Acima: microcomputador antigo, em estética pixel art, com caqui na tela
Edson Iura
Em setembro de 1995, a internet comercial chegou ao Brasil. Poucos meses depois, mas antes de quase tudo que restou daquele momento pioneiro, um site dedicado ao haicai em língua portuguesa entrava no ar. Trinta anos mais tarde, o Caqui ainda está aqui, com o mesmo espírito artesanal e fiel à missão de acompanhar o desenvolvimento do haicai no Brasil.
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A internet comercial no Brasil tem seu marco inicial em setembro de 1995, quando os primeiros usuários do grande público receberam acesso à rede. Antes disso, o acesso era restrito a instituições acadêmicas e de pesquisas. Nessa data, provedores privados foram autorizados a repassar, a qualquer interessado, acesso à internet obtido dos backbones da Embratel e da RNP (Rede Nacional de Pesquisas).

GIF animado de caqui criado entre 1997 e 1998 por Edson Iura (Reprodução: Caqui)
O mar de informação
O Caqui içou âncoras rumo ao ciberespaço na virada do ano de 1995 para 1996. A propósito, metáforas náuticas como “navegar”, “surfar” e “internauta” surgiram acompanhando o nascimento da internet, popularizadas como uma maneira de perceber a grande rede como um território vasto, fluido e desconhecido, ainda por desbravar, à maneira do mar das grandes navegações. Até hoje usamos um app chamado navegador ou browser para visitar os diversos sites.

Para ajudar no desbravamento dessas terras incógnitas, surgiam os primeiros diretórios de pesquisa, como o Yahoo, basicamente coleções de links organizadas por funcionários humanos, antes que se popularizassem os buscadores por palavra-chave, como o antigo Altavista e o Google. Já existiam índices brasileiros como o Surf e o famoso Cadê, este posteriormente absorvido pelo Yahoo.
Não havia a internet onipresente de hoje, como a água, a eletricidade ou o ar que respiramos. A navegação seguia um ritual: à noite, quando as tarifas telefônicas eram mais baratas, um computador pessoal dotado de um pesado monitor de tubo (ainda assim, chamado de microcomputador) deveria ser “conectado” à internet por meio de um modem ligado ao mesmo cabo que servia o telefone da casa (o que impedia fazer e receber ligações durante o tempo de conexão).

Era desse jeito, enquanto todos dormiam, que o pioneiro internauta, iluminado apenas pela claridade de tela, fazia suas pesquisas e descobria novos e empolgantes sites, inclusive sobre haicai. Era do mesmo modo também que os pioneiros criadores de conteúdo montavam suas páginas, inicialmente offline. Então, apenas quando prontas, essas páginas eram carregadas nos respectivos servidores, para poupar os preciosos impulsos telefônicos.
O início dos sites
O conteúdo em língua portuguesa era limitado. Ao longo de 1996, organizaram-se grandes iniciativas literárias que perduram até hoje, como o Jornal de Poesia, de Soares Feitosa, e o Blocos On Line, portal baseado no jornal cultural impresso Blocos, de Leila Miccolis. Dessa época também é o site carlosdrummond.com.br. O UOL apareceu apenas em abril. O Caqui entrou no ar antes de todos, como diretório de um servidor compartilhado. Naquela época, quem quisesse publicar poderia contratar um caríssimo servidor próprio ou usar o espaço de um servidor compartilhado. Nesse campo, havia soluções populares no Brasil, como o Geocities e o Angelfire, que forneciam hospedagem gratuita e algumas ferramentas de criação. Não se falava em blog, conceito que só se disseminou depois do ano 2000.

O Caqui optou por uma solução intermediária em termos de custo: contratar um provedor de hospedagem brasileiro, que alugava um servidor nos EUA e sublocava suas frações para clientes brasileiros. Desse modo, o primeiro endereço do Caqui ficou sendo www.mandrak.com.br/kakinet/caqui.htm (o atual proprietário do domínio mandrak.com.br já não tem nenhuma relação com o de 1996). A palavra kakinet é uma junção de Caqui e Internet, que Edson Iura começou a usar como identificador de e-mail em 1995, procurando desde o início vincular sua atividade na rede ao Caqui. Ao fim de alguns meses, o endereço foi simplificado para www.mandrak.com.br/ kakinet, até que, em janeiro de 1998, foi adquirido o domínio kakinet.com.
Artesanato digital
A criação de sites, especialmente por amadores, era inteiramente manual, o que pode parecer assombroso ao público moderno. As ferramentas em 1996 podiam ser tão simples quanto um editor de texto e um editor fotográfico básico, como o Paint do Windows. As primeiras versões da linguagem HTML tinham pouquíssimos “tags” (os “comandos”), que podiam ser aprendidos sem dificuldade. Logo o Caqui foi dotado com um script de busca simples em linguagem PERL, baixado de um site especializado. Quanto ao uso de imagens, as primeiras câmeras digitais só chegaram no século 21. Até lá, era necessário baixar fotos prontas ou escanear fotos tiradas com máquinas analógicas.

O conceito de internet à vontade surgiu apenas no século 21, com a banda larga, pela qual se paga uma taxa fixa mensal. A primeira conexão de banda larga à disposição do editor do Caqui foi do tipo ADSL de 256 kbps, em 2001. Além da velocidade bem maior, sua vantagem era permitir o uso independente para chamadas, apesar de compartilhar da mesma linha telefônica. Ao longo da década de 2010, mesmo o ADSL mostrou suas limitações, sendo substituído pelas tecnologias mais modernas da fibra óptica e do 5G, e assim chegamos aos nossos dias.
Organizando tudo
Até um site simples como o Caqui vê seu conteúdo crescer ao longo do tempo, de modo que repetir tarefas, padronizar a apresentação das páginas e manter tudo organizado começa a ficar oneroso. A partir de 2001, passou-se a usar algumas tags SHTML, para incluir cabeçalhos e rodapés padronizados, e comandos em PHP, para automatizar o envio de formulários e tornar os menus mais inteligentes. Para testar os scripts, o editor do Caqui manteve instalado em sua máquina, por alguns anos, um servidor Apache com PHP (WAMP), até que concluísse ser mais simples rodá-los no próprio servidor.

Mesmo com as automações, a criação de páginas continuava a exigir muito trabalho manual. Qualquer mudança de layout tomava tempo e a própria aparência do site começava a ficar datada conforme se passavam os anos. Isso levou à adoção da plataforma WordPress, a partir de 2009.
O WordPress é um sistema completo de edição e gerenciamento de páginas, que permite focar esforço exclusivamente na criação de conteúdo, abandonando totalmente a edição manual de HTML. O WordPress surgiu como uma plataforma de criação de blogs, com código aberto e gratuito, mas hoje serve para criar qualquer tipo de site. O WordPress tornou-se a única ferramenta de criação de novas páginas do Caqui, mas muitas páginas criadas antes de 2009 continuam no ar, com seu design da década de 1990, ainda à espera de atualização.

Atualizar é a regra
Em 2018, o site foi novamente atualizado para tornar-se compatível tanto com computadores de mesa quanto com dispositivos móveis (“responsivo” é o jargão), uma realidade que não podia ser mais negada, a de que o acesso ao Caqui se dava principalmente através de celulares. Dessa época também é a adoção do protocolo seguro HTTPS. Em 2026, a mais recente atualização do site acertou a aparência e trouxe compatibilidade com redes sociais.

Nada disso muda a característica do Caqui de ser, há 30 anos, um site artesanal e autofinanciado, que se sustenta sem o uso de recursos sofisticados e cuja única missão é a de acompanhar o desenvolvimento do haicai no Brasil.
Setup (dados para nerds): CPU Dell Vostro 3520 i5-1235U, 16GB DDR4 3200MHz, 512GB SSD PCIe NVMe M.2, NVIDIA GeForce MX550 2GB, Monitor Dell P2419H, Windows 11, Google Chrome, Microsoft Office 365, PaintShop Pro 4.12 Shareware (1996!), Filezilla 3.69.6, Notepad++ 8.9.7.
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