Haikai-L: 30 anos

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Foto: Edson Iura e Paulo Franchetti na Câmara Municipal de Campinas

Edson Iura

No início de maio de 2026, estive no plenário da Câmara Municipal de Campinas. Lá, presenciei a solenidade de concessão do título de Cidadão Campineiro ao Professor Paulo Franchetti. Justa e merecida homenagem, mais uma entre tantas já recebidas e ainda por receber, a uma vida dedicada ao conhecimento, ao ensino e, principalmente, ao haicai.

Em seu discurso de agradecimento, o Professor Franchetti discorreu sobre seu profundo envolvimento com o haicai e, gentilmente citando meu nome, destacou a criação, em 1996, do primeiro fórum eletrônico em português sobre a arte de Bashô,  hospedado em um servidor da Universidade de Campinas. Trata-se da Haikai-L, ativa até hoje, 30 anos depois.

Passaram-se dez anos, quinze anos e vinte anos, sem que houvesse algum tipo de comemoração de aniversário. Em 2021, ano do jubileu de prata, o véu escuro da pandemia desestimulava iniciativas que fossem além das prioridades mais imediatas.

A pandemia chegou ao fim. Embora não se possa dizer que, em 2026, os tempos estejam muito mais amenos, recapitulo o surgimento da Haikai-L (“a lista”), 30 anos atrás, na carona da lembrança do Professor Franchetti.

A operação comercial da internet iniciou-se em agosto ou setembro de 1995. Até então, apenas universidades e instituições de pesquisa tinham acesso à rede mundial.

Demoraria uns cinco ou dez anos para que se popularizassem as conexões de banda larga com fio. As conexões sem fio, por tecnologia celular,  vieram  depois do barateamento dos aparelhos e, principalmente, após o surgimento dos smartphones e a explosão das redes sociais. Naqueles anos pioneiros, a regra era usar a linha telefônica fixa como ponto de acesso para a internet, através de uma placa modem instalada no computador. Era necessário “conectar-se à internet”. Esse processo de conexão inicial gerava estranhos ruídos metálicos, como lembrado pelos mais velhos. O problema é que não era possível falar ao telefone e usar a internet ao mesmo tempo, o que gerava disputas entre os membros da família.

O Caqui (www.kakinet.com) surgiu em fevereiro de 1996, inicialmente como subdiretório de um servidor compartilhado, até a configuração do domínio kakinet.com, em 25 de janeiro de 1998. Posso afirmar, até onde vai meu conhecimento, que se trata do primeiro site (da internet mundial, por óbvio) dedicado ao haicai em português.

Naqueles tempos já existiam sites sobre haicai, como os experimentos pioneiros do brasileiro Rodrigo Siqueira, em inglês, as prolixas listas de regras de Jane Reichhold e o Shiki Internet Haiku Salon, mantido por professores da Universidade de Matsuyama, no Japão (a mesma que outorgaria, em 2004, um prêmio ao mestre Masuda Goga). Esse último site mantinha a lista de discussão “shiki-l”, para tratar do haicai em língua inglesa. Veio daí minha ideia para um espaço assim em língua portuguesa.

Uma lista de discussão é um fórum eletrônico baseado em e-mail. Um “assinante” (pessoa que se insceveu na lista) consegue enviar a mesma mensagem para todos os outros assinantes, que podem assim interagir entre si. A analogia moderna mais próxima que se pode fazer é a de um grupo de WhatsApp. Entretanto, há uma diferença importante: a lista de discussão é “assíncrona”, ou seja, cada um lê e responde às mensagens no seu tempo. Ao contrário, no grupo de WhatsApp, existe pressão pelo imediatismo e pelas respostas curtas e superficiais.

Em 13/03/1996, Paulo Franchetti visitou o Caqui e enviou um e-mail elogiando seu conteúdo. Começamos a trocar mensagens e, a certa altura, propus a ele a criação de uma lista de discussão sobre haicai em português, usando recursos computacionais da Unicamp. Ele aceitou a ideia de imediato. Foi assim que quinze dias depois, em 28/03/1996, surgiu a lista, já com o nome de Haikai-L.  Franchetti gentilmente sugeriu que eu enviasse a mensagem inaugural, dado que a ideia da lista tinha sido minha. Escrevi algumas platitudes sobre a ocasião e, despretensiosamente, anexei o seguinte haicai:

Olhando para o alto,
Só flores da paineira.
— O poeta sorri.

O professor Franchetti, tomando esses versos como estrofe inicial, encadeou-lhes um dístico:

No calor do meio-dia,
A brisa já é de outono.

E a partir desse momento, pediu que os participantes da lista (“assinantes”) fossem preenchendo a sequência com outros tercetos e dísticos, mais ou menos “sem lei nem caminho”, como dizia. Assim foi composto, ao longo de dois meses, estrofe após estrofe, até que fosse completo, em 30/06/1996, o primeiro renga (conjunto de poemas encadeados, popular ao tempo de Bashô, composto de 36 tercetos e dísticos alternados) da Haikai-L:

OLHANDO PARA O ALTO

1.  Olhando para o alto,
Só flores da paineira.
— O poeta sorri.

                            (Edson Iura)

2. No calor do meio-dia,
A brisa já é de outono.

                            (Paulo Franchetti)

3. Enche o coração,
Um sentimento nostálgico.
Um amor antigo.

                            (Edson Iura)

4. Passo no passado doce
Mas a foto é preto-e-branco.

                            (Tânia Martuscelli)

5. Pássaros escuros
Apenas o brilho da lua
Noite sem cores.

                            (Rodrigo Siqueira)

6. O sol da alvorada
Ilumina os pensamentos.

                            (Kendall Furlong)

7. Manhã de frio:
Na gaiola ainda coberta,
O canário canta.

                            (Paulo Franchetti)

8. O monte veste-se em branco
ouvindo o som do silêncio.

                            (Magda Lugon)

9. Pêssego maduro:
cresce em seu ventre a lagarta
que se diz semente.

                            (Magda Lugon)

10. Também para as ervas simples
Vai chegando a primavera.

                            (Paulo Franchetti)

11. Salsa, coentro, cebolinha,
verde cor e sabor
Que delícia de sopa!

                            (Mailde Tripoli)

12. Cozimento de outono
na janela folhas secas.

                            (Tânia Martuscelli)

13. casaco empoeirado
murmura no armário
o início da estação

                            (Origami Bird)

14. Uma densa cortina branca
encobre o nascer do sol.

                            (Mailde Tripoli)

15. no olhar da gralha
silhuetas na neblina
pinheiros

                            (Ignácio Dotto Neto)

16. ainda úmidas da noite
brilham as flores do capim

                            (Paulo Franchetti)

 17. e do campo
lembram os homens
lírios astrais

                            (Fernando Albuquerque)

 18. que não plantam pra colher
 mas se vestem como reis.

                            (José Reis)

19. colher de ouro
garfo de fogo, calor real
do sol

                            (Elisa Marchini Sayeg)

20. A tarde caindo rubra
Passos apressados param

                            (Mary Leiko Fukai Terada)

21. Suspiro de leve
 O sol se vai aos poucos
 E a neblina come a cidade

                            (Frederico Bohne Espinosa)

22. Sonhos em preto e branco
se projetam em vitrines

                            (Ignácio Dotto Neto)

23. Os sonhos das lojas
Abrem cores em multi:
tinem os metais

                            (Soares Feitosa)

24. Manequins são fantasmas
de plástico e imaginação

                            (Diogo Monteiro)

25. Entre arranha-céus
gelado Cristo de pedra.
Inverno no Rio

                            (Eduardo Rohde)

26. Sombras no canto da sala
Som de cuco na escuridão

                            (Elisa Marchini Sayeg)

27. As horas passam
O tempo voa,
uma porta se abre

                            (João Paulo C. Cajueiro)

28. Se as portas se fecharem,
um sorriso há de abri-las.

                            (Soares Feitosa)

29.  E dos cantos remotos
onde nos perdemos
sairemos em voo à vida

                            (Fernando Albuquerque)

30.  Se é que a liberdade existe
Quero um bife, não alpiste

                            (Eduardo Rohde)

31. O pássaro azul
num galho dum ipê
canta o céu acima

                            (Diogo Monteiro)

32. Que os galhos se quebrem…
os pássaros sabem voar!

                            (Soares Feitosa)

33.  Então que voem mais alto
que nossa ação
fecunda do coração…

                            (Murilo Hallgren)

34. Tapetes coloridos sobre calçadas,
nascem do namoro do vento com as flores

                            (Mailde Tripoli)

35. Chuva pesada
sobre a vida sem graça:

Uma esperança

                            (Tânia Martuscelli)

36. A fonte da alegria,
Enche os olhos de lágrimas

                            (Romero Tavares da Silva)

Em janeiro de 2000, em busca de melhores ferramentas de gerenciamento, a lista deixou a Unicamp, transferindo-se para a plataforma E-groups. Algum tempo depois, a E-groups foi adquirida pelo Yahoo, dando origem ao Yahoogroups. Em dezembro de 2020, foi anunciada a extinção do Yahoogroups. Sendo assim, a Haikai-L foi novamente migrada, desta vez para o Googlegroups, onde está até hoje.