Edson Iura
Faltando quatro anos para o século XXI, o haicai brasileiro descobria a internet, ganhava um dicionário de kigôs, dois encontros nacionais e até a atenção da televisão japonesa.
Um problema de agenda impediu a realização do X Encontro Brasileiro de Haicai, originalmente idealizado para ocorrer em 1995. A solução foi transferi-lo para o início do ano seguinte, mais precisamente 2 de março de 1996, resultando em um evento de grande sucesso. Mas o ânimo dos realizadores estava alto, tornando inevitável a realização do XI Encontro no ano que lhe era devido, sendo escolhida a data de 30 de outubro. Tivemos assim a particularidade de ver dois Encontros em um mesmo ano. Essa é apenas a primeira das excepcionalidades de um ano que ficará na história do haicai brasileiro pela quantidade de realizações.
O haicai no jornal e na internet
O ano se abriu de maneira promissora, com a inauguração da coluna Haicai Brasileiro, comandada por Goga Masuda (1911-2008) e Alberto Murata (1935-2011), no jornal Notícias do Brasil (futuramente, Nippo-Brasil). Foi a primeira vez que o haicai em português alcançava as páginas de um jornal, criando um espaço regular para que autores de todo o país pudessem ver seus poemas circularem, confrontando-os com os de outros praticantes.
Na mesma época, nascia o Caqui, primeiro site brasileiro dedicado ao haicai. A coincidência é mais significativa hoje do que naquela época. Era o haicai ocupando simultaneamente o jornal impresso e a internet. Para coroar a ocupação do novo meio, março viu a criação da Haikai-L, o primeiro fórum de discussão de haicai em língua portuguesa, fundado por Paulo Franchetti e Edson Iura.

Paulo Franchetti, aliás, veria seu nome indelevelmente associado ao haicai, muito por causa do sucesso de seu livro Haikai: Antologia e História, cuja primeira edição teve lugar em 1990. Primeira exposição sistemática em português do haicai japonês, composta de uma introdução teórica e de uma antologia de poemas, o livro foi tão bem-sucedido que comemorou a terceira edição justamente em 1996.
Multiplicam-se os lançamentos
Lembramos que, seis anos antes, em 1990, a Bienal do Livro de São Paulo proporcionou o primeiro encontro entre membros do Grêmio Haicai Ipê com Paulo Franchetti. Na Bienal de 1996, outra obra seminal vinha a público marcar uma geração: tratava-se de Oku: Viajando com Bashô, de Carlos Verçosa, até hoje o mais completo e alentado levantamento da influência do haicai na poesia brasileira que, após o lançamento em Salvador em 1995, aproximava-se ainda mais dos haicaístas do sul do Brasil.

Todas as tendências do haicai pareciam se beneficiar em 1996. Alice Ruiz lançava, pela Iluminuras, sua própria coletânea, de título Desorientais, com apresentações de José Miguel Wisnik e Arnaldo Antunes. Do outro lado do espectro, Francisco Handa organizava a coleção Haicais Completos, de Guilherme de Almeida, publicada pela Aliança Cultural Brasil-Japão, com prefácios de Goga Masuda e Paulo Franchetti.
O haicai brasileiro estava se desenvolvendo a passos largos. Não mais satisfeito em traduzir haicais japoneses, estava começando a se instrumentalizar para pensar a relação entre a poesia nascida no Brasil e as estações dessa terra.
O kigô em destaque
Um dos mais importantes lançamentos do ano foi Natureza – Berço do Haicai: Antologia e Kigologia, o primeiro saijiki (dicionário de termos sazonais ou kigôs). Lançado a 1 de outubro em noite de autógrafos no Salão Nobre da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa (Bunkyo), não era uma simples tradução do trabalho compilado no ano anterior pelo próprio Goga (Shizen Fûei, ou Canto da Natureza, um saijiki em língua japonesa). Era, na verdade, um livro feito a partir do zero, em estreita colaboração com sua sobrinha Teruko Oda, contando com textos explicativos e exemplos de haicais originalmente escritos em língua portuguesa. Como apontado retrospectivamente pelo pesquisador Yoshikazu Shiraishi, a edição de dois saijiki em línguas diferentes pelo mesmo autor constitui um feito único no mundo e grande mérito de Goga Masuda.

Ainda ignorantes da dimensão do movimento haicaísta brasileiro, Japão e EUA registravam, nesse mesmo ano, dois importantes marcos na bibliografia do haicai e dos saijiki.
Na terra do sol nascente, o Grande Saijiki do Japão, tradução de Nihon Dai Saijiki, monumental enciclopédia ilustrada de kigôs, resultou do esforço combinado dos titãs do haicai Mizuhara Shûôshi (1892-1981), Katô Shûson (1905-1993) e Yamamoto Kenkichi (1907-1988). Foi originalmente publicado entre 1981 e 1982. Em 1996, seus 5 tomos originais foram condensados em um único volume de 1936 páginas impressas em papel-bíblia (chamado de Jôyôban ou Edição Prática), resultando na popularização dessa obra fundamental.
Nesse mesmo ano, nos EUA, William J. Higginson (1938-2008), autor de The Haiku Handbook, publicava sua magnum opus, dividida em duas partes: Haiku World: An International Poetry Almanac (408 páginas) foi a primeira tentativa de se criar um saijiki mundial, com kigôs e haicais de vários países (nenhum do Brasil). Um livro de apoio de título The Haiku Seasons: Poetry of the Natural World (172 páginas) separava a inevitável parte introdutória e a teoria do haicai e do kigô em um segundo volume.
Assim, Brasil, Japão e EUA viam nascer, simultânea e independentemente, iniciativas para popularizar o conhecimento do kigô.
A TV e o poeta
Tanta movimentação no Brasil acabaria chamando a atenção do mundo, mormente do Japão, sempre interessado em observar como sua cultura é assimilada e se transforma em contato com outras.

Uma equipe da rede de televisão japonesa NHK passou o mês de outubro no Brasil, gravando entrevistas com participantes do movimento haicaísta, tanto imigrantes japoneses que escrevem em sua língua natal quanto brasileiros que escrevem haicai em português. Visitaram a Comunidade Yuba, no noroeste do Estado de São Paulo, assim como os participantes do concurso em memória de Nenpuku Sato, realizado anualmente na capital paulista. Até mesmo o editor do Caqui foi entrevistado em sua residência, vendo sua atividade na internet ser registrada por câmeras atentas.
O Grêmio Haicai Ipê também teve sua reunião de 5 de outubro documentada, e os haicaístas viram sua rotina mensal duplamente alterada. Combinaram-se a equipe técnica e jornalística da NHK (com a respectiva parafernália) e a presença do poeta japonês de vanguarda Gozo Yoshimasu. Velho conhecido do Brasil, onde já fora professor-visitante na USP, Yoshimasu desta vez exercitava sua curiosidade em saber como uma forma japonesa tradicional era apropriada e reinterpretada, podendo retornar ao Japão enriquecida, à maneira de outras artes, como o judô.

Nitidamente interessado por todos os pormenores da reunião, Yoshimasu manifestou espanto adicional ao ser informado que o haicai brasileiro já avançava pela internet, por meio do Caqui. Dentre seus compromissos posteriores no Brasil, estava um recital em conjunto com o concretista Haroldo de Campos.
O programa resultante foi ao ar em janeiro do ano seguinte, sob o título Shirarezaru Haiku Ôkoku Burajiru (Brasil: O Reino Desconhecido do Haicai). O que os japoneses encontraram no Brasil não era simplesmente uma comunidade de admiradores da poesia japonesa, mas um movimento que já possuía seus próprios autores, eventos, publicações, grêmios, um dicionário de kigôs brasileiros e até uma presença na internet.
Um ano prodigioso
Em 1996, o haicai brasileiro estava simultaneamente no jornal, nos livros e na rede, unindo a origem japonesa à experiência brasileira. Esse cruzamento atraiu a atenção da TV nipônica, que o viu como uma apropriação peculiar da tradição. Uma sucessão de acontecimentos aparentemente isolados começava a revelar uma rede de intercâmbios que impulsionava a expansão do haicai.
Talvez por isso 1996 seja, para o haicai, um ano prodigioso (anno mirabili). Não por um acontecimento isolado, mas pela convergência, naquele período atípico, de diversas iniciativas que vinham se desenvolvendo separadamente. O haicai se consolidava como uma forma literária que os brasileiros podiam estudar, escrever, discutir e publicar a partir de sua própria realidade. Trinta anos depois, o haicai continua a se expandir sobre aquelas bases, enquanto o Japão volta seu olhar, com interesse cada vez maior, para a trajetória singular da experiência brasileira.
O mundo em 1996
Acidentes aéreos fazem parte das previsões anuais de qualquer vidente que se preze. Mas 1996 foi marcado por dois deles. Um resultou no desaparecimento repentino dos Mamonas Assassinas, interrompendo para sempre um fenômeno de popularidade. Outro foi a queda do voo TAM 402 sobre um bairro residencial de São Paulo, matando quase 100 pessoas.
Não obstante, o Plano Real entrava em seu terceiro ano de sucesso, debelando a renitente inflação brasileira de seu auge de 2.477% em 1993 para meros 9% em 1996. A estabilidade conquistada produzia uma experiência inédita para uma geração acostumada a ver seu dinheiro perder valor de um dia para o outro. Porém, nem tudo eram flores. O Massacre de Eldorado de Carajás expunha o conflito agrário que o país não conseguia resolver. E a morte suspeita de PC Farias, eminência parda do ex-presidente Fernando Collor, acrescentava um toque de mistério à história recente.
Lá fora, o Muro de Berlim caíra em 1989, tragando de roldão a antiga União Soviética. A Guerra Fria tornava-se passado, levando à supremacia de uma única superpotência mundial. 1996 foi um típico ano do período que se convencionou chamar de Pax Americana, análogo à Pax Romana do auge do Império Romano. Teríamos mesmo chegado ao Fim da História, título de um famoso livro do historiador Francis Fukuyama, sucesso editorial da época.
Mas tensões se acumulavam sob esse manto de estabilidade. Silenciosamente, a China consolidava sua estratégia de crescimento acelerado, preparando-se para o lugar de preponderância que ocuparia no novo século. Enquanto isso, o extremismo islâmico avançava no esquecido Afeganistão, com a subida do Talibã ao poder. O novo regime deu guarida a Osama Bin Laden, que assim pôde preparar com calma os violentos atentados que, em cinco anos, sepultariam para sempre o mundo conhecido até então.
Enquanto isso, a tecnologia avançava. À frente das ofertas expostas nas vitrines de informática, um observador confiante exclamaria que o cérebro humano jamais seria superado pela inteligência artificial à venda ali. Mas as promessas da ficção científica se avizinhavam na esquina. Pela primeira vez, um mestre enxadrista como Garry Kasparov foi derrotado por uma máquina. Era um vislumbre dos extraordinários avanços que estariam por vir nas próximas décadas.
Deixando os ambientes refrigerados das grandes corporações, o computador ingressava definitivamente na rotina das pequenas empresas e, mais ainda, integrava-se aos lares como um novo tipo de eletrodoméstico. Capaz de ajudar nas tarefas escolares e no controle do orçamento da casa, o computador pessoal permitia visitar bibliotecas e museus de arte sem sair de casa. Mais ainda, prometia quebrar as barreiras físicas das conexões pessoais através do e-mail e do chat, inaugurando uma nova era de fraternidade universal. Nem se imaginava a distopia das redes sociais.
A internet era a novidade que ganhava corpo na imaginação do povo, inclusive como novela. Explode Coração, de Glória Perez, mergulhava na exótica cultura cigana, ao mesmo tempo em que criava, avant la lettre, um programa de videochamada do tipo Skype, que se popularizaria apenas anos depois. Foi o tempo em que a Rede Globo reinava absoluta no entretenimento noturno da família brasileira.
