O Haicai Brasileiro pelos haicaístas

Escrito por

em

,

Edson Iura

A permanência de uma coluna de haicai por trinta anos não se explica apenas pela dedicação de seus editores. Ela depende, sobretudo, das pessoas que a alimentam com seus poemas, sua leitura e sua fidelidade ao longo do tempo. Os depoimentos reunidos a seguir revelam como o Haicai Brasileiro marcou a trajetória de seus colaboradores, tornando-se, para diferentes haicaístas, um espaço de aprendizado, convivência e transformação.

Leia também: Trinta anos da coluna Haicai Brasileiro

Quando passou a aceitar colaborações dos leitores, há mais de 130 anos, Shiki tinha alguns objetivos em mente. Desejava chamar a atenção do público para uma arte com profundas raízes na tradição japonesa. Desejava provar que o haicai não estava obsoleto e que merecia lugar no mundo moderno. Desejava mostrar que o haicai era uma arte acessível a qualquer pessoa, abrindo a coluna à colaboração do leitor comum. Para isso, promovia o aprendizado do haicai através do estudo, da observação da natureza e da prática constante, dispensando a transmissão iniciática de segredos entre mestre e discípulo. São diretrizes mantidas por todas as colunas de haicai que se sucederam e válidas também para o Haicai Brasileiro, nas vozes de seus colaboradores mais antigos e ativos:

“O Haicai Brasileiro significou um enorme incentivo na composição desse gênero poético, por eu estar dando os primeiros passos e me familiarizando com as regras. O Haicai Brasileiro dá oportunidade para os haicaístas de verem seus trabalhos publicados, além de apontar um rumo a seguir.”

Reneu Berni, colaborador desde 2007

A possibilidade de ver seus haicais publicados é uma das maiores fontes de satisfação dos colaboradores. A expectativa e a sensação de recompensa resultante de ver seu trabalho na página são sentimentos comuns a todos:

“Lembro bem da vibração que sentia ao ver algum haicai meu publicado, numa espécie de avaliação positiva, além de poder compará-lo a outros trabalhos. Resumindo: o Haicai Brasileiro, até hoje, faz parte do meu lazer e sou grato por isso!”

Reneu Berni

Mais que uma forma de lazer, muitos colaboradores enxergam a coluna como um verdadeiro refúgio dos problemas diários:

“Foi um ânimo para escrever em meio às atividades do cotidiano e/ou profissionais, uma pausa para voltar a olhar a natureza. Em meio a uma enxurrada de e-mails de trabalho, era um alento e alegria parar para ler haicais de colegas (amigos conhecidos e virtuais), um pit-stop, um oásis, um porto seguro.”

Matsuki Pichorim, colaborador desde 2000

Fonte de prazer e de alento para alguns, para outros essa satisfação em escrever se transfigurou em um verdadeiro princípio organizador de vida:

“Para mim, o Haicai Brasileiro significou uma grande possibilidade de síntese existencial e literária, ou seja, estar vivo e atuante mantendo meus propósitos e valores. Escrever haicais passou a ser uma conexão entre a minha vivência como profissional da saúde, que lida diariamente com a impermanência e o sofrimento humano, e minhas profundas raízes culturais ligadas à natureza do interior brasileiro (principalmente o cerrado), tentando manter unidas a tradição japonesa e a identidade literária do Brasil.”

Carlos Viegas, colaborador desde 2008

Alguns colaboradores chegam ao jornal já com conhecimento prévio, por grêmios ou grupos virtuais. No entanto, o jornal foi, para muitos, a porta de entrada no mundo do haicai:

“Foi Luiz Antônio Pimentel [1912-2015] quem primeiro me falou sobre o jornal Nippo-Brasil, que publicava uma coluna quinzenal de haicai, para onde todos que quisessem poderiam enviar textos. Era a coluna Haicai Brasileiro. Logo enviei meus primeiros haicais, que não foram selecionados. Mas anotei os kigôs da próxima seleção, fiz os haicais e enviei. Tive dois selecionados. Dali, o haicai tomou conta de mim.”

Benedita Azevedo, colaboradora desde 2004

(Benedita reuniu recentemente, no livro Arrebol de Outono, seus mais de 500 haicais publicados no jornal durante duas décadas)

O papel formador do jornal se reflete tanto na curadoria dos haicais publicados, reflexo da orientação estética dos selecionadores, quanto diretamente, através dos artigos didáticos. Esse caráter é claramente percebido pelos colaboradores:

“A coluna nos ajuda a medir a qualidade do que produzimos, diante da variada gama de poesias publicadas.”

Madô Martins, colaboradora desde 1999

“A coluna foi, para mim, uma janela para o haicai praticado segundo a escola do mestre Goga. A possibilidade de enviar os poemas para a coluna estimulou o exercício do olhar e o hábito de escrevê-los. Os haicais selecionados e as lições de Francisco Handa moldaram o meu entendimento sobre o que é o haicai brasileiro.”

Antônio Seixas, colaborador desde 2002

“Uma escola do bom haicai clássico, um aprendizado constante que muito me guiou nestes 26 anos que eu participo da coluna.”

Matsuki Pichorim

A transformação que a prática do haicai provoca sobre o olhar cotidiano é eloquente. O haicai torna-se menos um exercício de escrita e mais uma requalificação da relação do haicaísta com o seu entorno, renovando o sentido das coisas mais simples do dia a dia:

“Poder utilizar as memórias de minhas vivências, revisitar meu velho bairro, seu rio, suas árvores, suas aves etc. Reler a cidade onde vivo, as praças, a pequena feira de sábado, os quintais. Aprimorar o senso de observação e escrita.”

José Marins, colaborador desde 2004

“Minha vida ganhou um novo colorido. Eu andava pelas ruas, de caderneta na mão, observando tudo e escrevendo. A natureza tomou outra dimensão, outro significado.”

Benedita Azevedo

“A coluna ajudou a manter nossa produção de haicais mensalmente e com contato com kigôs que eram, às vezes, desafiantes, e que nos obrigavam a sair do escritório para entrar e sentir coisas novas, como por exemplo participar de um Tanabata Matsuri só pra sentir e experimentar novos haicais.”

Matsuki Pichorim

“Mais do que uma prática, o haicai é um modo de vida. O haicaísta torna-se uma pessoa mais sensível ao mundo à sua volta, percebe as belezas de cada estação, observa os animais, saboreia os eventos do calendário, cultiva o silêncio e a meditação. Por preservar tais experiências, só temos a agradecer a persistência do Haicai Brasileiro, que aproxima aqueles que buscam evolução interior através de pontos de vista tão diferentes, mas tão convergentes.”

Madô Martins

A coluna não criou os princípios do haicai tradicional, mas ofereceu, a cada edição ao longo de 30 anos, um espaço regular e confiável de aprendizado, prática e curadoria, através do qual esses princípios puderam ser exercitados e difundidos em língua portuguesa:

“Esses haicais são exemplos corretos da síntese, do vazio, do corte, da justaposição dos dois segmentos frasais para que o kigô seja a razão, o centro do poema e o haicai se realize. Enfatizo o fato de que já passaram pelo crivo de dois conceituados, praticantes e estudiosos desse gênero, Edson Iura e Francisco Handa.”

Regina Alonso, colaboradora desde 2004

Por fim, é digno de nota o espírito comunitário desenvolvido pelos colaboradores do Haicai Brasileiro, que passam a se reconhecer e se apreciar mutuamente. Diferentes gerações de haicaístas de vários pontos geográficos se cruzam e se unem por uma prática, solitária no momento da escrita, mas que ganha sentido coletivo na leitura em conjunto:

“É a oportunidade de compartilhar minhas contribuições, de me juntar aos que escrevem haicais. O encontro de veteranos e iniciantes no mesmo espaço literário.”

José Marins

“Sinto-me em família.”

Benedita Azevedo

Passadas três décadas, o Haicai Brasileiro segue sendo muito mais do que uma coluna de jornal: é escola e comunidade. E continuará a sê-lo, a cada nova edição, para os haicaístas que ainda vão descobrir, como tantos antes deles, que o haicai, mais do que uma forma poética, é uma maneira de ser e estar no mundo.

Leia também: Trinta anos da coluna Haicai Brasileiro