Trinta anos da coluna Haicai Brasileiro

Escrito por

em

,

Edson Iura

Ao completar trinta anos, a coluna Haicai Brasileiro inscreve-se na tradição inaugurada por Masaoka Shiki, um dos quatro grandes mestres do haicai japonês (ao lado de Bashô, Buson e Issa), que transformou sua coluna de jornal em espaço de aprendizagem, crítica e formação de novos autores. Desde sua primeira edição, em 1996, a coluna acompanhou as transformações da imprensa nipo-brasileira, atravessou o fechamento de jornais, adaptou-se às novas tecnologias e manteve viva uma comunidade de haicaístas em língua portuguesa. Sua história confunde-se, assim, com a própria consolidação do haicai brasileiro contemporâneo.

Leia também: O Haicai Brasileiro pelos haicaístas

Masaoka Shiki em selo postal comemorativo de 8 ienes, 1951 (Reprodução da internet)

A primeira coluna de haicai em jornal foi assinada por Masaoka Shiki (1867-1902) no jornal Nippon, de 1892 a 1902. Inicialmente, Shiki escrevia artigos e analisava haicais de seu círculo de amigos. Foi apenas em 1894 que convocou os leitores em geral a enviar seus poemas, para selecionar e publicar os melhores.

Após avaliar
três milhares de haicais:
Comi dois caquis.

Shiki

(Os versos acima descrevem o afã de Shiki no trabalho de selecionar a grande quantidade de haicais dos leitores, ante a expectativa de uma modesta mas querida recompensa)

Esse tipo de jornalismo expandiu-se rapidamente e, na década de 1900, já era raro encontrar um grande periódico nacional sem coluna de haicai. A tendência reflete o crescimento explosivo do interesse público pela forma poética. Tal sucesso é  o grande mérito de Shiki, que salvou o haicai do esquecimento ao defender a renovação de temas e diretrizes de composição.

Nos anos pioneiros, travaram-se grandes embates literários por meio das colunas de haicai dos jornais, cada qual refletindo uma tendência do movimento haicaísta. Com o tempo, as polêmicas foram se deslocando para as revistas especializadas.  Não obstante, as colunas de haicai continuam a concentrar o interesse do grande público, caracterizando-se como portas de entrada para os iniciantes na  arte e combinando a seleção de poemas com textos didáticos.

Vemos assim que, desde sua origem com Shiki, as colunas de haicai desempenham as funções de ensino de haicai e formação de autores. Além disso, ao disponibilizarem espaços permanentes de publicação, favorecem o surgimento de comunidades literárias.   

Satô Nenpuku (Arquivo de Satô Gyûdôshi)

O movimento haicaísta chegou ao Brasil junto com os imigrantes. Registra-se a existência de uma coluna de haicai no jornal Nanbei (América do Sul), talvez anterior à década de 1920.  O consagrado mestre Satô Nenpuku (1898-1979) estabeleceu sua coluna no jornal Burajiru Jihô (Notícias do Brasil), de 1935 a 1941, ano de sua extinção devido à guerra. Em 1947, com o retorno dos jornais em língua japonesa, Nenpuku inaugurou nova coluna no recém-fundado Paulista Shinbun (Jornal Paulista), até aposentar-se em 1977, após 30 anos ininterruptos.

O surgimento de uma coluna de haicai em português necessitava esperar pelo amadurecimento do próprio público, que se deu de maneira acelerada nos anos 1980. Durante esta década,  poetas como Haroldo de Campos, Olga Savary e Paulo Leminski reapresentaram o haicai a uma geração inteira através de traduções de grande alcance. Muito sintomático do caldo de cultura que fervilhava nessa época foi o sucesso obtido pelo 1.º Encontro Brasileiro de Haicai, em 1986. Em entusiasmado balanço final, seus visionários realizadores, dentre os quais se destaca Francisco Handa,  preconizavam não apenas a divulgação do haicai traduzido, mas a formação de haicaístas em língua portuguesa por meio da criação de grêmios e de colunas de jornal.

Francisco Handa (Reprodução: Jornal Regional)

Se o Grêmio Haicai Ipê foi fundado logo no ano seguinte (1987), a coluna precisou aguardar até 1996. Nesse ano, o publicitário e membro do Grêmio Haicai Ipê Alberto Murata (1935-2011) viabilizou um pequeno espaço de 16 cm x 12 cm no semanário Notícias do Japão. Este jornal, criado no início dos anos 1990, foi, durante sua  existência,  um informativo totalmente em português, voltado aos interesses da comunidade decasségui.

Alberto Murata (Foto: Arquivo Kakinet)

Durante janeiro de 1996, a coluna semanal fez a chamada de haicais para fevereiro, solicitando que o público enviasse poemas sobre os temas Ano Novo, Rosa e Suor. A edição de 2 de fevereiro de 1996, já com o título Haicai Brasileiro,  foi então a primeira com a seleção do mestre Masuda Goga (1911-2008), contendo trabalhos de autoria do próprio Goga (talvez por falta de inscrições), Teruko Oda, Alberto Murata, Hazel de S. Francisco e Suely Moraes, totalizando cinco haicais.

Haicai Brasileiro no Notícias do Japão de 02/02/1996 (Reprodução: Arquivo Kakinet)

Goga continuou com o trabalho de seleção até o fim de 1997, quando aposentou-se de todas as suas obrigações sociais, aos 86 anos de idade. Em janeiro de 1998, Edson Iura e Francisco Handa assumiram conjuntamente a função de selecionadores, enquanto Alberto Murata mantinha a coordenação do espaço. Outras mudanças aconteceram. A coluna passou a ser publicada como rodapé do novo caderno NJ Dois, tabloide cultural encartado no Notícias do Japão. O número de haicais por edição passou a variar de 8 a 10.

Masuda Goga (Foto: Arquivo Kakinet)

A partir de junho de 1998, refletindo o crescente interesse do público, o Haicai Brasileiro assume uma página inteira do tabloide, passando a veicular 12 ou 15 haicais por semana. Além disso, pela primeira vez, oferece a opção de enviar inscrições por e-mail, novidade proporcionada pela internet, introdução recente no Brasil. Até então, a única forma de participar era por carta.

Haicai Brasileiro no Notícias do Japão de 26/11/1999 (Reprodução: Arquivo Kakinet)

Para ocupar o novo espaço, surgem as colunas “Um Mestre Japonês”, com um haicai japonês traduzido por Edson Iura, “Oficina”, com reflexões sobre a prática do haicai por Francisco Handa, e “Pétalas ao Vento”, com notícias e resenhas por Edson Iura e Francisco Handa.

Em 1999, o Notícias do Japão altera seu nome para Nippo-Brasil. O suplemento NJ Dois também muda sua denominação para Zashi. Em julho de 2001, o Haicai Brasileiro passa a ser quinzenal.

Haicai Brasileiro no Nippo-Brasil de 25/07/2007 (Reprodução: Arquivo Kakinet)

Infelizmente, por conta de uma reestruturação da empresa que o controlava, o Jornal Nippo-Brasil encerra suas atividades em março de 2011, após quinze anos de parceria com o Haicai Brasileiro. Mas o ágil Alberto Murata rapidamente se move para conseguir uma nova casa.

Trata-se do Jornal Nippak, desdobramento do tradicional periódico em língua japonesa Diário Nippak ou Nippak Mainichi, fundado em 1947. Escrito totalmente em português, o Jornal Nippak foi um semanário surgido com a finalidade de acompanhar as necessidades das novas gerações de descendentes de japoneses.

Haicai Brasileiro no Jornal Nippak de 05/02/2015 (Reprodução: Arquivo Kakinet)

No novo veículo, o Haicai Brasileiro mantém a frequência quinzenal, publicando 18 haicais selecionados por edição. Entretanto, em maio de 2011, Alberto Murata falece de maneira inesperada, obrigando Edson Iura a acumular as funções de coordenação e seleção dos haicais.

Edson Iura (Foto: Kakinet)

Durante os próximos anos, o Haicai Brasileiro  consagra a fórmula de uma seleção de haicais dos leitores, lado a lado com um artigo, em que se alternam as autorias de Edson Iura e Francisco Handa. O formato não se altera mesmo com as próximas mudanças de jornal.

Em dezembro de 2021, o Jornal Nippak encerra suas atividades, após dez anos de parceria com o Haicai Brasileiro. A coluna passa então ao Nippon Já, onde permanece até a extinção desse jornal, em outubro de 2024, totalizando 34 meses.

Haicai Brasileiro no Nippon Já de 22/05/2022 (Reprodução: Arquivo Kakinet)

Para evitar a descontinuidade do calendário de publicações, Edson Iura e Francisco Handa criam o Boletim Haicai Brasileiro, exclusivamente on-line:

Boletim Haicai Brasileiro (publicação on line) de 25/01/2025 (Reprodução: Arquivo Kakinet)

O boletim funciona, assim, como ponte para o Brasil Nikkei, novo periódico em língua portuguesa lançado por Aldo Shiguti (veterano do Jornal Nippak e do Nippon Já) em janeiro de 2025. O Boletim Haicai Brasileiro, porém, continua existindo de forma paralela, espelhando o conteúdo do jornal.

Haicai Brasileiro no Brasil Nikkei de 12/03/2026 (Reprodução: Arquivo Kakinet)

A Tradução do Haicai

O Haicai Brasileiro é um importante espaço para a tradução do haicai em língua japonesa por Edson Iura. De 1999 a 2003, a seção “Um Mestre Japonês” publicou haicais famosos de autores do Japão. De 2004 a 2005, com a seção “Mestres do Brasil”, foi a vez de divulgar a produção dos imigrantes japoneses no Brasil. De 2006 a 2011, a seção “História do Haicai” retoma o haicai clássico japonês, agora em traduções comentadas. A tradução de haicais de imigrantes continua em curso através dos artigos mensais de Edson Iura sobre kigô e seu uso. Os poemas de “Um Mestre Japonês” foram reunidos em 2024 na Antologia de Haicais Clássicos. Os poemas da seção “História do Haicai” deram origem, em 2025, ao volume Em Volta do Lago. Ambos foram publicados pela Edições Telucazu.

A precursora

Antes da coluna Haicai Brasileiro, Masuda Goga atuou como selecionador de haicais da revista Portal. Publicada entre 1986 e 1995, a revista foi um importante veículo de divulgação da cultura japonesa, num momento marcado pela explosão de interesse no tema, impulsionado pelo crescimento econômico do Japão.

Capa da revista Portal de janeiro de 1992 (Reprodução: Arquivo Kakinet)

A revista Portal, desde seus primeiros números, identificou um grande foco de atração no haicai. Foi isso que a levou a promover o Encontro Brasileiro de Haicai e emprestar sua redação para as primeiras reuniões do Grêmio Haicai Ipê. Outra consequência foi abrir uma coluna de haicai para receber trabalhos dos leitores.

A escolha para selecionador recaiu naturalmente sobre Masuda Goga, um conhecido mestre de haicai em japonês. Goga tinha um grande histórico de intercâmbio com haicaístas brasileiros, o que o levou a ser chamado para as reuniões do recém-fundado Grêmio Haicai Ipê. A Editora Oriento, responsável pela revista, já publicara, em 1987, o livro de Goga O Haicai no Brasil.

Coluna Haicai dos Leitores da revista Portal de junho de 1995 (Reprodução: Arquivo Kakinet)

A coluna iniciou seus trabalhos em 1990 e acabou junto com a própria revista, que fechou suas portas em 1995. Esse fim foi, na verdade, o início da mobilização de membros do Grêmio Haicai Ipê para a procura de um novo espaço na imprensa. O esforço culminou com a inauguração, no ano seguinte, da coluna Haicai Brasileiro no jornal Notícias do Japão.

A coluna de Paulo Franchetti

Paulo Franchetti, professor de literatura da Unicamp, e autor do livro fundamental Haikai — Antologia e História, já foi responsável por uma coluna de haicai. O veículo era o Nikkey, de Campinas, SP, um jornal em língua portuguesa, de periodicidade mensal e conteúdo voltado à comunidade nipo-brasileira da região.

Coluna Haicai do jornal Nikkey de julho de 2008 (Reprodução: Arquivo de Paulo Franchetti)

O grande diferencial dessa coluna estava no fato de que o professor Franchetti não só publicava os haicais enviados pelos leitores, como também os comentava e oferecia sugestões valiosas de aprimoramento. Infelizmente, a coluna foi descontinuada por decisão editorial, após apenas sete edições, de fevereiro a agosto de 2008.

Leia também: O Haicai Brasileiro pelos haicaístas