mestres. A minha pena, mais fraca em sabedoria e desfavorecida pela graça divina, empenha-se em vão em igualá-los. É relativamente fácil dizer que, por exemplo, ‘naquele dia estava a chover, mas a tarde ficou radiosa, havia um pinheiro neste lugar’ e anotar o nome dos rios. Isso é o que toda a gente escreve nos diários, embora não sejam dignos de menção a não se que constituam elementos novos, como em Su, e significativos, como em Huang. Os leitores encontrarão no meu diário uma amostra fortuita de tudo o que vi no caminho. Algumas dessas visões permanecem ainda vivas no meu coração: uma casa isolada na montanha ou uma estalagem solitária cercada por um matagal. Anotei estas recordações com a esperança de que possam desencadear uma conversa agradável entre os meus leitores e para que possam ser úteis àqueles que calcorreiam os mesmos caminhos. Devo confessar, todavia, que as minhas recordações pouco mais são do que o discurso delirante e sem nexo do sonhador e, portanto, são amigavelmente convidados a tomá-las como tal.’ “

Amostra:

A glória de três gerações de Fujiwara desvaneceu-se como o sonho de uma noite. Os restos da entrada principal da mansão estão a um li de distância do conjunto das ruínas. A residência de Hidehira converteu-se num matagal e só resta em pé o monte Kinkei. Subi as ruínas do palácio Takadachi. Dali se vê o Kitakami, grande rio que vem do Sul. O rio Koromo, depois de contornar o castelo de Izumi Saburo, junta-se-lhe abaixo do palácio Takadachi. As ruínas do castelo de Yasuhira, com o posto de Koromo que está mais adiante, guardam a entrada a sul e constituem uma defesa contra as invasões. Aqui se encerram os fiéis eleitos. Das suas façanhas nada resta, a não ser estas ervas. Recordo o velho poeta:

países são arrasados
os rios e as montanhas permanecem…
entre as ruínas do castelo
a primavera renasce
e reverdecem as ervas

Sento-me sobre o meu chapéu e choro, sem me dar conta da passagem do tempo:

ervas do estio
eis tudo o que resta
do sonho dos guerreiros


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