No Ritmo do Blues & o Beat dos Fonemas
Odair de Morais
Coletânea de haicais (143 haicais). Apresentação de Alvaro Posselt. Prefácio de Jaime Lorente. Texto da orelha de Aclyse de Mattos. Posfácio de Paulo da Rocha Dias. Ilustrações de Alexandre Santana. Inclui nota biobibliográfica. Cuiabá, Carlini & Caniato, 2026. 80 páginas, 14 cm x 21 cm. ISBN 978-85-8009-393-3. Contato: tantatinta.com.br.
Do prefácio: “Guilherme domesticou o haicai à língua pátria, valorizando a musicalidade, o corte preciso, o olhar atento e reflexivo. Odair herda esse gesto e o atualiza. Se no poeta modernista o haicai dialogava com a paisagem, a flor e a epifania delicada, aqui ele também se permite influenciar pelo asfalto, pela gambiarra urbana, pelo blues que ecoa nas ausências e no cansaço cotidiano. A semelhança mais notória entre Odair de Morais e Guilherme de Almeida talvez esteja no entendimento do haicai enquanto escultura artística. Ambos sabem que o poema nasce da observação atenta do cenário que os circunda: o ipê na calçada ao amanhecer ou a gota de orvalho que, como uma lágrima tardia, percorre o tobogã de uma pétala ainda úmida… Tudo é digno de registro quando o poeta aprende a ver sem hierarquias. Essa estética do olhar reaparece aqui atravessada por beats, samples e cortes abruptos, como se Bashô encontrasse o vinil riscado de um antigo grupo de blues nova-iorquino. Ao estruturar o livro como um álbum, Odair amplia ainda mais esse diálogo. O haicai deixa de ser apenas contemplativo e assume ritmo, groove, respiração musical. Cada seção funciona como um lado do disco: cidade, memória, quintal e paternidade. E o que se mantém, do início ao fim, é a fidelidade ao instante enquanto princípio fundador do haicai.”
Amostras:
Grafite no muro.
Um teco no beco: faz eco
o grito no escuro.
Amor inseguro…
Quase casei: kamicaze
em cima do muro.
A bola é lançada…
a pino. O sol clandestino
pela arquibancada.
Mosquito na farra.
Do músculo faz minúsculo
solo de guitarra.
